Continuarei
a pintar o segundo quadro, mas sei que nunca o acabarei. A tentativa
falhou, e não há melhor prova dessa derrota, ou falhanço, ou
impossibilidade, do que a folha de papel em que começo a escrever:
até um dia, cedo ou tarde, andarei do primeiro quadro para o segundo
e depois virei a esta escrita, ou saltarei a etapa intermédia, ou
interromperei uma palavra para ir pôr uma pincelada na tela do
retrato que S. encomendou, ou naquele outro, paralelo, que S. não
verá. Nesse dia não saberei mais do que já sei hoje (que ambos os
retratos são inúteis), mas poderei decidir se valeu a pena
deixar-me tentar por uma forma de expressão que não é a minha,
embora essa mesma tentação signifique, no fim de tudo, que também
não era minha, afinal, a forma de expressão que tenho vindo a usar,
a utilizar, tão aplicadamente como se seguisse as regras fixas de
qualquer manual. Não quero pensar, por agora, naquilo que farei se
mesmo esta escrita falhar, se, daí para diante, as telas brancas e
as folhas brancas forem para mim um mundo orbitado a milhões de
anos-luz onde não poderei traçar o menor sinal. Se, em suma, for
ato de desonestidade o simples gesto de agarrar num pincel ou numa
caneta, se, uma vez mais em suma (a primeira vez não o chegou a
ser), a mim mesmo dever recusar o direito de comunicar ou
comunicar-me, porque terei tentado e falhado e não haverá mais
oportunidades.
Estimam-me
como pintor os meus clientes. Ninguém mais. Diziam os críticos (no
tempo em que de mim falaram, breve e há muitos anos) que estou
atrasado pelo menos meio século, o que, em rigor, significa que me
encontro naquele estado larvar que vai da concepção ao nascimento:
frágil, precária hipótese humana, ácida, irônica interrogação
sobre o que farei sendo. “Por nascer.” Algumas vezes me tenho
demorado a refletir sobre esta situação, que, transitória para o
geral das gentes, em mim se tornou definitiva, e noto-lhe,
contrariamente ao que se poderia esperar, uma certa aresta
estimulante, dolorosa sim, mas agradável, gume de faca que
prudentemente se tacteia, enquanto a vertigem de um desafio nos faz
apertar a polpa viva dos dedos contra a certeza do corte. É isto que
sinto (ou de maneira confusa, sem gumes nem polpas vivas) quando
começo um novo quadro: a tela branca, lisa, ainda sem preparo, é
uma certidão de nascimento por preencher, onde eu julgo (amanuense
de registo civil sem arquivos) que poderei escrever datas novas e
filiações diferentes que me tirem, de vez, ou ao menos por uma
hora, desta incongruência de não nascer. Molho o pincel e
aproximo-o da tela, dividido entre a segurança das regras aprendidas
no manual e a hesitação do que irei escolher para ser. Depois,
decerto confundido, firmemente preso à condição de ser quem sou
(não sendo) desde há tantos anos, faço correr a primeira pincelada
e no mesmo instante estou denunciado aos meus próprios olhos. Como
naquele desenho célebre de Bruegel (Pieter), aparece por trás de
mim um perfil talhado a enxó, e ouço a voz dizer-me, uma vez mais,
que não nasci ainda.
Pensando
bem, tenho honestidade bastante para dispensar vozes de crítico, de
perito, de conhecedor.
Enquanto
transporto meticulosamente as proporções do modelo para a tela,
ouço um certo murmúrio meu interior a insistir que a pintura não é
nada disto que eu faço. Enquanto troco o pincel e dou os dois passos
atrás que me permitem enquadrar melhor e clarificar o novelo que
sempre é um rosto “para retrato”, respondo calado: “sei” e
continuo a reconstituir um azul necessário, uma terra qualquer, um
branco que fará as vezes da luz que nunca poderei captar. Faço tudo
isto sem contentamento, porque está nos preceitos, protegido pela
indiferença que finalmente a crítica dispôs em minha volta como um
bloqueio sanitário, protegido também pelo esquecimento em que pouco
a pouco fui caindo, e porque sei que o quadro não irá a exposições
nem galerias. Passará diretamente do cavalete para as mãos do
comprador, porque é este o meu negócio, jogar pelo seguro, com
dinheiro à vista. Tenho trabalho que me sobra. Faço retratos para
pessoas que se estimam suficientemente para os encomendarem e
pendurarem em átrios, escritórios, livingues-rumes ou salas de
conselho. Garanto a duração, não garanto a arte, nem ma pedem,
mesmo que eu pudesse dá-la. Uma semelhança melhorada é ao mais
longe que chegam. E como nisso podemos coincidir, não há decepção
para ninguém. Mas isto que faço não é pintura. Apesar das
insuficiências que me deu para aqui confessar, sempre soube que o
retrato justo não foi nunca o retrato feito. E mais: sempre julguei
saber (sinal secundário de esquizofrenia) como devia pintar o justo
retrato, e sempre me obriguei a calar (ou supus que a calar-me me
obrigava, assim me iludindo e cumplicitando) diante do modelo
desarmado que se me entregava, tímido, ou, pelo contrário,
falsamente desenvolto, apenas certo do dinheiro com que me pagaria,
mas ridiculamente assustado diante das forças invisíveis que
vagarosas se enrolavam entre a superfície da tela e os meus olhos.
