O
avô de Nina era um jovem cineasta. Dava aulas na universidade e
fazia documentários para o partido socialista. Defensor da Revolução
Russa e entusiasmado com o cinema de Eisenstein, lia Maiakóvski, e
Huidobro e Vallejo. Se não estava filmando, ou contribuindo para a
revolução latino-americana, passava o tempo em intermináveis
conversas de bar. Era fundamental conscientizar o povo, só a
consciência política acabaria com séculos de submissão. Nessa
batalha, o cinema era a grande arma. O cinema levaria o conhecimento
às massas, o cinema salvaria o mundo. Além disso, o avô de Nina
era ateu, e a religião, um inimigo a ser combatido. A avó, por sua
vez, mulher temente a Deus, rezava para que as coisas melhorassem,
para que aqueles baderneiros deixassem de perturbar a cabeça de seu
marido, e para que ele, finalmente, tomasse jeito.
Até
que aconteceu. O avô de Nina já beirava os trinta anos quando houve
o episódio que iria mudar a sua vida. De um dia para o outro, dores
terríveis, ele mal conseguia levantar da cama. No início pensou que
fosse qualquer bobagem, algum tipo de crise, se entupiu de remédios,
mas como as dores não passavam, viu-se obrigado a procurar ajuda.
Após uma série de exames, consulta a diversos especialistas,
resultado: câncer fulminante, não havia nada a fazer, deram-lhe no
máximo três meses de vida. A avó desesperada, ficaria viúva e com
dois filhos pequenos, pedia todos os dias por um milagre. O avô
também se desesperava, não estava em seus planos desencarnar assim
tão cedo, havia ainda muito a fazer, o cinema, a Revolução, as
massas. Ele, porém, não rezava, passava os dias arrastando-se de um
lado para outro e maldizendo o destino que abreviaria seu fim. Foi
quando aconteceu o episódio propriamente dito. O avô de Nina teve
uma visão. Dessas que aparecem nos filmes e nas pinturas medievais.
Jesus. Era inverno, fazia frio e ainda não amanhecera quando acordou
e foi até o pátio. Sentou-se numa cadeira e ficou lá, enrolado num
cobertor, sentindo as dores terríveis que havia semanas não o
deixavam em paz. Naquele momento, ali no pátio de casa, junto com a
alvorada, Jesus apareceu. Ninguém na família sabe ao certo o que
Jesus disse ou fez, mas segundo Nina, depois desse encontro a doença
regrediu, e poucos meses depois ele estava completamente curado. Em
face do milagre, o avô de Nina resolveu começar uma nova vida,
largou tudo, o cinema, o socialismo, a universidade, e abraçou a
religião, ou seja, converteu-se ao evangelho, passando a frequentar,
com afinco e entusiasmo, os cultos da Igreja Presbiteriana.
Em
sua nova realidade, o avô de Nina passou a enxergar as coisas como
elas realmente eram, convenceu-se da decadência dos grandes centros
urbanos, era necessário ir embora de Santiago, daquela vida de
dissipações. Reuniu a família e mudou-se para Chillán, uma
pequena cidade ao sul do país. Lá, com o mesmo empenho que antes
dedicara à causa socialista, tornou-se reverendo e um dos principais
articuladores da Igreja. O entusiasmo, porém, não acabaria aí.
Criticando o que lhe pareciam maus costumes, liberdade em excesso e
pouca fé, lideraria um grupo de dissidentes com os quais fundaria a
Igreja Presbiteriana Fundamentalista, dez anos depois, a associação
das Igrejas Presbiterianas Fundamentalistas da América Latina.
Os
avós de Nina educaram seus filhos segundo os rigorosos preceitos da
religião: horários estritos, hábitos austeros, fé inabalável. E
da educação recebida, restou ao pai de Nina um profundo ódio por
qualquer tipo de manifestação religiosa, esses fanáticos, como é
possível que acreditem em Deus, a coisa mais absurda que o homem já
inventou, ele se exaltava. E tinha verdadeiros ataques de fúria
quando aparecia alguém falando de reencarnação, ou das previsões
nos astros ou nas cartas do tarô. Muitos jantares acabavam assim,
contava Nina, um desavisado no alto de seu entusiasmo dizendo que
encontrara uma astróloga incrível, ou um adivinho, e seu pai, sem
perder tempo, vociferando que a pessoa em questão (um dos comensais)
era uma besta quadrada. Isso não tem a menor lógica, costumava
repetir.
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O
pai de Nina é engenheiro. Acredita na ciência com a mesma
ferocidade com que o avô acreditou na religião. Uma espécie de
fanatismo pelo avesso. Nina é a neta do reverendo. Filha de um pai
ateu.
Carola
Saavedra, in O inventário das
coisas ausentes
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