quarta-feira, 13 de março de 2019

1929

O capitalismo agoniza!” — gritou Mayer Guinzburg quando ouviu falar do crack na bolsa de Nova York. José Goldman concordou com entusiasmo. Leia preferia calar. Tinha suas dúvidas.
Naquele ano Mayer Guinzburg lia Rosa Luxemburg (1870-1919), que ele chamava carinhosamente “minha rosa de Luxemburgo”, embora ela não fosse de Luxemburgo e sim da Polônia. Muito moça, emigrara para a Alemanha, lá casando com um trabalhador. Editou o “Arbeiterzeitung”, mas logo depois foi trabalhar no “Leipziger Volkszeitung”. Tomou parte na revolução russa de 1905; em seu retorno fundou, com Karl Libknecht, a Liga dos Espartaquistas. Foram presos em janeiro de 1919 e levados à Prisão Moabita, de Berlim, onde os guardas os mataram a pretexto de impedir-lhes a fuga. Os corpos foram jogados em um canal e achados somente alguns dias depois. Rosa de Luxemburgo... Mayer Guinzburg chorava lendo as “Cartas da Prisão”. Rosa de Luxemburgo; Mayer Guinzburg tinha uma fotografia dela; um rosto puro e iluminado, parecido ao de Leia. Rosa de Luxemburgo.
José Goldman achava que tinham de formar logo a colônia coletiva. Mayer Guinzburg hesitava; pensava em constituir primeiro um grupo semelhante à Liga dos Espartaquistas. Para isto trouxe dois amigos: Berta Kornfeld e Marc Friedmann.
Marc Friedmann era francês. Seu pai, um engenheiro ferroviário, estava no Brasil há muitos anos. Era um homem culto e refinado. Quanto a Marc Friedmann, gostava de música e usava um lenço de seda no pescoço. Berta Kornfeld era feia, sombria e feroz; Marc Friedmann, gentil e educado; tão diferentes — e, no entanto, ambos progressistas! Formado o grupo, surgiu o problema de encontrar um bom local para as reuniões — e talvez para sede da futura sociedade. Marc Friedmann lembrou a propriedade de seu pai no Beco do Salso.
Não costumamos ir lá — informou. — Há uma grande casa, e está vazia... Podemos usá-la como local de reuniões, e talvez formar lá a nossa colônia coletiva.
Em 1919, Porto Alegre era uma cidade pequena. Viajar ao Beco do Salso — um caminho estreito entre morros cobertos de mato — era uma expedição e — segundo Leib Kirschblum que chegava lá perto para vender a prestação — não totalmente isenta de perigos. Isto estimulou ainda mais Mayer Guinzburg e seus companheiros: Leia, porém, não gostou muito da ideia. Mas Berta Kornfeld propôs a expulsão sumária de quem se recusasse a ir, e Leia teve de ceder. Berta Kornfeld era feia, sombria e feroz; nunca casou. Tinha uma adoração secreta por Vladimir Ilich Ulianov, o Lênin (1870-1924), cujo nome murmurava dormindo. Sua mãe, a velha Pessl, embora demente, se assustava com esta paixão: “Vai ver que é um gói, que é casado e bebe...”. Berta Kornfeld veio a morrer de tuberculose, ainda moça; no delírio final chamava por Lênin, pedia que ele deitasse ao lado dela na cama, que a abraçasse. As pessoas que a assistiam na agonia desviavam os olhos para não ver esta péssima cena.
1929. Um dia partirão, de manhã bem cedo. As ruas do Bom Fim estarão desertas; nem mesmo os velhos os espiarão, os velhos que vão de madrugada à sinagoga. Se encontrarão na esquina da Henrique Dias com a Felipe Camarão, surgindo na cerração. Um desenho de Mayer Guinzburg mostra o início desta jornada histórica — os cinco companheiros marchando, lado a lado, em direção à Avenida Oswaldo Aranha. Usam blusões de couro, bonés e mantas cinzas enroladas nos pescoços. Nas costas, grandes mochilas, com barracas, cobertores, roupas; livros: Walt Whitman, Rosa de Luxemburgo.
Tomarão um bonde, descerão no fim da linha, farão o resto do trajeto a pé. As casas irão escasseando. Surgirá a mata, a natureza. Eles aspirarão o ar puro e sorrirão. Terão chegado.
Cruzarão o antigo portão de ferro batido; caminharão por uma trilha mal cuidada entre altos arbustos; chegarão a um largo descampado; e lá, sobre uma suave elevação, estará a casa.
Em 1929 a casa já será velha.
Um desenho de Mayer Guinzburg mostra-a, muito grande, com uma larga porta e muitas janelas. O estilo tende ao colonial. O material é de boa qualidade, embora a pintura esteja bastante maltratada. Rodeiam-na matos e nascentes.
Em frente à casa eles se reúnem em círculo, para uma breve cerimônia. Ainda de mochilas às costas ouvem Mayer Guinzburg falar de Nova Birobidjan, das plantações, das fábricas, do Palácio da Cultura. Termina dizendo com voz firme e tranquila: — Iniciamos agora a construção de uma nova sociedade.
Plantam no chão um grande bambu, à guisa de mastro. Nova Birobidjan ainda não tem bandeira, mas eles hasteiam o lenço colorido de Leia.
Marc Friedmann abre a porta com dificuldade. A casa está vazia; há somente um velho sofá de couro marrom. O chão de largas tábuas está juncado de insetos mortos.
Mayer Guinzburg imediatamente divide o grupo em comitês: Comitê da Limpeza, Comitê da Comida, Comitê de Estudos Políticos, este último dirigido por ele mesmo.
