domingo, 6 de janeiro de 2019

A dor que se repete

Estou perdido em um castelo. À beira da muralha, encontro um militar e pergunto se caminho na direção certa. Ele diz que não e gentilmente se oferece para me acompanhar em sentido contrário. Sem pensar, eu o sigo. Alguns passos mais e percebo que ele empunha uma arma e que me leva preso.
Na semana passada, em três noites seguidas, tive esse sonho, o mesmo sonho. Algumas variações – as torres do castelo que divergem em número, a farda do militar que muda de tom –, mais nada. Sempre dei grande valor às repetições. Em geral as desprezamos como vazias e preguiçosas. Mas só o que se repete (uma assinatura, uma impressão digital, um tipo de sangue) nos marca.
Dias depois, um amigo comentou: “Gosto de seus textos, mas você tem se repetido um pouco”. Assinalava – como um enfermeiro que busca uma veia para tirar sangue – o fio precário de minha escrita. Gentil e simpático, o militar de meu sonho me desvia de meu caminho. A ajuda que me oferece é também uma prisão. A arma que empunha diz isso. Quis me oferecer uma direção nova, que me conduzisse a uma saída. Aceitei – e cometi o grande erro de sair de mim.
Pensei nesse sonho enquanto lia, na noite passada, as crônicas de Gustavo Corção, organizadas e prefaciadas por Luiz Paulo Horta ( Melhores crônicas / Gustavo Corção , Global Editora). O sonho do castelo não se repetiu, tive uma noite sem sonhos. Talvez a ausência de sonhos corresponda, um pouco, às ideias de Corção, um escritor que teve sempre grandes dificuldades para sair de si. Que outra coisa é um sonho senão um salto no escuro?
Não posso dizer que suas ideias conservadoras me agradam, porque não agradam. Mas não se lê um livro para encontrar ideias que nos entorpeçam; os melhores livros são os que nos desafiam. Não se sobe a um ringue na esperança de que o adversário nos acaricie. Sempre desprezei as ideias de Nelson Rodrigues – o que não me impede de considerá-lo um gênio. Sinto-me muito próximo das ideias de Bernardo Carvalho. Nem por isso seus relatos me arrebatam.
Sempre divergi das ideias de Corção. Seus pensamentos – conservadores, duros como uma muralha – me desagradam. Não posso negar, porém, que me desdobram, me lançam para muito longe de mim – e, em vez de eu me perder, como no sonho do castelo, eu me confirmo. “Às vezes errava a direção, ou a intensidade de seus raios”, admite, em seu prefácio, Luiz Paulo Horta. Gustavo Corção defendeu o golpe militar e combateu as reformas de João XXIII. No fim da vida, se aproximou do bispo ultraconservador Marcel Lefebvre e chegou a receber uma censura da própria Igreja. Por que, então, ler Corção? Suas ideias – como as muralhas de um castelo – me ajudam a fixar meus limites. Conferem mais nitidez ao que tento ser. Ao provar do que não sou, sou lançado de volta ao que sou.
Lia Corção e me lembrava de “Insônia”, o belo conto de Graciliano Ramos. No meio da noite, um homem (eu?) desperta com uma pergunta que o atordoa: “Sim ou não?”. Todo o relato se desenrola em torno dessa pergunta banal, mas nem por isso menos infernal. Aos poucos, porém, o homem descobre que a pergunta o impede de embrutecer. “Sim, não, sim, não. Um relógio tenta chamar-me à realidade.” A pergunta lhe martela a mente, a repetição é o sangue que circula em seu corpo. O sangue que circula em meu corpo e que meu amigo, com sua seringa, quis retirar.
Também a leitura de Corção me empurra de volta a mim. Sim, ele foi um idealista ortodoxo, para quem pensar por si era uma prova de “imaturidade psicológica”. Em “Io voglio”, combate os que fazem “mais questão de ter convicções e ideias próprias do que convicções e ideias certas”. Acreditava que, “por uma ironia do psiquismo”, são justamente os que desejam ter ideias próprias que mais recebem influências externas.
A pergunta de Graciliano seria insuportável para Corção: “Sim ou não?”. Não poderia ouvi-la. Em meu sonho do castelo, penso agora, foi essa a pergunta que me faltou e que, porque não me fiz, permitiu que eu me afastasse de mim. Pergunta que, para repetir o título que Corção dá a sua crônica, pode ser formulada de forma mais simples: “Eu quero”?
Em “Sessenta anos”, crônica que homenageia Alceu de Amoroso Lima, ele recorda o primeiro encontro que tiveram. “Nossa primeira conversa não chegou a ser uma conversa”, admite. Explica melhor: “Eu me calava e ouvia aquele homem entusiasta, de verbo fácil e riso pronto. E envergonhava-me de ser tão diferente”. A diferença constrangia e irritava Gustavo Corção, mal-estar que o transformou em um polemista feroz e, muitas vezes, injusto. Mas sempre brilhante.
Ao ler suas crônicas, eu, que estou em outro mundo, que nelas não me vejo, me fortaleço. É por contraste, é quando colocamos à prova do outro o que somos que – em vez de nos perder – nos fortalecemos. Por isso os boxeadores precisam apanhar e apanhar: para saber quem são. Talvez eu precisasse mesmo seguir o guarda do castelo. Segui-lo e me extraviar para, no dia seguinte, entender melhor meu caminho.
Lembro de Vinicius, o hipocondríaco que, um dia, marcou uma consulta de emergência com seu médico, o escritor Pedro Nava. Preocupado, Nava lhe perguntou: “Afinal, por que tanta urgência, o que você está sentindo de tão grave?”. Vinicius foi direto: “O problema é justamente esse, eu não estou sentindo nada”.
Cada homem precisa de sua dor, precisa de um pulsar que o martele. “Sim ou não?” Tivesse eu, em meu sonho, feito essa pergunta, e não seria preso. Mas não acessamos os sonhos, eles se desenrolam em zonas bloqueadas. Tampouco os modificamos, eles estão imunes aos nossos desejos, até porque os expressam. Ainda sinto a pressão da espingarda em minhas costas. Levando-me por um caminho que não era o meu, o militar me mostrou qual era o meu caminho.
Com o mesmo desejo de retorno, leio agora as crônicas de Gustavo Corção. Um mestre (Corção foi um mestre) é isso: alguém que nos obriga a ser. Leio para não ficar como Vinicius, que um dia deixou de se repetir e, perplexo, já não sabia quem era.
José Castello, in Sábados inquietos

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