sábado, 5 de janeiro de 2019

Religião e ciência

O avô de Nina era um jovem cineasta. Dava aulas na universidade e fazia documentários para o partido socialista. Defensor da Revolução Russa e entusiasmado com o cinema de Eisenstein, lia Maiakóvski, e Huidobro e Vallejo. Se não estava filmando, ou contribuindo para a revolução latino-americana, passava o tempo em intermináveis conversas de bar. Era fundamental conscientizar o povo, só a consciência política acabaria com séculos de submissão. Nessa batalha, o cinema era a grande arma. O cinema levaria o conhecimento às massas, o cinema salvaria o mundo. Além disso, o avô de Nina era ateu, e a religião, um inimigo a ser combatido. A avó, por sua vez, mulher temente a Deus, rezava para que as coisas melhorassem, para que aqueles baderneiros deixassem de perturbar a cabeça de seu marido, e para que ele, finalmente, tomasse jeito.
Até que aconteceu. O avô de Nina já beirava os trinta anos quando houve o episódio que iria mudar a sua vida. De um dia para o outro, dores terríveis, ele mal conseguia levantar da cama. No início pensou que fosse qualquer bobagem, algum tipo de crise, se entupiu de remédios, mas como as dores não passavam, viu-se obrigado a procurar ajuda. Após uma série de exames, consulta a diversos especialistas, resultado: câncer fulminante, não havia nada a fazer, deram-lhe no máximo três meses de vida. A avó desesperada, ficaria viúva e com dois filhos pequenos, pedia todos os dias por um milagre. O avô também se desesperava, não estava em seus planos desencarnar assim tão cedo, havia ainda muito a fazer, o cinema, a Revolução, as massas. Ele, porém, não rezava, passava os dias arrastando-se de um lado para outro e maldizendo o destino que abreviaria seu fim. Foi quando aconteceu o episódio propriamente dito. O avô de Nina teve uma visão. Dessas que aparecem nos filmes e nas pinturas medievais. Jesus. Era inverno, fazia frio e ainda não amanhecera quando acordou e foi até o pátio. Sentou-se numa cadeira e ficou lá, enrolado num cobertor, sentindo as dores terríveis que havia semanas não o deixavam em paz. Naquele momento, ali no pátio de casa, junto com a alvorada, Jesus apareceu. Ninguém na família sabe ao certo o que Jesus disse ou fez, mas segundo Nina, depois desse encontro a doença regrediu, e poucos meses depois ele estava completamente curado. Em face do milagre, o avô de Nina resolveu começar uma nova vida, largou tudo, o cinema, o socialismo, a universidade, e abraçou a religião, ou seja, converteu-se ao evangelho, passando a frequentar, com afinco e entusiasmo, os cultos da Igreja Presbiteriana.
Em sua nova realidade, o avô de Nina passou a enxergar as coisas como elas realmente eram, convenceu-se da decadência dos grandes centros urbanos, era necessário ir embora de Santiago, daquela vida de dissipações. Reuniu a família e mudou-se para Chillán, uma pequena cidade ao sul do país. Lá, com o mesmo empenho que antes dedicara à causa socialista, tornou-se reverendo e um dos principais articuladores da Igreja. O entusiasmo, porém, não acabaria aí. Criticando o que lhe pareciam maus costumes, liberdade em excesso e pouca fé, lideraria um grupo de dissidentes com os quais fundaria a Igreja Presbiteriana Fundamentalista, dez anos depois, a associação das Igrejas Presbiterianas Fundamentalistas da América Latina.
Os avós de Nina educaram seus filhos segundo os rigorosos preceitos da religião: horários estritos, hábitos austeros, fé inabalável. E da educação recebida, restou ao pai de Nina um profundo ódio por qualquer tipo de manifestação religiosa, esses fanáticos, como é possível que acreditem em Deus, a coisa mais absurda que o homem já inventou, ele se exaltava. E tinha verdadeiros ataques de fúria quando aparecia alguém falando de reencarnação, ou das previsões nos astros ou nas cartas do tarô. Muitos jantares acabavam assim, contava Nina, um desavisado no alto de seu entusiasmo dizendo que encontrara uma astróloga incrível, ou um adivinho, e seu pai, sem perder tempo, vociferando que a pessoa em questão (um dos comensais) era uma besta quadrada. Isso não tem a menor lógica, costumava repetir.
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O pai de Nina é engenheiro. Acredita na ciência com a mesma ferocidade com que o avô acreditou na religião. Uma espécie de fanatismo pelo avesso. Nina é a neta do reverendo. Filha de um pai ateu.
Carola Saavedra, in O inventário das coisas ausentes

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