Como transcorrerá o resto do dia? “Em febril atividade” — dirá Marc Friedmann em seu diário; “Limpando aquela sujeira de anos” — dirá Leia, no seu. Ao meio-dia comem sanduíches. Às sete horas reúnem-se para fazer um balanço das atividades. O Comitê de Limpeza pôs a casa em ordem; decorou-a com cartazes e faixas fornecidos pelo Comitê de Assuntos Políticos; além disto, tendo terminado suas tarefas antes do tempo previsto, erigiu um novo mastro, feito de tronco de eucalipto. Mayer Guinzburg elogia isto. O Comitê da Comida preparou um jantai‘ quente e reconfortante; com esta notícia, fica adiada a leitura do relatório do Comitê de Estudos Políticos, que versa sobre complexas questões de produtividade, tomada do poder e conscientização.
Depois do jantar reúnem-se em torno a uma fogueira e cantam: a princípio, hinos belicosos e depois melancólicas canções em iídiche. A bandeira desce do mastro, Mayer Guinzburg faz um breve discurso sobre as tarefas que os esperam e vão todos dormir.
Durante meia hora a casa fica em silêncio. Depois se inicia uma estranha movimentação; portas se abrem e fecham, vultos passam no escuro; e sussurros, e risinhos, e exclamações abafadas...
Na manhã seguinte, ao sair do quarto de Leia, Mayer Guinzburg encontra Marc Friedmann.
Dormiu bem, Marc? — diz, embaraçado. Sabes que eu...
Exijo uma reunião urgente — atalha o outro sem encará-lo. — Uma reunião de crítica e autocrítica.
Todos reunidos, Mayer dá a palavra a Marc Friedmann, que começa a falar com mal contida indignação sobre os acontecimentos noturnos. Não quero citar nomes, começa ele, sem olhar para ninguém, mas coisas estranhas aconteceram aqui, coisas reacionárias, pequeno-burguesas; nós viemos aqui para trabalhar, diz ele, para construir uma sociedade nova e, em vez disto, o que se vê é o dispêndio de energias em outras coisas. Por isto proponho, finaliza ele, que de agora em diante homens e mulheres durmam separados.
Mayer Guinzburg o escuta, a princípio intrigado, logo desconfiado e por fim irado. Espera Marc Friedmann terminar, e pede a palavra. Em primeiro lugar, diz ele, as acusações do Companheiro Marc não foram apoiadas em fatos, mas sim em sussurros, risinhos ou passos furtivos. Em segundo lugar, continua ele, nunca ouvi dizer que o amor verdadeiro, o amor progressista, fosse errado. A própria Companheira Rosa de Luxemburgo amou, e amou muito..., Os argumentos se sucedem; Marc Friedmann está pálido; e quando Mayer Guinzburg finaliza, intimando-o a proceder à autocrítica, sua perturbação chega ao máximo. Há lágrimas em seus olhos quando ele se levanta.
Não acho justo, — diz — não acho justo, vocês... Eu não posso; José Goldman sabe que eu não posso, que eu não gosto de meninas... Eu não posso, pronto! O que é que vocês querem que eu faça? Me critiquem, gritem comigo, me batam, me chicoteiem até eu sangrar — eu não posso, não posso! Há um silêncio. Mayer dá por encerrada a reunião e os companheiros se separam.
Naquela tarde arrumam suas coisas e voltam.
Mayer vai para casa. O pai o espera, sentado na poltrona, a fisionomia sombria.
Não quero discutir — vai logo avisando Mayer.
O pai ignora a advertência: — Mayer, meu filho, por que me atormentas? Sabes que minha maior alegria é que fosses um rabino, um sábio respeitado... Teus livros estão todos empoeirados...
Mayer vai para o quarto; sujo como está, não se atreve a deitar na cama, com medo das recriminações da mãe. Deita no chão, vestido e adormece. Acorda muitas horas depois; é madrugada. Levanta-se. Na sala da frente o pai adormecido no sofá de couro marrom. Sob a porta Mayer vê uma folha de papel dobrada. É uma carta de Marc Friedmann: “Quando a aurora chegar, plantem o trigo por mim. Quando o futuro chegar, quando os homens forem irmãos e se derem as mãos, plantem o trigo por mim. Quando as crianças puderem correr felizes pelos campos, sem medo da fome e da guerra, plantem o trigo por mim. Eu viverei nas espigas maduras..
Traidor” — murmura Mayer, amassando o papel. Vai para a cozinha fazer o café. A princípio, move-se lentamente e com desgosto; aos poucos vai adquirindo energia e entusiasmo. Acende o fogão, abanando vigorosamente as chamas débeis que surgem entre as achas de lenha; enche de água a chaleira de ferro. A pele do braço se arrepia ao contato das gotas frias, a bexiga reclama seus direitos. Coloca a chaleira sobre a chapa do fogão, onde o fogo finalmente se ergue em boas labaredas. Abre a porta da cozinha e urina na terra, olhando o galo que, pousado no muro, se prepara para anunciar à Rua Felipe Camarão o despertar do novo dia. “Bom dia, Companheiro Galo!”. A água está fervendo. Põe duas — não, três colheres bem cheias de café no coador, despeja a água, e está pronto o café. No armário há um pedaço de pão dormido que ele come com apetite, molhando-o no café bem adoçado. “Bom dia, Companheiro Café! Bom dia, Companheiro Pão!”. Um ruído fá-lo voltar-se: da porta da cozinha o pai e a mãe o contemplam com espanto. Mayer deixa a xícara na pia e vai para o quintal. Apanha a enxada, cospe nas mãos, escolhe um local e começa a virar a terra.
Trabalha sem cessar, tem muito o que fazer.
Está começando uma horta.
Moacyr Scliar, in O exército de um homem só

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