Só eu sabia que o quadro já estava feito antes da primeira sessão
de pose e que todo o meu trabalho iria ser disfarçar o que não
poderia ser mostrado. Quanto aos olhos, esses estavam cegos.
Assustados e ridículos estão sempre o pintor e o modelo diante da
tela branca, um porque se teme de ver-se denunciado, outro porque
sabe que nunca será capaz de fazer essa denúncia, ou, pior do que
tudo isso, dizendo a si mesmo, com a suficiência do demiurgo
castrado que se afirma viril, que só a não fará por indiferença
ou piedade do modelo.
Há
ocasiões em que penso e me convenço de que sou o único pintor de
retratos que resta, e que depois de mim não se perderá mais tempo
em poses fatigantes, a procurar semelhanças que a toda a hora se
escapam, quando a fotografia, agora feita arte por obra de filtros e
emulsões, parece afinal muito mais capaz de romper as epidermes e
mostrar a primeira camada íntima das pessoas. Divirto-me a pensar
que cultivo uma arte morta, graças à qual, por intermédio da minha
falibilidade, as pessoas acreditam fixar uma certa agradável imagem
de si mesmas, organizada em relações de certeza, de uma eternidade
que não começa só quando o retrato se conclui, mas que vem de
antes, de sempre, como alguma coisa que existiu sempre só porque
existe agora, uma eternidade que é contada no sentido do zero. Na
verdade, se qualquer retratado pudesse, ou soubesse, ou quisesse,
analisar a espessura pastosa, informe, dos pensamentos e emoções
que o habitam, e tendo analisado encontrasse as palavras correntes
que tornariam líquidos e claros esses pensamentos e ações,
saberíamos que, para ele, aquele seu retrato é como se tivesse
existido sempre, um outro-ele mais fiel do que o-ele de ontem, porque
este não é já visível e o retrato sim. Por isso não é raro que
o modelo tenha a preocupação de parecer-se com o retrato, se este o
fixou no relance em que o ser humano se louva e aceita. Vive o pintor
para surpreender esse relance, vive o modelo para o instante que será
o pilar pessoal e único dos dois ramos de uma eternidade que vem
transitando infinitamente e que, algumas vezes, a loucura humana
(Erasmo) julga poder assinalar com um pequeníssimo nó, uma
excrescência capaz de arranhar esse dedo gigantesco com que o tempo
apaga todos os vestígios. Repito que os melhores retratos nos dão a
sensação de terem existido sempre, mesmo que o bom-senso me esteja
dizendo, como diz agora, que “O Homem dos Olhos Cinzentos”
(Tiziano) é inseparável daquele Tiziano que o pintou num momento da
sua pessoal vida. Porque se neste instante em que estamos alguma
coisa participa da eternidade, não é o pintor, mas o quadro.
Mal
vai porém ao pintor, ou dizendo mais rigorosamente, pior vai porém
ao pintor, se, tendo de pintar um retrato, descobre que tudo quanto
lançou na tela é cor anárquica e desenho louco, e que o conjunto
de manchas só reproduz do modelo uma semelhança que a este
satisfaz, mas ao pintor não. Creio que isto acontece na maior parte
dos casos, mas, porque a semelhança lisonjeia e justifica o
pagamento, o modelo transporta para casa aquela sua imagem
supostamente ideal e o pintor suspira de alívio, liberto da
assombração irônica que lhe estava queimando as noites e os dias.
Quando o quadro já pronto se demora, é como se girasse no seu eixo
vertical e virasse para o pintor os olhos acusativos: poderia
chamar-se-lhe fantasma se não tivesse ficado já dito que é
assombração. Em geral, o pintor, se sabe do ofício o bastante,
reconhece que segue caminho errado logo ao primeiro esboço. Mas
porque daria muito trabalho explicar ao modelo esse erro, e porque o
modelo quase sempre se agrada de si mesmo logo de entrada, receoso de
que outro curso e outro apanhamento de si o mostrem sob menos
favorável luz, ou, pelo contrário, o voltem de dentro para fora, em
dedo de luva (movimento que mais do que todos teme), o retrato
continua a deixar-se pintar, cada vez menos necessário. É como se
(já o disse atrás por outras palavras) se estabelecesse entre o
pintor e o modelo uma cumplicidade para a destruição do retrato:
calçaram-se as botas ao contrário, de biqueira voltada para o
calcanhar, e o percurso visto depois, que parece um avanço pelos
sinais deixados no chão que é a tela, é apenas um recuo, a
debandada de uma derrota procurada e aceite pelos dois campos
combatentes. A morte, quando tirar do mundo o pintor e o modelo; o
incêndio, se por feliz acaso reduzir o retrato a cinzas - apagarão
alguma mentira e deixarão o lugar vago para outras tentativas e para
um novo bailado, para o novo “pas-de-deux” que inevitavelmente
outros recomeçarão.
José
Saramago, in Manual de pintura e caligrafia
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