(Mas
e eu? E eu que estou contando esta história que nunca me aconteceu e
nem a ninguém que eu conheça? Fico abismado por saber tanto a
verdade. Será que o meu ofício doloroso é o de adivinhar na carne
a verdade que ninguém quer enxergar? Se sei quase tudo de Macabéa é
que já peguei uma vez de relance o olhar de uma nordestina
amarelada. Esse relance me deu ela de corpo inteiro. Quanto ao
paraibano, na certa devo ter-lhe fotografado mentalmente a cara — e
quando se presta atenção espontânea e virgem de imposições,
quando se presta atenção a cara diz quase tudo.)
E
agora apago-me de novo e volto para essas duas pessoas que por força
das circunstancias eram seres meio abstratos.
Mas
ainda não expliquei bem Olímpico. Vinha do sertão da Paraíba e
tinha uma resistência que provinha da paixão por sua terra braba e
rachada pela seca. Trouxera consigo, comprada no mercado da Paraíba,
uma lata de vaselina perfumada e um pente, como posse sua e
exclusiva. Besuntava o cabelo preto até encharcá-lo. Não
desconfiava que as cariocas tinham nojo daquela meladeira gordurosa.
Nascera crestado e duro que nem galho seco de árvore ou pedra ao
sol. Era mais passível de salvação que Macabéa pois não fora à
toa que matara um homem, desafeto seu, nos cafundós do sertão, o
canivete comprido entrando mole-mole no fígado macio do sertanejo.
Guardava disso segredo absoluto, o que lhe dava a força que um
segredo dá. Olímpico era macho de briga. Mas fraquejava em relação
a enterros: às vezes ia, três vezes por semana a enterro de
desconhecidos, cujos anúncios saíam nos jornais e sobretudo no O
dia: e seus olhos ficavam cheios de lágrimas. Era uma fraqueza, mas
quem não tem a sua. Semana em que não havia enterro, era semana
vazia desse homem que, se era doido, sabia muito bem o que queria. De
modo que não era doido coisa alguma. Macabéa, ao contrário de
Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”.
Na verdade ela parecia ter nascido de uma idéia vaga qualquer dos
pais famintos. Olímpico pelo menos roubava sempre que podia e até
do vigia de obras onde era sua dormida. Ter matado e roubar faziam
com que ele não fosse um simples acontecido qualquer, davam-lhe uma
categoria, faziam dele um homem com honra até lavada. Ele também se
salvava mais do que Macabéa porque tinha grande talento para
desenhar rapidamente perfeitas caricaturas ridículas dos retratos de
poderosos nos jornais. Era a sua vingança. Sua única bondade com
Macabéa foi dizer-lhe que arranjaria para ela emprego na metalúrgica
quando fosse despedida. Para ela a promessa fora um escândalo de
alegria (explosão) porque na metalúrgica encontraria a sua única
conexão atual com o mundo: o próprio Olímpico. Mas Macabéa de um
modo geral não se preocupava com o próprio futuro: ter futuro era
luxo.
Ouvira
na Rádio Relógio que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela
se sentia perdida. Mas com a tendência que tinha para ser feliz logo
se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la. Macabéa
gostava de filme de terror ou de musicais, Tinha predileção por
mulher enforcada ou que levava um tiro no coração. Não sabia que
ela própria era uma suicida embora nunca lhe tivesse ocorrido se
matar. É que a vida lhe era tão insossa que nem pão velho sem
manteiga. Enquanto Olímpico era um diabo premiado e vital e dele
nasceriam filhos, ele tinha o precioso sêmen. E como já foi dito ou
não foi dito Macabéa tinha ovários murchos como um cogumelo
cozido. Ah pudesse eu pegar Macabéa, dar-lhe um bom banho, um prato
de sopa um beijo na testa enquanto a cobria com um cobertor. E fazer
que quando ela acordasse encontrasse simplesmente o grande luxo de
viver.
Clarice
Lispector, in A hora de estrela
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