segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O massacre dos tubarões

Quando nas pescarias do Sul, um Cachalote capturado, após um trabalho muito prolongado e cansativo, é trazido ao costado do navio tarde da noite, não se costuma, em geral, dar início aos procedimentos de corte na mesma hora. Pois essa tarefa é realmente muito árdua; não termina com muita rapidez; e requer a participação de todos. Por conseguinte, o costume é ferrar as velas; prender o leme a sotavento; e então mandar todos para suas redes até o dia amanhecer, com a ressalva de que, até essa hora, deve ser mantida a vigília; ou seja, de dois em dois, a cada hora, os homens devem subir ao convés para ver se está tudo em ordem.
Mas às vezes, especialmente no Pacífico equatorial, esse esquema não traz resultados; porque incontáveis hostes de tubarões se reúnem em torno da carcaça atracada, que se deixada desse modo por cerca de seis horas, digamos, corridas, pouco mais do que seu esqueleto seria encontrado na manhã seguinte. Em boa parte de outras paragens do oceano, no entanto, onde tais peixes não existem em abundância, sua espantosa voracidade pode por vezes ser consideravelmente esmaecida, caso sejam fustigados energicamente com as afiadas pás de baleia, um procedimento que contudo, em alguns casos, parece apenas incitá-los ainda mais. Mas não era isso que acontecia naquele momento com os tubarões do Pequod; já que, para falar a verdade, qualquer pessoa que não estivesse habituada àquele espetáculo, só de olhar sobre o costado naquela noite quase chegaria à conclusão de que a grande superfície esférica do mar era um único e imenso queijo, e os tubarões, seus vermes.
Não obstante, com Stubb montando a vigília depois de finda a ceia; e quando, depois, Queequeg e um marinheiro do castelo de proa subiram ao convés, não pouco alvoroço havia entre os tubarões; pois, suspendendo de pronto os cortes sobre o costado, e descendo três lamparinas, de modo a lançar longos fachos de luz por sobre o mar conturbado, os dois marujos, arremessando suas compridas pás de baleias, iniciaram uma interminável chacina de tubarões, acertando o aço afiado bem fundo em seus crânios, aparentemente seu único ponto vital. Mas, em meio àquela confusão espumante de misturadas hostes rivais, os atiradores nem sempre conseguiam acertar o alvo; e isso trazia à tona novas revelações acerca da incrível ferocidade do inimigo. Mordiam com voracidade não somente curvavam-se e mordiam suas próprias; a tal ponto que aquelas entranhas pareciam estar sendo sempre engolidas pela mesma boca, para serem depois expelidas pela ferida aberta. Mas isso não era tudo. Era perigoso mexer com os cadáveres e os espíritos dessas criaturas. Uma espécie de vitalidade genérica ou Panteística parecia à espreita em suas juntas e ossos, depois de a chamada vida individual ter partido. Morto e trazido para o convés, em função de sua pele, um desses tubarões quase arrancou a mão do pobre Queequeg, quando ele tentou fechar a tampa morta de sua mandíbula assassina.
Pouco impo’ta pra Queequeg qual deus faz ele tubarão”, disse o selvagem sacudindo a mão machucada para cima e para baixo; “si foi um deus Fidjiano ou um de Nantucket; mas esse deus que faz tubarão deve de sê’ uma máquina maldita.”
Herman Melville, in Moby Dick

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