A
tua prata se transformou em escória; o teu vinho se misturou com
água. (Isaías, I, 22)
1943
—
Josefino Maria Albuquerque Pereira da
Silva! — A voz veio declamada, lenta, lúgubre. As palavras fizeram
curvas no ar e chegaram ao meu ouvido como gotas de óleo. Penetraram
vagarosas, deixando o Silva de fora. O último nome não cabia nele.
E o óleo pesava.
Desgovernou-se
o meu cérebro: os nomes balançavam indolentes, se comprimindo,
buscando um lugar para o Silva, que permanecia no vestíbulo.
Levantei
a cabeça e lancei os olhos esgazeados para a frente, para os lados.
A paisagem dançou, mudou de plano e, afinal, consegui distinguir a
fisionomia monótona do padre Delfim, que, sentado na beirada da
cama, tinha o olhar fixo na minha testa. Movi os lábios repetidas
vezes, a implorar-lhe que se fosse, me deixasse em paz. Os movimentos
se perderam no vácuo e não ouvi o meu apelo.
Vieram
as frases latinas.
Também
meu irmão estava no quarto. Pesaroso, escondia nas mãos o perfil de
Mariazinha. (O cigarro me fizera mal, o álcool me extenuara, mas não
ouvira o estampido. Empunhara resoluto o revólver, visei um ponto
negro que saía dos meus olhos e que, no ar, acompanhava a cadência
das pupilas. Tangeram os sinos.)
Devia
ser a bala que não permitia entrar o Silva.
O
badalo do sino maior tangia os outros: uns de bronze, alguns de lata
e zinco. A música se fez ríspida, mortificante — chorou os mortos
e os quase mortos.
1923
Maio
— mês infeliz. Conheci Mariazinha e ouvi a sua história — deu
pinotes, esticou-se todo. Dentro dele couberam os anos passados,
voltaram-me os cabelos e Mariazinha recuperou a sua virgindade.
Tudo
recomeçou para os habitantes de Manacá. Houve alguns protestos,
porque muitos não se conformaram em perder os filhos, recolhidos aos
ventres maternos, ou com as ruas que ficaram sem calçamento. Mas o
excesso de poeira nas vias públicas não conseguiu perturbar a
alegria de outros que, por repentina mudança do seu estado civil,
voltaram a ser solteiros. (Juraram que nunca mais se casariam.)
Padre
Delfim foi nomeado bispo. Agora os sinos tinham que ficar alegres,
esquecer os defuntos. Porém a tristeza sufocava, mudava os sons.
Demitiram o sineiro.
Dom
Delfim era calmo e tinha a fisionomia insípida. Mandou buscar as
lâminas de aço, os instrumentos de metal e proibiu a melancolia, as
queixas contra as ruas empoeiradas.
Mariazinha
se casaria, o seu sedutor seria enforcado na torre da igreja.
Os
sinos concordaram, bimbalharam alegremente e dom Delfim ficou
escarlate, perdeu a monotonia. Ordenou que se expulsassem as lâminas
de aço, os instrumentos de metal.
Zaragota
protestou:
—
Enforcado é que não! — Estava certo
se o matassem antes, quando seduzira Mariazinha. Agora não. Vinte
anos tinham sido recuados. Não era mais noivo de mulher alguma, nem
pertencia à diocese do eminente bispo.
Dom
Delfim coçou o queixo, satisfeito com o adjetivo e com o perfume que
vinha do lencinho branco de rendas.
Somente
se preocupava com a festa comemorativa da sua elevação a bispo,
temendo que algum acontecimento imprevisível roubasse a pompa das
homenagens que deveria receber.
Entretanto,
precisava dar ao povo um pouco mais de alegria. Foi inflexível. Ser
eminente era um direito que ninguém lhe podia negar. Levantou a
cabeça, altivo, enérgico, e ordenou:
—
Josefino Maria Albuquerque Pereira da
Silva, enforque o homem!
Depois,
dando ao olhar uma expressão terna, pediu-me com humildade
(eclesiástica): toque os sinos e case com Mariazinha.
