segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Sonhos

Eu era um saci-pererê, tinha perdido uma perna lutando capoeira, gostava de fumar cachimbo, usava um gorrinho vermelho igual ao do trasgo, esse ser encantado da terra da d. Julieta, a portuguesa de Trás-os-Montes que fazia arroz-doce para mim. Alguns me achavam um ser maléfico, outros, um brincalhão. Na verdade, eu era as duas coisas. Diziam que era um negrinho, mas esse era apenas um dos meus disfarces. Eu era uma mistura de raças. Africano, português, italiano, Petrônio ― dizem que o Petrônio que escreveu aquele livro contando suas façanhas homossexuais era meu antepassado; mas eu não acredito, os sacis não têm homossexuais na família. Quando disse isso, ouvi uma gritaria de protestos. Ah!, esses homossexuais estão em toda parte, cada vez em maior número.
Nesse momento, acordei.
Ultimamente tenho tido os sonhos mais esquisitos. Sonhei que era um anão verde, que era um gigante, que era uma minhoca, que era uma unha encravada com micose, que era um saco de pipocas.
Contei para a minha analista. Ela cruzou as pernas. O nome dela é Eunice. Ela vive cruzando as pernas e usando saias cada vez mais curtas. As pernas da dra. Eunice são muito bonitas.
Um saco de pipocas?”
Bem, para ser exato, eu não era um saco de pipocas, eu era as pipocas dentro do saco.”
Conte outro sonho”, pediu a dra. Eunice, cruzando as pernas.
Tem um… Esqueci… É mais um sonho impossível, este é impossível mesmo…”
Você disse que esqueceu e depois acrescentou que era mais um sonho impossível.”
Só me lembro que era um sonho impossível.”
Há uma frase de Goethe que sempre recordo ao falar de sonho: Gosto daquele que sonha o impossível”, disse a dra. Eunice.
Eu sonho que… que eu…”
A dra. Eunice cruzou as pernas, esperando.
Que eu…”
Anda, diga.”
Não tenho coragem.”
Você tem coragem de contar que sonha que é uma minhoca, um saco de pipocas…”
Não”, interrompi a doutora, “as pipocas dentro do saco”.
Um anão, uma unha encravada com micose ― existe alguma coisa mais impossível do que isso?”
Existe, mas não, não, não posso contar.”
O analisando precisa ter a coragem de contar tudo para o analista. Na psicanálise, o terapeuta, no caso presente eu, conduz a interpretação dos significados inconscientes presentes na fala, nos sonhos e nas ações do analisando. Em 1899, há mais de cem anos, portanto, Freud escreveu um livro intitulado A interpretação dos sonhos, em que aborda os mecanismos psicológicos dos ‘sonhos’.”
Novamente, a dra. Eunice cruzou as pernas. Ela tinha coxas lindas. Não eram grossas, eram como gosto, magras e bem-torneadas, e ela tinha braços finos e peitos pequenos ― que diabo, eu não posso ficar pensando essas coisas, ela é minha analista, é uma cientista, uma pessoa séria.
Então, enchi-me de coragem.
Sonho que estou na cama com a senhora.”
A dra. Eunice cruzou e descruzou a perna.
Dormindo?”
Não.”
Fazendo o quê?”
Fiquei calado, olhando para o chão. Eu queria olhar as pernas dela, mas não tive coragem.
Fazendo o quê?”, a dra. Eunice repetiu.
Sexo”, murmurei.
Como? Há muitas maneiras de fazer sexo.”
A dra. Eunice cruzou e descruzou as pernas.
Começa assim…”
Continue.”
Estamos nus na cama… E eu estou…”
Continue.”
E eu… eu estou lambendo a senhora… o seu corpo inteiro… e permaneço mais tempo…”
Permanece mais tempo… Continue.”
A dra. Eunice cruzou e descruzou as pernas.
Lambendo suas partes íntimas…”
Que partes íntimas?”
Voltei a olhar para o chão.
Anda. Diga os nomes. Não vou ficar chocada. Nós, analistas, fique sabendo, não nos chocamos nunca com aquilo que ouvimos dos nossos analisandos. Nunca.”
A dra. Eunice cruzou e descruzou as pernas.
Vagina e ânus…”
Você sente prazer em fazer isso?”
Nunca fiz, quero fazer com a senhora.”
A dra. Eunice, para meu espanto, sentou-se no sofá onde eu estava e tirou a roupa. A nudez da dra. Eunice tinha a beleza de um pôr do sol.
Eu também sempre desejei que me fizessem isso”, ela disse.
Fiquei assustado, nervoso, com aquela declaração da dra. Eunice. Mas logo me recuperei.
A dra. Eunice e eu passamos a fazer isso e muitas outras coisas.
Perdi a analista.
Tudo bem, eu não precisava mais fazer análise. Deixei de sonhar com o saci-pererê, com unha encravada, deixei de ser minhoca.
Mas continuava sonhando com a dra. Eunice.
Rubem Fonseca, in Amálgama

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