“O
capitalismo agoniza!” — gritou Mayer Guinzburg quando ouviu falar
do crack na bolsa de Nova York. José Goldman concordou com
entusiasmo. Leia preferia calar. Tinha suas dúvidas.
Naquele
ano Mayer Guinzburg lia Rosa Luxemburg (1870-1919), que ele chamava
carinhosamente “minha rosa de Luxemburgo”, embora ela não fosse
de Luxemburgo e sim da Polônia. Muito moça, emigrara para a
Alemanha, lá casando com um trabalhador. Editou o “Arbeiterzeitung”,
mas logo depois foi trabalhar no “Leipziger Volkszeitung”. Tomou
parte na revolução russa de 1905; em seu retorno fundou, com Karl
Libknecht, a Liga dos Espartaquistas. Foram presos em janeiro de 1919
e levados à Prisão Moabita, de Berlim, onde os guardas os mataram a
pretexto de impedir-lhes a fuga. Os corpos foram jogados em um canal
e achados somente alguns dias depois. Rosa de Luxemburgo... Mayer
Guinzburg chorava lendo as “Cartas da Prisão”. Rosa de
Luxemburgo; Mayer Guinzburg tinha uma fotografia dela; um rosto puro
e iluminado, parecido ao de Leia. Rosa de Luxemburgo.
José
Goldman achava que tinham de formar logo a colônia coletiva. Mayer
Guinzburg hesitava; pensava em constituir primeiro um grupo
semelhante à Liga dos Espartaquistas. Para isto trouxe dois amigos:
Berta Kornfeld e Marc Friedmann.
Marc
Friedmann era francês. Seu pai, um engenheiro ferroviário, estava
no Brasil há muitos anos. Era um homem culto e refinado. Quanto a
Marc Friedmann, gostava de música e usava um lenço de seda no
pescoço. Berta Kornfeld era feia, sombria e feroz; Marc Friedmann,
gentil e educado; tão diferentes — e, no entanto, ambos
progressistas! Formado o grupo, surgiu o problema de encontrar um bom
local para as reuniões — e talvez para sede da futura sociedade.
Marc Friedmann lembrou a propriedade de seu pai no Beco do Salso.
— Não
costumamos ir lá — informou. — Há uma grande casa, e está
vazia... Podemos usá-la como local de reuniões, e talvez formar lá
a nossa colônia coletiva.
Em
1919, Porto Alegre era uma cidade pequena. Viajar ao Beco do Salso —
um caminho estreito entre morros cobertos de mato — era uma
expedição e — segundo Leib Kirschblum que chegava lá perto para
vender a prestação — não totalmente isenta de perigos. Isto
estimulou ainda mais Mayer Guinzburg e seus companheiros: Leia,
porém, não gostou muito da ideia. Mas Berta Kornfeld propôs a
expulsão sumária de quem se recusasse a ir, e Leia teve de ceder.
Berta Kornfeld era feia, sombria e feroz; nunca casou. Tinha uma
adoração secreta por Vladimir Ilich Ulianov, o Lênin (1870-1924),
cujo nome murmurava dormindo. Sua mãe, a velha Pessl, embora
demente, se assustava com esta paixão: “Vai ver que é um gói,
que é casado e bebe...”. Berta Kornfeld veio a morrer de
tuberculose, ainda moça; no delírio final chamava por Lênin, pedia
que ele deitasse ao lado dela na cama, que a abraçasse. As pessoas
que a assistiam na agonia desviavam os olhos para não ver esta
péssima cena.
1929.
Um dia partirão, de manhã bem cedo. As ruas do Bom Fim estarão
desertas; nem mesmo os velhos os espiarão, os velhos que vão de
madrugada à sinagoga. Se encontrarão na esquina da Henrique Dias
com a Felipe Camarão, surgindo na cerração. Um desenho de Mayer
Guinzburg mostra o início desta jornada histórica — os cinco
companheiros marchando, lado a lado, em direção à Avenida Oswaldo
Aranha. Usam blusões de couro, bonés e mantas cinzas enroladas nos
pescoços. Nas costas, grandes mochilas, com barracas, cobertores,
roupas; livros: Walt Whitman, Rosa de Luxemburgo.
