Estou
perdido em um castelo. À beira da muralha, encontro um militar e
pergunto se caminho na direção certa. Ele diz que não e
gentilmente se oferece para me acompanhar em sentido contrário. Sem
pensar, eu o sigo. Alguns passos mais e percebo que ele empunha uma
arma e que me leva preso.
Na
semana passada, em três noites seguidas, tive esse sonho, o mesmo
sonho. Algumas variações – as torres do castelo que divergem em
número, a farda do militar que muda de tom –, mais nada. Sempre
dei grande valor às repetições. Em geral as desprezamos como
vazias e preguiçosas. Mas só o que se repete (uma assinatura, uma
impressão digital, um tipo de sangue) nos marca.
Dias
depois, um amigo comentou: “Gosto de seus textos, mas você tem se
repetido um pouco”. Assinalava – como um enfermeiro que busca uma
veia para tirar sangue – o fio precário de minha escrita. Gentil e
simpático, o militar de meu sonho me desvia de meu caminho. A ajuda
que me oferece é também uma prisão. A arma que empunha diz isso.
Quis me oferecer uma direção nova, que me conduzisse a uma saída.
Aceitei – e cometi o grande erro de sair de mim.
Pensei
nesse sonho enquanto lia, na noite passada, as crônicas de Gustavo
Corção, organizadas e prefaciadas por Luiz Paulo Horta ( Melhores
crônicas / Gustavo Corção , Global Editora). O sonho do castelo
não se repetiu, tive uma noite sem sonhos. Talvez a ausência de
sonhos corresponda, um pouco, às ideias de Corção, um escritor que
teve sempre grandes dificuldades para sair de si. Que outra coisa é
um sonho senão um salto no escuro?
Não
posso dizer que suas ideias conservadoras me agradam, porque não
agradam. Mas não se lê um livro para encontrar ideias que nos
entorpeçam; os melhores livros são os que nos desafiam. Não se
sobe a um ringue na esperança de que o adversário nos acaricie.
Sempre desprezei as ideias de Nelson Rodrigues – o que não me
impede de considerá-lo um gênio. Sinto-me muito próximo das ideias
de Bernardo Carvalho. Nem por isso seus relatos me arrebatam.
Sempre
divergi das ideias de Corção. Seus pensamentos – conservadores,
duros como uma muralha – me desagradam. Não posso negar, porém,
que me desdobram, me lançam para muito longe de mim – e, em vez de
eu me perder, como no sonho do castelo, eu me confirmo. “Às vezes
errava a direção, ou a intensidade de seus raios”, admite, em seu
prefácio, Luiz Paulo Horta. Gustavo Corção defendeu o golpe
militar e combateu as reformas de João XXIII. No fim da vida, se
aproximou do bispo ultraconservador Marcel Lefebvre e chegou a
receber uma censura da própria Igreja. Por que, então, ler Corção?
Suas ideias – como as muralhas de um castelo – me ajudam a fixar
meus limites. Conferem mais nitidez ao que tento ser. Ao provar do
que não sou, sou lançado de volta ao que sou.
Lia
Corção e me lembrava de “Insônia”, o belo conto de Graciliano
Ramos. No meio da noite, um homem (eu?) desperta com uma pergunta que
o atordoa: “Sim ou não?”. Todo o relato se desenrola em torno
dessa pergunta banal, mas nem por isso menos infernal. Aos poucos,
porém, o homem descobre que a pergunta o impede de embrutecer. “Sim,
não, sim, não. Um relógio tenta chamar-me à realidade.” A
pergunta lhe martela a mente, a repetição é o sangue que circula
em seu corpo. O sangue que circula em meu corpo e que meu amigo, com
sua seringa, quis retirar.
Também
a leitura de Corção me empurra de volta a mim. Sim, ele foi um
idealista ortodoxo, para quem pensar por si era uma prova de
“imaturidade psicológica”. Em “Io voglio”, combate os que
fazem “mais questão de ter convicções e ideias próprias do que
convicções e ideias certas”. Acreditava que, “por uma ironia do
psiquismo”, são justamente os que desejam ter ideias próprias que
mais recebem influências externas.
A
pergunta de Graciliano seria insuportável para Corção: “Sim ou
não?”. Não poderia ouvi-la. Em meu sonho do castelo, penso agora,
foi essa a pergunta que me faltou e que, porque não me fiz, permitiu
que eu me afastasse de mim. Pergunta que, para repetir o título que
Corção dá a sua crônica, pode ser formulada de forma mais
simples: “Eu quero”?
Em
“Sessenta anos”, crônica que homenageia Alceu de Amoroso Lima,
ele recorda o primeiro encontro que tiveram. “Nossa primeira
conversa não chegou a ser uma conversa”, admite. Explica melhor:
“Eu me calava e ouvia aquele homem entusiasta, de verbo fácil e
riso pronto. E envergonhava-me de ser tão diferente”. A diferença
constrangia e irritava Gustavo Corção, mal-estar que o transformou
em um polemista feroz e, muitas vezes, injusto. Mas sempre brilhante.
Ao
ler suas crônicas, eu, que estou em outro mundo, que nelas não me
vejo, me fortaleço. É por contraste, é quando colocamos à prova
do outro o que somos que – em vez de nos perder – nos
fortalecemos. Por isso os boxeadores precisam apanhar e apanhar: para
saber quem são. Talvez eu precisasse mesmo seguir o guarda do
castelo. Segui-lo e me extraviar para, no dia seguinte, entender
melhor meu caminho.
Lembro
de Vinicius, o hipocondríaco que, um dia, marcou uma consulta de
emergência com seu médico, o escritor Pedro Nava. Preocupado, Nava
lhe perguntou: “Afinal, por que tanta urgência, o que você está
sentindo de tão grave?”. Vinicius foi direto: “O problema é
justamente esse, eu não estou sentindo nada”.
Cada
homem precisa de sua dor, precisa de um pulsar que o martele. “Sim
ou não?” Tivesse eu, em meu sonho, feito essa pergunta, e não
seria preso. Mas não acessamos os sonhos, eles se desenrolam em
zonas bloqueadas. Tampouco os modificamos, eles estão imunes aos
nossos desejos, até porque os expressam. Ainda sinto a pressão da
espingarda em minhas costas. Levando-me por um caminho que não era o
meu, o militar me mostrou qual era o meu caminho.
Com
o mesmo desejo de retorno, leio agora as crônicas de Gustavo Corção.
Um mestre (Corção foi um mestre) é isso: alguém que nos obriga a
ser. Leio para não ficar como Vinicius, que um dia deixou de se
repetir e, perplexo, já não sabia quem era.
José
Castello, in Sábados inquietos
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