Cor:
azul mediterrâneo. Trilha sonora: vários rádios de pilha ligados,
risadas adolescentes, ganidos infantis, cachorros murmurando em
espanhol por entre as mesas. Detalhe: muito calor. Do porto de
Valência, pegado à movimentada Praia do Levante onde estamos, o
vento traz uma fina nuvem de poeira preta que se assenta, sem
cerimônia, sobre a toalha e os pratos. O garçom resolve tudo com
alguns enérgicos golpes do seu guardanapo. Pedimos paella. À
valenciana, claro. Com vinho branco. O que tinha dentro da paella?
Pergunte, antes, o que não tinha. Se gostamos? Nem pergunte.
O
nosso informante fora impreciso quanto ao endereço. O restaurante
Bentley’s ficava na Swallow Street, talvez a terceira, talvez a
quarta transversal da Piccadilly Street, quem vai do Circus para Park
Lane, Londres. Mas fora definitivo numa coisa: peça a sole
Véronique, um filé de peixe grelhado com molho de uvas.
Pedi. Na emoção do momento botei açúcar em vez de sal em cima do
molho e, olha, mesmo assim, foi a segunda melhor coisa que comi na
Europa e no ano. Um pouco doce, mas genial. Antes, meia dúzia de
ostras. Vinho branco alemão. Ou era francês? Enfim, nacional não
era. E a Swallow é a primeira transversal da Piccadilly.
O
nome do restaurante não lembro. Fica em Montparnasse e se
especializa em comida alsaciana. Para começar, peço ostras,
genérica e inocentemente. O maître por pouco não cospe na
minha cabeça, de nojo. Des huîtres, oui monsieur, mas de que
qualidade, de que tamanho, de que mar, de que meridiano? Os detalhes,
monsieur! Sejamos específicos, já que não podemos ser
franceses. Olho o cardápio. São 17 categorias de ostras, cada uma
subdividida em 17 graduações diferentes, por números. Digo “a
claire, número trois, naturalmente”, tentando
recuperar alguns centímetros da consideração do maître. Em
vão. Ele anota meu pedido com um semi-sorriso de desdém. Arquiteto
uma represália. Quando chegarem as ostras, mandarei de volta,
gritando que não são número três e exigindo a presença do
gerente. A simples visão das ostras desfaz meus sonhos de vingança,
no entanto. São as maiores que já vi. Junto, um molho de azeite e
alho, pedacinhos de pão preto e manteiga. Devoro tudo como um
primitivo. O maître nos espreita de longe, certamente esperando que
eu beba também a água morna com limão posta do meu lado para
limpar os dedos.
No
mercado de Veneza, entre dois stands de peixe, a poucos passos da
ponte do Rialto, damos com um balcão que vende bockwurst com
chope alemão. Pedimos dois, mais de surpresa do que qualquer outra
coisa. Sensacional. Só um calzone — uma pizza dobrada em
forma de pastel, mas deste tamanho — comido também em Veneza se
compara a estes incongruentes salsichões de uma manhã do Adriático
como lembrança gastronômica da Itália.
Uma
costeleta à bonne femme que me serviram no La Cabaña de
Buenos Aires. Como já disse alguém sobre a Sophia Loren, é difícil
dar uma ideia da opulência do prato sem usar as mãos. Diga-se
apenas que bandos de roliças batatinhas e atrevidas cebolinhas
banhavam-se como ninfetas num molho tão espesso que a própria
carne, por vezes, pagava com períodos de obscuridade pela sua
generosa fartura, como a América do Norte sob a poluição
industrial. Um pouco retirada da principal área de ação, suando de
patriotismo, uma Quilmes Imperial esperava sua vez de contribuir para
o prestígio da Argentina entre meus corpúsculos gustativos.
Costumo
avisar a quem vai ao Rio que os melhores restaurantes cariocas, com
raras exceções, ficam no centro da cidade. Geralmente só abrem
para o almoço e não oferecem outro luxo senão o ar-condicionado e
uma limpeza impecável. O serviço é melhor, a comida mais farta e
bem cuidada e os preços bem mais baixos do que nos restaurantes de
nome da Zona Sul. O Tupan, na Rua Mayrink Veiga, é o melhor exemplo
disso. E foi no Tupan, em fevereiro, rodeado de atacadistas da rua do
Acre — uma portuguesada que, notoriamente, sabe o que é bom —,
que comi um bacalhau na brasa com alho e óleo, batatas ao bafo e
couve ao primeiro orvalho que nem vou tentar descrever, senão me
emociono outra vez.
A
paella da Dona Maria, preparada e consumida na minha casa
mesmo. A Dona Maria é preta, gorda, umbandista da linha vermelha e —
horror! — gremista, mas pelos seus pratos ninguém desconfiaria
desta inconstância de caráter. A paella que preparou para um
grupo de felizardos, certa fria noite de julho, foi a primeira da sua
vida, o que só valoriza o memorável resultado. Fez tudo de ouvido e
acertou em cheio — um feito mais ou menos equivalente a você e eu
aterrissarmos um 727 com perfeição seguindo as instruções da
torre.
Luís
Fernando Veríssimo, in A mesa voadora
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