Tomarão
um bonde, descerão no fim da linha, farão o resto do trajeto a pé.
As casas irão escasseando. Surgirá a mata, a natureza. Eles
aspirarão o ar puro e sorrirão. Terão chegado.
Cruzarão
o antigo portão de ferro batido; caminharão por uma trilha mal
cuidada entre altos arbustos; chegarão a um largo descampado; e lá,
sobre uma suave elevação, estará a casa.
Em
1929 a casa já será velha.
Um
desenho de Mayer Guinzburg mostra-a, muito grande, com uma larga
porta e muitas janelas. O estilo tende ao colonial. O material é de
boa qualidade, embora a pintura esteja bastante maltratada.
Rodeiam-na matos e nascentes.
Em
frente à casa eles se reúnem em círculo, para uma breve cerimônia.
Ainda de mochilas às costas ouvem Mayer Guinzburg falar de Nova
Birobidjan, das plantações, das fábricas, do Palácio da Cultura.
Termina dizendo com voz firme e tranquila: — Iniciamos agora a
construção de uma nova sociedade.
Plantam
no chão um grande bambu, à guisa de mastro. Nova Birobidjan ainda
não tem bandeira, mas eles hasteiam o lenço colorido de Leia.
Marc
Friedmann abre a porta com dificuldade. A casa está vazia; há
somente um velho sofá de couro marrom. O chão de largas tábuas
está juncado de insetos mortos.
Mayer
Guinzburg imediatamente divide o grupo em comitês: Comitê da
Limpeza, Comitê da Comida, Comitê de Estudos Políticos, este
último dirigido por ele mesmo.
Como
transcorrerá o resto do dia? “Em febril atividade” — dirá
Marc Friedmann em seu diário; “Limpando aquela sujeira de anos”
— dirá Leia, no seu. Ao meio-dia comem sanduíches. Às sete horas
reúnem-se para fazer um balanço das atividades. O Comitê de
Limpeza pôs a casa em ordem; decorou-a com cartazes e faixas
fornecidos pelo Comitê de Assuntos Políticos; além disto, tendo
terminado suas tarefas antes do tempo previsto, erigiu um novo
mastro, feito de tronco de eucalipto. Mayer Guinzburg elogia isto. O
Comitê da Comida preparou um jantai‘ quente e reconfortante; com
esta notícia, fica adiada a leitura do relatório do Comitê de
Estudos Políticos, que versa sobre complexas questões de
produtividade, tomada do poder e conscientização.
Depois
do jantar reúnem-se em torno a uma fogueira e cantam: a princípio,
hinos belicosos e depois melancólicas canções em iídiche. A
bandeira desce do mastro, Mayer Guinzburg faz um breve discurso sobre
as tarefas que os esperam e vão todos dormir.
Durante
meia hora a casa fica em silêncio. Depois se inicia uma estranha
movimentação; portas se abrem e fecham, vultos passam no escuro; e
sussurros, e risinhos, e exclamações abafadas...
Na
manhã seguinte, ao sair do quarto de Leia, Mayer Guinzburg encontra
Marc Friedmann.
— Dormiu
bem, Marc? — diz, embaraçado. Sabes que eu...
— Exijo
uma reunião urgente — atalha o outro sem encará-lo. — Uma
reunião de crítica e autocrítica.
Todos
reunidos, Mayer dá a palavra a Marc Friedmann, que começa a falar
com mal contida indignação sobre os acontecimentos noturnos. Não
quero citar nomes, começa ele, sem olhar para ninguém, mas coisas
estranhas aconteceram aqui, coisas reacionárias, pequeno-burguesas;
nós viemos aqui para trabalhar, diz ele, para construir uma
sociedade nova e, em vez disto, o que se vê é o dispêndio de
energias em outras coisas. Por isto proponho, finaliza ele, que de
agora em diante homens e mulheres durmam separados.
