sexta-feira, 16 de março de 2018

Mariazinha

A tua prata se transformou em escória; o teu vinho se misturou com água. (Isaías, I, 22)

1943 
 
Josefino Maria Albuquerque Pereira da Silva! — A voz veio declamada, lenta, lúgubre. As palavras fizeram curvas no ar e chegaram ao meu ouvido como gotas de óleo. Penetraram vagarosas, deixando o Silva de fora. O último nome não cabia nele. E o óleo pesava.
Desgovernou-se o meu cérebro: os nomes balançavam indolentes, se comprimindo, buscando um lugar para o Silva, que permanecia no vestíbulo.
Levantei a cabeça e lancei os olhos esgazeados para a frente, para os lados. A paisagem dançou, mudou de plano e, afinal, consegui distinguir a fisionomia monótona do padre Delfim, que, sentado na beirada da cama, tinha o olhar fixo na minha testa. Movi os lábios repetidas vezes, a implorar-lhe que se fosse, me deixasse em paz. Os movimentos se perderam no vácuo e não ouvi o meu apelo.
Vieram as frases latinas.
Também meu irmão estava no quarto. Pesaroso, escondia nas mãos o perfil de Mariazinha. (O cigarro me fizera mal, o álcool me extenuara, mas não ouvira o estampido. Empunhara resoluto o revólver, visei um ponto negro que saía dos meus olhos e que, no ar, acompanhava a cadência das pupilas. Tangeram os sinos.)
Devia ser a bala que não permitia entrar o Silva.
O badalo do sino maior tangia os outros: uns de bronze, alguns de lata e zinco. A música se fez ríspida, mortificante — chorou os mortos e os quase mortos.

1923 
 
Maio — mês infeliz. Conheci Mariazinha e ouvi a sua história — deu pinotes, esticou-se todo. Dentro dele couberam os anos passados, voltaram-me os cabelos e Mariazinha recuperou a sua virgindade.
Tudo recomeçou para os habitantes de Manacá. Houve alguns protestos, porque muitos não se conformaram em perder os filhos, recolhidos aos ventres maternos, ou com as ruas que ficaram sem calçamento. Mas o excesso de poeira nas vias públicas não conseguiu perturbar a alegria de outros que, por repentina mudança do seu estado civil, voltaram a ser solteiros. (Juraram que nunca mais se casariam.)

Padre Delfim foi nomeado bispo. Agora os sinos tinham que ficar alegres, esquecer os defuntos. Porém a tristeza sufocava, mudava os sons. Demitiram o sineiro.
Dom Delfim era calmo e tinha a fisionomia insípida. Mandou buscar as lâminas de aço, os instrumentos de metal e proibiu a melancolia, as queixas contra as ruas empoeiradas.
Mariazinha se casaria, o seu sedutor seria enforcado na torre da igreja.
Os sinos concordaram, bimbalharam alegremente e dom Delfim ficou escarlate, perdeu a monotonia. Ordenou que se expulsassem as lâminas de aço, os instrumentos de metal.

Zaragota protestou:
Enforcado é que não! — Estava certo se o matassem antes, quando seduzira Mariazinha. Agora não. Vinte anos tinham sido recuados. Não era mais noivo de mulher alguma, nem pertencia à diocese do eminente bispo.
Dom Delfim coçou o queixo, satisfeito com o adjetivo e com o perfume que vinha do lencinho branco de rendas.
Somente se preocupava com a festa comemorativa da sua elevação a bispo, temendo que algum acontecimento imprevisível roubasse a pompa das homenagens que deveria receber.
Entretanto, precisava dar ao povo um pouco mais de alegria. Foi inflexível. Ser eminente era um direito que ninguém lhe podia negar. Levantou a cabeça, altivo, enérgico, e ordenou:
Josefino Maria Albuquerque Pereira da Silva, enforque o homem!
Depois, dando ao olhar uma expressão terna, pediu-me com humildade (eclesiástica): toque os sinos e case com Mariazinha.