Como
não houvesse quem discordasse, enforcou-se o canalha do Zaragota e
deu-se início aos preparativos do meu casamento.
Pensou-se
primeiro no vestido de noiva. Que não podia ser comprido, de cauda,
fomos todos acordes, sem que alguém ousasse mencionar a razão: dom
Delfim jamais ameaçava duas vezes. (Omitiu-se, portanto, qualquer
referência à poeira das ruas.)
Mariazinha,
irrequieta, extasiada com os seus novos quinze anos, não punha
objeção a nada. Agarrava-me pela mão e me obrigava a acompanhá-la
estradas, varávamos as matas, galgávamos montes. Ia, pelo caminho,
enchendo-me de flores e beijos. Enquanto isso, Manacá se enfeitava
toda. Colocavam arcos de triunfo e bandeirinhas de papel de seda nas
ruas, repicavam os sinos. Dom Delfim, a calva protegida por enorme
chapéu de couro, passava apressado em sua caleça, fiscalizando
tudo.
No
dia marcado para as núpcias, a cidade amanheceu alvoroçada.
(Zaragota balançava no topo da torre da igreja.)
O
povo se concentrara, logo às primeiras horas do dia, no largo da
matriz. José Alfinete comandava a populaça. Há mais de uma hora
derramava inflamada oratória sobre os seus conterrâneos. Já
analisara a situação caótica do país, a crise da lavoura, sem se
esquecer de falar mal do farmacêutico, seu adversário político.
A
não ser o orador, que convocara os manaquenses para ouvir terrível
notícia, ninguém sabia o motivo da reunião. Duas horas após o
início do discurso, Alfinete revelou que Mariazinha fora seduzida
novamente e o sedutor fugira.
Os
populares, indignados com o que acabavam de ouvir, saíram no meu
encalço, dispostos a me enforcar em praça pública.
Quando
os meus perseguidores me encontraram, era relativamente tarde para
que se pensasse em me executar. Eu já atirara no ponto negro que no
ar acompanhava o movimento das minhas pupilas e jazia de bruços no
solo.
Na
véspera, ao contrário do que ardilosamente tinham anunciado, eu
fora seduzido por Mariazinha.
Ao
regressar à vila, não tinha mais dúvidas de que minha noiva era
uma depravada. Zaragota nenhuma culpa tivera.
À
noite não consegui adormecer. Insatisfeito com o que acontecera,
tomei a decisão de não me casar. Saí de casa e fui bebendo pelos
botequins que encontrava no caminho. Desejava me sufocar no álcool.
Mais
tarde retomei a caminhada que fizera ao entardecer daquele dia.
Detive-me
no mesmo lugar em que me deitara com Mariazinha. As estrelas se
afundaram nos meus olhos e o ponto negro se destacou nítido ao luar.
Puxei o gatilho da arma suavemente.
De
novo se puseram tristes os sinos de Manacá. Dom Delfim se viu
privado das honras episcopais.
1943
—
Josefino Maria Albuquerque Pereira da
Silva!
A
voz era declamada, lenta, lúgubre. Padre Delfim chamava-me em vão.
As
ruas da cidade ostentavam o seu primitivo calçamento e os filhos dos
seus moradores começaram a se desprender — sem que fosse
necessária a intervenção das parteiras — dos ventres das
mulheres. Manacá tornara a ser elevada a sede de comarca e os homens
que juraram nunca mais se casar, juraram inutilmente.
Ao
meu enterro, Zaragota, amigo fiel, compareceria ainda convalescente
do enforcamento que sofrerá.
Não
compareceu. Padre Delfim julgou-o culpado de sua demissão e ordenou,
para consolo próprio, que o enforcassem no mesmo local da outra vez.
Tangeram
os sinos, tristes e rachados. O sineiro fora readmitido.
O
luar inundou, por várias noites, as ruas sem poeira da cidade e maio
caminhou lentamente para o seu termo.
Murilo
Rubião, in Obra completa
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