As
andorinhas de Atenas são descendentes em linha direta daquelas que
viviam no tempo de Anacreonte e que pousavam no ombro do poeta quando
ele libava nas tavernas.
Esta
informação, ministrada ao turista pelo guia, não mereceu crédito.
Anacreonte (ponderou o visitante) não era de frequentar tavernas.
Sentava-se à mesa dos poderosos e gozava de alta cotação social.
O
guia não se impressionou com os conhecimentos biográficos:
— Pois
olhe. Essas andorinhas foram trazidas de Samos pelo próprio
Anacreonte, que por sinal selecionava as mais gordinhas para almoço.
Era doido por andorinha no espeto.
— Como
pode saber disto? — objetou o turista.
— Bem
se vê que o senhor não conhece a Antologia palatina.
— Conheço-a,
foi objeto da minha tese de mestrado, e não vi no texto uma linha
que conte essa fábula.
— Meu
caro senhor, peço licença para me retirar. Quem não acredita nas
minhas histórias dificilmente levará uma boa impressão de Atenas.
E
afastou-se com a maior dignidade.
Carlos
Drummond de Andrade, in Contos Plausíveis
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