Como não houvesse quem discordasse, enforcou-se o canalha do Zaragota e deu-se início aos preparativos do meu casamento.
Pensou-se primeiro no vestido de noiva. Que não podia ser comprido, de cauda, fomos todos acordes, sem que alguém ousasse mencionar a razão: dom Delfim jamais ameaçava duas vezes. (Omitiu-se, portanto, qualquer referência à poeira das ruas.)
Mariazinha, irrequieta, extasiada com os seus novos quinze anos, não punha objeção a nada. Agarrava-me pela mão e me obrigava a acompanhá-la estradas, varávamos as matas, galgávamos montes. Ia, pelo caminho, enchendo-me de flores e beijos. Enquanto isso, Manacá se enfeitava toda. Colocavam arcos de triunfo e bandeirinhas de papel de seda nas ruas, repicavam os sinos. Dom Delfim, a calva protegida por enorme chapéu de couro, passava apressado em sua caleça, fiscalizando tudo.

No dia marcado para as núpcias, a cidade amanheceu alvoroçada. (Zaragota balançava no topo da torre da igreja.)
O povo se concentrara, logo às primeiras horas do dia, no largo da matriz. José Alfinete comandava a populaça. Há mais de uma hora derramava inflamada oratória sobre os seus conterrâneos. Já analisara a situação caótica do país, a crise da lavoura, sem se esquecer de falar mal do farmacêutico, seu adversário político.
A não ser o orador, que convocara os manaquenses para ouvir terrível notícia, ninguém sabia o motivo da reunião. Duas horas após o início do discurso, Alfinete revelou que Mariazinha fora seduzida novamente e o sedutor fugira.
Os populares, indignados com o que acabavam de ouvir, saíram no meu encalço, dispostos a me enforcar em praça pública.

Quando os meus perseguidores me encontraram, era relativamente tarde para que se pensasse em me executar. Eu já atirara no ponto negro que no ar acompanhava o movimento das minhas pupilas e jazia de bruços no solo.
Na véspera, ao contrário do que ardilosamente tinham anunciado, eu fora seduzido por Mariazinha.
Ao regressar à vila, não tinha mais dúvidas de que minha noiva era uma depravada. Zaragota nenhuma culpa tivera.
À noite não consegui adormecer. Insatisfeito com o que acontecera, tomei a decisão de não me casar. Saí de casa e fui bebendo pelos botequins que encontrava no caminho. Desejava me sufocar no álcool.
Mais tarde retomei a caminhada que fizera ao entardecer daquele dia.
Detive-me no mesmo lugar em que me deitara com Mariazinha. As estrelas se afundaram nos meus olhos e o ponto negro se destacou nítido ao luar. Puxei o gatilho da arma suavemente.
De novo se puseram tristes os sinos de Manacá. Dom Delfim se viu privado das honras episcopais.

1943 
 
Josefino Maria Albuquerque Pereira da Silva!
A voz era declamada, lenta, lúgubre. Padre Delfim chamava-me em vão.
As ruas da cidade ostentavam o seu primitivo calçamento e os filhos dos seus moradores começaram a se desprender — sem que fosse necessária a intervenção das parteiras — dos ventres das mulheres. Manacá tornara a ser elevada a sede de comarca e os homens que juraram nunca mais se casar, juraram inutilmente.
Ao meu enterro, Zaragota, amigo fiel, compareceria ainda convalescente do enforcamento que sofrerá.
Não compareceu. Padre Delfim julgou-o culpado de sua demissão e ordenou, para consolo próprio, que o enforcassem no mesmo local da outra vez.
Tangeram os sinos, tristes e rachados. O sineiro fora readmitido.
O luar inundou, por várias noites, as ruas sem poeira da cidade e maio caminhou lentamente para o seu termo.
Murilo Rubião, in Obra completa

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