terça-feira, 12 de março de 2019

A renúncia

Assim, tendo conhecido a velhice, a dor e a morte, concluímos que o prazer é uma ilusão, que todos os que gozam, presas desta ilusão - a maior de todas -, não compreendem nada sobre a instabilidade das coisas. Então fugimos do mundo, persuadidos do caráter efêmero da beleza e de todos os charmes deste mundo. Jamais retornarei, nós dissemos, antes de que tenha escapado do nascimento, da velhice e da morte.
Existe muito orgulho e sofrimento nesta renúncia. Ao invés de nos retirarmos discretamente, sem ódio nem revolta, denunciamos a ignorância e as fraquezas dos outros; condenamos o prazer e as volúpias com que os homens se deleitam. Aqueles que renunciaram ao mundo para se consagrar à ascese agiram de tal forma, convencidos de terem ultrapassado as misérias humanas. O sentimento de alcançar uma eternidade subjetiva lhes deu a ilusão de uma entrega total. Entretanto, a impotência de realmente se liberarem é demonstrada na sua condenação do prazer e no seu desprezo por aqueles que vivem por viver. Ainda que eu devesse me retirar no mais apavorante dos desertos, renunciar a tudo para nada mais conhecer além da solidão total, jamais ousaria desprezar o prazer e seus adeptos. Uma vez que a renúncia e a solidão não podem me valer a eternidade, uma vez que sou destinado a morrer como todos os outros, por que sustentaria meu próprio caminho como o único verdadeiro? Os profetas não são desprovidos de toda compreensão, de toda discrição? Eu percebo a dor, a velhice e a morte, e me dou conta de que não saberíamos vencê-las. Mas por que com elas atrapalharia o prazer do outro? Na certa, somente a renúncia pode tentar aquele que foi confrontado por tais realidades e que as vive persuadido de sua perenidade. O sofrimento conduz, certamente, à renúncia; entretanto, eu jamais condenaria a alegria de um outro, ainda que a lepra me devorasse. A condenação sempre contém uma boa parcela de inveja. O budismo e o cristianismo não passam de vingança e de ciúme no que concerne aos sofredores. À agonia, eu o sinto, poderia fazer apenas a apologia da orgia. Não recomendo a renúncia a ninguém, pois raros demais são aqueles que conseguem, uma vez no deserto, vencer a obsessão do efêmero. Lá, como no mundo, a precariedade das coisas mantém o mesmo doloroso atrativo. Saibamos bem que as ilusões dos grandes solitários foram ainda mais irreais do que as dos inocentes e ignorantes.
A ideia de renúncia é tão amarga que nos surpreende o fato de que o homem possa tê-la concebido. Quem nunca sentiu, numa crise de desespero, um arrepio percorrer-lhe o corpo, uma sensação inelutável de abandono, de morte cósmica e de nada, de vazio subjetivo e de inexplicável inquietude, este ignora as terríveis preliminares da renúncia.
Mas como renunciar? Onde ir para não abandonar Tudo de uma só vez (ainda que esta seja a única renúncia verdadeira)? Não podemos mais encontrar deserto exterior; falta-nos a decoração (aparência) da renúncia. Incapazes de viver livres sob o sol sem outro pensamento que não seja o da eternidade..., como poderíamos nos tornar santos ao abrigo? É um drama eminentemente moderno não poder renunciar de outra forma que não pelo suicídio. Mas, se nosso deserto interior pudesse materializar-se, sua imensidade não nos oprimiria?

***
 
Por que não explodir? Não existe em mim energia o suficiente para fazer tremer o universo? Loucura o bastante para aniquilar toda a clareza? Minha única alegria não é a do caos, e meu prazer o élan que me abate? Minhas ascensões não são minhas quedas, minha explosão não é minha paixão? Não posso amar sem me autodestruir? Estaria hermeticamente fechado aos estados puros? Meu amor comportaria tanto veneno?
Devo abandonar-me completamente a todos os estados e não mais analisá-los para vivê-los no mais completo excesso.
Não combati a morte o bastante? Devo, ainda, ter Eros como inimigo? Por que, então, tenho tanto medo quando o amor renasce em mim?, por que tenho vontade de engolir o mundo a fim de impedir o crescimento deste amor? Minha miséria: quero ser enganado em amor para ter novas razões de sofrer. Pois somente o amor nos revela nosso declínio. Aquele que encarou a morte pode ainda amar? Pode ainda morrer de amor?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

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