Levantei
as 7 horas. Alegre e contente. Depois que veio os aborrecimentos. Fui
no deposito receber... 60 cruzeiros. Passei no Arnaldo. Comprei pão,
leite, paguei o que devia e reservei dinheiro para comprar Licôr de
Cacau para Vera Eunice. Cheguei no inferno. Abri a porta e pus os
meninos para fora. A D. Rosa, assim que viu o meu filho José Carlos
começou impricar com êle. Não queria que o menino passasse perto
do barracão dela. Saiu com um pau para espancá-lo. Uma mulher de 48
anos brigar com criança! As vezes eu saio, ela vem até a minha
janela e joga o vaso de fezes nas crianças. Quando eu retorno
encontro os travesseiros sujos e as crianças fétidas. Ela odeia-me.
Diz que sou preferida pelos homens bonitos e distintos. E ganho mais
dinheiro do que ela.
Surgio a D. Cecilia. Veio repreender os
meus filhos. Lhe joguei uma direta, ela retirou-se. Eu disse:
– Tem mulher que diz saber criar os
filhos, mas algumas tem filhos na cadeia classificado como mau
elemento.
Ela retirou-se. Veio a indolente Maria
dos Anjos. Eu disse:
– Eu estava discutindo com a nota, já
começou chegar os trôcos. Os centavos. Eu não vou na porta de
ninguem. É vocês quem vem na minha porta aborrecer-me. Eu nunca
chinguei filhos de ninguem, nunca fui na porta de vocês reclamar
contra seus filhos. Não pensa que eles são santos. É que eu tolero
crianças.
Veio a D. Silvia reclamar contra os meus
filhos. Que os meus filhos são mal iducados. Mas eu não encontro
defeito nas crianças. Nem nos meus nem nos dela. Sei que criança
não nasce com senso. Quando falo com uma criança lhe dirijo
palavras agradaveis. O que aborrece-me é elas vir na minha porta
perturbar a minha escassa tranquilidade interior (. . .) Mesmo elas
aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas
dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu caráter. A
única coisa que não existe na favela é solidariedade.
Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e
deu-me uns peixes. Vou fazer o almoço. As mulheres saíram,
deixou-me em paz por hoje. Elas já deram o espetáculo. A minha
porta atualmente é theatro. Todas crianças jogam pedras, mas os
meus filhos são os bodes expiatorios. Elas alude que eu não sou
casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são
obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de
caridade.
Os meus filhos não são sustentados com
pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para
mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor.
A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão
ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do
barracão eu e meus filhos dormimos sossegados. Não invejo as
mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas.
Não casei e não estou descontente. Os
que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham
eram horriveis.
Tem a Maria José, mais conhecida por
Zefa, que reside no barracão da Rua B numero 9. É uma alcoolatra.
Quando está gestante bebe demais. E as crianças nascem e morrem
antes dos doze meses. Ela odeia-me porque os meus filhos vingam e por
eu ter radio. Um dia ela pediu-me o radio emprestado. Disse-lhe que
não podia emprestar. Que ela não tinha filhos, podia trabalhar e
comprar. Mas, é sabido que pessoas que são dadas ao vicio da
embriaguez não compram nada. Nem roupas. Os ebrios não prosperam.
Ela as vezes joga agua nos meus filhos. Ela alude que eu não expanco
os meus filhos. Não sou dada a violência. O José Carlos disse:
– Não fique triste mamãe! Nossa
Senhora Aparecida há de ter dó da senhora. Quando eu crescer eu
compro uma casa de tijolos para a senhora.
Fui catar papel e permaneci fora de casa
uma hora. Quando retornei vi várias pessoas as margens do rio. É
que lá estava um senhor inconciente pelo alcool e os homens
indolentes da favela lhe vasculhavam os bolsos. Roubaram o dinheiro e
rasgaram os documentos (...) É 5 horas. Agora que o Senhor Heitor
ligou a luz! E eu, vou lavar as crianças para irem para o leito,
porque eu preciso sair. Preciso dinheiro para pagar a luz. Aqui é
assim. A gente não gasta luz, mas precisa pagar. Saí e fui catar
papel. Andava depressa porque já era tarde. Encontrei uma senhora.
Ia maldizendo sua vida conjugal. Observei mas não disse nada. (...)
Amarrei os sacos, puis as latas que catei no outro saco e vim para
casa. Quando cheguei liguei o radio para saber as horas. Era 23,55.
Esquentei comida, li, despi-me e depois deitei. O sono surgio logo.
Carolina Maria de Jesus, in Quarto
de despejo
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