sexta-feira, 15 de março de 2019

Medo da viagem

O velho e sobrecarregado Hudson arrastou-se gemendo até chegar à estrada principal em Sallisaw e voltou-se para Oeste, e o sol cegava. Mas sobre a faixa de concreto armado Al calcou o acelerador, porque as molas apertadas demais não ofereciam mais perigo. De Sallisaw a Gore são trinta e três quilômetros, e o Hudson fazia sessenta quilômetros por hora. De Gore a Warner, vinte quilômetros; de Warner a Checotah, vinte e dois quilômetros; de Checotah vem um trecho longo até Henrietta — cinquenta e cinco quilômetros —, mas ao fim encontra-se uma cidade de verdade. De Henrietta a Castle, trinta quilômetros, e o sol ainda brilhava alto e sobre os campos vermelhos, esquentados pelos raios de fogo, vibrava o ar.
Al, ao volante, rosto concentrado, o corpo todo escutando as vozes do caminhão, os olhos incansáveis fixando ora a estrada, ora o painel. Al formava um só corpo com o seu motor, todos os nervos vigiando-lhe as fraquezas, as batidas, os guinchos, os chiados, que pudessem denunciar uma falha qualquer, pudessem determinar uma pane. Tornara-se ele a alma do veículo.
A avó, sentada ao lado dele, estava meio adormecida e gemia fracamente em sonho. Às vezes, abria os olhos, olhava para frente e tornava a fechá-los. E a mãe estava sentada ao lado da avó, um dos cotovelos fora da janela do caminhão, deixando que o sol implacável lhe avermelhasse a pele. A mãe também olhava a estrada, mas seus olhos inexpressivos pareciam nada ver, nem o caminho, nem os campos, nem os postos de gasolina, nem os restaurantes de beira de estrada. Nem sequer erguera os olhos quando o Hudson passara por tudo isso.
Al ajeitou o corpo na poltrona rangente e trocou a mão que controlava o volante. E suspirou:
Faz um barulho dos diabos, mas acho que vai bem. Mas Deus nos livre de ter que subir uma montanha com toda esta carga. Por falar nisso, mãe, a gente vai encontrar montanhas no caminho?
A mãe voltou-lhe a cabeça lentamente e seus olhos tornaram à vida.
Eu acho que sim — falou. — Mas, não estou certa. Acho que tem umas colinas e até umas montanhas bem grandes, antes de chegarmos à Califórnia.
A avó emitiu um longo suspiro queixoso em seu sono.
O caminhão vai até pegar fogo se tiver que subir uma montanha. Só se a gente jogar fora alguma coisa desta carga. Talvez fosse melhor não trazer o reverendo — disse Al.
Que nada! A gente ainda vai dar graças por ter trazido ele — disse a mãe. — Ele vai nos ajudar bastante. — E olhou para a frente de novo, fixando a estrada fulgurante.
Al ficou dirigindo com uma das mãos e botou a outra na vibrante alavanca de câmbio. Sentia dificuldades para falar. Sua boca formava silenciosamente as palavras antes de pronunciá-las em voz alta:
Mãe... — Ela o encarou devagar, e sua cabeça tremia um pouco por causa da trepidação do veículo. — Mãe... a senhora tá com medo dessa viagem, não está? Tá com medo desse lugar novo...
Os olhos dela tornaram-se pensativos e brandos.
Um pouquinho, sim — disse. — Mas não tanto quanto ocê pensa. Estou só esperando. Se vem alguma coisa que possa fazer, eu faço.
E a senhora não pensa em como vai ser quando a gente já estiver lá? Não tem medo de que não seja bom como a gente imaginou?
Não — falou ela rapidamente. — Não tenho medo. Não quero nem pensar nisso. Seria viver muitas vidas ao mesmo tempo. A gente podia viver mil vidas, mas no final só pode escolher uma. É demais eu pensar com antecedência em tudo isso. Cê pode viver no futuro, porque é muito jovem ainda, mas para mim o futuro se resume na estrada que corre aos nossos pés. E que daqui a pouquinho chega a hora de se comer umas costeletas de porco. — Suas feições tornaram-se duras. — Mais que isso não posso fazer. Tudo desanda se eu fizer mais que isso. Eles dependem do que eu fizer neste sentido.
A avó bocejou sonoramente e abriu os olhos. Lançou em volta um olhar esgazeado.
Tenho que ir lá fora. Meu Deus, tenho que ir lá fora! — disse.
Um momento. Deixe a gente chegar a umas moitas — falou Al. — Ali adiante.
Moitas ou não, não quero saber disso. Tenho que ir lá fora... tô te dizendo... tenho que ir lá fora. — E começou a guinchar: — Quero sair! Eu quero sair!
Al diminuiu a marcha e travou o caminhão quando chegavam em frente a umas touceiras. A mãe abriu a porta e arrastou a velha, que praguejava, até as touceiras. E a mãe segurava-a, enquanto ela se acocorava, para que não caísse.
No alto da carroceria, os outros começaram a remexer-se. Suas faces brilhavam com raios do sol, de cuja ação não podiam escapar. Tom, Casy, Noah e o tio John deixaram-se estender, fatigados. Ruthie e Winfield desceram pelas bordas do caminhão e sumiram-se entre as moitas. Connie ajudou a cautelosa descida de Rosa de Sharon. Debaixo do encerado, o avô estava acordando e metia a cabeça para fora, mas seus olhos ainda estavam inanimados e aquosos, ainda sob o efeito do calmante, não mostravam compreensão. Olhava os outros, mas não parecia reconhecê-los.
Quer descer, avô? — perguntou Tom.
Os velhos olhos cansados volveram inexpressivos em sua direção.
Não — disse o avô. Por um instante, a antiga malícia pareceu iluminá-los. — Já disse que não vou com vocês. Vou ficar aqui, que nem o Muley. — Depois tornou a perder qualquer interesse. A mãe regressou ao veículo, ajudando a avó a subir no caminhão.
Tom — disse ela —, vais buscar a panela que tem as costeletas. Está embaixo da lona, logo atrás. Precisamos comer qualquer coisa. — Tom trouxe a panela e fê-la circular em volta e a família quedou à margem da estrada a mastigar as aparas de carne de porco arrancadas dos ossos.
Que bom a gente ter trazido isso — disse o pai. — Fiquei tão duro ali em cima que quase não posso andar. Onde está a água?
Não está aí em cima, com vocês? — perguntou a mãe. — Eu deixei aí o cantil.
O pai levantou as pontas da lona e olhou embaixo.
Aqui não está — disse. — Vai ver que a gente esqueceu.
Num instante, a sede começou a dominar todos. Winfield choramingou:
Quero beber água. Quero beber água! — Os homens passaram a língua pelos lábios, concientes de que estavam com sede. Irrompeu um pequeno pânico.
Al sentiu que o temor começava a envolvê-lo.
Vamo arranjar água no próximo posto. Temos que comprar gasolina também. — A família rapidamente tornou a arrumar-se no veículo. A mãe ajudou a avó a entrar e sentou-se ao lado dela. Al pôs o motor em movimento e começaram a rodar de novo.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

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