Mayer
Guinzburg o escuta, a princípio intrigado, logo desconfiado e por
fim irado. Espera Marc Friedmann terminar, e pede a palavra. Em
primeiro lugar, diz ele, as acusações do Companheiro Marc não
foram apoiadas em fatos, mas sim em sussurros, risinhos ou passos
furtivos. Em segundo lugar, continua ele, nunca ouvi dizer que o amor
verdadeiro, o amor progressista, fosse errado. A própria Companheira
Rosa de Luxemburgo amou, e amou muito..., Os argumentos se sucedem;
Marc Friedmann está pálido; e quando Mayer Guinzburg finaliza,
intimando-o a proceder à autocrítica, sua perturbação chega ao
máximo. Há lágrimas em seus olhos quando ele se levanta.
— Não
acho justo, — diz — não acho justo, vocês... Eu não posso;
José Goldman sabe que eu não posso, que eu não gosto de meninas...
Eu não posso, pronto! O que é que vocês querem que eu faça? Me
critiquem, gritem comigo, me batam, me chicoteiem até eu sangrar —
eu não posso, não posso! Há um silêncio. Mayer dá por encerrada
a reunião e os companheiros se separam.
Naquela
tarde arrumam suas coisas e voltam.
Mayer
vai para casa. O pai o espera, sentado na poltrona, a fisionomia
sombria.
— Não
quero discutir — vai logo avisando Mayer.
O
pai ignora a advertência: — Mayer, meu filho, por que me
atormentas? Sabes que minha maior alegria é que fosses um rabino, um
sábio respeitado... Teus livros estão todos empoeirados...
Mayer
vai para o quarto; sujo como está, não se atreve a deitar na cama,
com medo das recriminações da mãe. Deita no chão, vestido e
adormece. Acorda muitas horas depois; é madrugada. Levanta-se. Na
sala da frente o pai adormecido no sofá de couro marrom. Sob a porta
Mayer vê uma folha de papel dobrada. É uma carta de Marc Friedmann:
“Quando a aurora chegar, plantem o trigo por mim. Quando o futuro
chegar, quando os homens forem irmãos e se derem as mãos, plantem o
trigo por mim. Quando as crianças puderem correr felizes pelos
campos, sem medo da fome e da guerra, plantem o trigo por mim. Eu
viverei nas espigas maduras..
“Traidor”
— murmura Mayer, amassando o papel. Vai para a cozinha fazer o
café. A princípio, move-se lentamente e com desgosto; aos poucos
vai adquirindo energia e entusiasmo. Acende o fogão, abanando
vigorosamente as chamas débeis que surgem entre as achas de lenha;
enche de água a chaleira de ferro. A pele do braço se arrepia ao
contato das gotas frias, a bexiga reclama seus direitos. Coloca a
chaleira sobre a chapa do fogão, onde o fogo finalmente se ergue em
boas labaredas. Abre a porta da cozinha e urina na terra, olhando o
galo que, pousado no muro, se prepara para anunciar à Rua Felipe
Camarão o despertar do novo dia. “Bom dia, Companheiro Galo!”. A
água está fervendo. Põe duas — não, três colheres bem cheias
de café no coador, despeja a água, e está pronto o café. No
armário há um pedaço de pão dormido que ele come com apetite,
molhando-o no café bem adoçado. “Bom dia, Companheiro Café! Bom
dia, Companheiro Pão!”. Um ruído fá-lo voltar-se: da porta da
cozinha o pai e a mãe o contemplam com espanto. Mayer deixa a xícara
na pia e vai para o quintal. Apanha a enxada, cospe nas mãos,
escolhe um local e começa a virar a terra.
Trabalha
sem cessar, tem muito o que fazer.
Está
começando uma horta.
Moacyr
Scliar, in O exército de um homem só
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