Eu
era um saci-pererê, tinha perdido uma perna lutando capoeira,
gostava de fumar cachimbo, usava um gorrinho vermelho igual ao do
trasgo, esse ser encantado da terra da d. Julieta, a portuguesa de
Trás-os-Montes que fazia arroz-doce para mim. Alguns me achavam um
ser maléfico, outros, um brincalhão. Na verdade, eu era as duas
coisas. Diziam que era um negrinho, mas esse era apenas um dos meus
disfarces. Eu era uma mistura de raças. Africano, português,
italiano, Petrônio ― dizem que o Petrônio que escreveu aquele
livro contando suas façanhas homossexuais era meu antepassado; mas
eu não acredito, os sacis não têm homossexuais na família. Quando
disse isso, ouvi uma gritaria de protestos. Ah!, esses homossexuais
estão em toda parte, cada vez em maior número.
Nesse
momento, acordei.
Ultimamente
tenho tido os sonhos mais esquisitos. Sonhei que era um anão verde,
que era um gigante, que era uma minhoca, que era uma unha encravada
com micose, que era um saco de pipocas.
Contei
para a minha analista. Ela cruzou as pernas. O nome dela é Eunice.
Ela vive cruzando as pernas e usando saias cada vez mais curtas. As
pernas da dra. Eunice são muito bonitas.
“Um
saco de pipocas?”
“Bem,
para ser exato, eu não era um saco de pipocas, eu era as pipocas
dentro do saco.”
“Conte
outro sonho”, pediu a dra. Eunice, cruzando as pernas.
“Tem
um… Esqueci… É mais um sonho impossível, este é impossível
mesmo…”
“Você
disse que esqueceu e depois acrescentou que era mais um sonho
impossível.”
“Só
me lembro que era um sonho impossível.”
“Há
uma frase de Goethe que sempre recordo ao falar de sonho: Gosto
daquele que sonha o impossível”, disse a dra. Eunice.
“Eu
sonho que… que eu…”
A
dra. Eunice cruzou as pernas, esperando.
“Que
eu…”
“Anda,
diga.”
“Não
tenho coragem.”
“Você
tem coragem de contar que sonha que é uma minhoca, um saco de
pipocas…”
“Não”,
interrompi a doutora, “as pipocas dentro do saco”.
“Um
anão, uma unha encravada com micose ― existe alguma coisa mais
impossível do que isso?”
“Existe,
mas não, não, não posso contar.”
“O
analisando precisa ter a coragem de contar tudo para o analista. Na
psicanálise, o terapeuta, no caso presente eu, conduz a
interpretação dos significados inconscientes presentes na fala, nos
sonhos e nas ações do analisando. Em 1899, há mais de cem anos,
portanto, Freud escreveu um livro intitulado A interpretação dos
sonhos, em que aborda os mecanismos psicológicos dos ‘sonhos’.”
Novamente,
a dra. Eunice cruzou as pernas. Ela tinha coxas lindas. Não eram
grossas, eram como gosto, magras e bem-torneadas, e ela tinha braços
finos e peitos pequenos ― que diabo, eu não posso ficar pensando
essas coisas, ela é minha analista, é uma cientista, uma pessoa
séria.
Então,
enchi-me de coragem.
“Sonho
que estou na cama com a senhora.”
A
dra. Eunice cruzou e descruzou a perna.
“Dormindo?”
“Não.”
“Fazendo
o quê?”
Fiquei
calado, olhando para o chão. Eu queria olhar as pernas dela, mas não
tive coragem.
“Fazendo
o quê?”, a dra. Eunice repetiu.
“Sexo”,
murmurei.
“Como?
Há muitas maneiras de fazer sexo.”
A
dra. Eunice cruzou e descruzou as pernas.
“Começa
assim…”
“Continue.”
“Estamos
nus na cama… E eu estou…”
“Continue.”
“E
eu… eu estou lambendo a senhora… o seu corpo inteiro… e
permaneço mais tempo…”
“Permanece
mais tempo… Continue.”
A
dra. Eunice cruzou e descruzou as pernas.
“Lambendo
suas partes íntimas…”
“Que
partes íntimas?”
Voltei
a olhar para o chão.
“Anda.
Diga os nomes. Não vou ficar chocada. Nós, analistas, fique
sabendo, não nos chocamos nunca com aquilo que ouvimos dos nossos
analisandos. Nunca.”
A
dra. Eunice cruzou e descruzou as pernas.
“Vagina
e ânus…”
“Você
sente prazer em fazer isso?”
“Nunca
fiz, quero fazer com a senhora.”
A
dra. Eunice, para meu espanto, sentou-se no sofá onde eu estava e
tirou a roupa. A nudez da dra. Eunice tinha a beleza de um pôr do
sol.
“Eu
também sempre desejei que me fizessem isso”, ela disse.
Fiquei
assustado, nervoso, com aquela declaração da dra. Eunice. Mas logo
me recuperei.
A
dra. Eunice e eu passamos a fazer isso e muitas outras coisas.
Perdi
a analista.
Tudo
bem, eu não precisava mais fazer análise. Deixei de sonhar com o
saci-pererê, com unha encravada, deixei de ser minhoca.
Mas
continuava sonhando com a dra. Eunice.
Rubem
Fonseca, in Amálgama
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