Trouxe
da ilha de Rhodes duas máscaras gregas. Estampam, uma, o sorriso
traiçoeiro da comédia e a outra o horror da tragédia. Não se
completam, se repelem. Fixei-as sobre a lareira de minha sala. Ainda
estão ali, a me advertir que a vida é um sonho partido ao meio.
Meu
cachorro, Gaudí, nunca se interessou pelas máscaras. Presos a fios
invisíveis, elétricos, os cockers são obcecados pelo presente.
Agitam-se sobre ele com entusiasmo e destemor. Não lhes interessa o
longo rasto de passado que as máscaras arrastam.
Um
dia, eu o encontrei sentado diante da lareira. Desafiava as máscaras
com um rosnar furioso, como se elas fossem dois estranhos que
acabassem de invadir a sala. Algum evento improvável, alguma onda do
acaso, o levou a fixar a atenção sobre elas. A ver, finalmente, o
que sempre esteve ali, e ele era incapaz de ver.
Uma
máscara grega – que simboliza o ciúme – está na capa de
Querida (Casa Lygia Bojunga), romance da mais premiada autora
brasileira de literatura infantojuvenil. Escrevo com repulsa: “de
literatura infantojuvenil”. Lygia é um dos grandes escritores
brasileiros vivos e o clichê (a máscara) a reduz e esmaga. A
restrição odiosa me força, porém, a pensar em sua grandeza. É
pelo simulacro que chego à verdade.
Também,
o herói de Querida, o menino Pollux, passa anos a fio sem
conseguir ver o que está bem diante de si. Perde o pai. A mãe se
apaixona por outro homem, um diplomata, que planeja se mudar com a
família para a Austrália. Cego pelo ciúme, Pollux foge de casa.
Acreditamos,
em geral, que os sentimentos são transparentes e puros, e que eles
nos conduzem diretamente à verdade. Será? Dominado pelo ciúme,
Pollux crê que o padrasto quer matá-lo. Primeiro, empurrando-o para
os trilhos do metrô. Depois, afogando-o em um lago. Por fim,
atropelando-o. Seus sinceros sentimentos o levam a ver o que não
existe. Em vez de inofensivos e singelos, os sentimentos deformam a
verdade.
Ao
contrário, tendemos sempre a crer que as máscaras são mentirosas.
Elas encobrem a realidade e disfarçam a verdade, pensamos. Camuflam,
deturpam, falsificam. Mesmas suspeitas que cultivamos, em geral, a
respeito da ficção. Máscaras, concluímos, não passam de
mentiras. Não devemos levá-las a sério.
Sozinho
no mundo, Pollux pede abrigo a um tio, Pacífico. O tio se afastou da
família para viver uma paixão secreta (“mascarada”) por uma
desconhecida, Ella. O nome da amada, Ella, carrega em si a marca do
neutro – isto é, das máscaras. Da falsificação e da mentira,
penso com minhas ideias automáticas.
O
casal tem uma coleção de máscaras, dispostas sobre a mesa da sala.
Sempre estiveram ali, mas Pollux nunca lhes deu atenção. É só
quando o livro se aproxima do fim que o menino (tomado pelo mesmo
despertar súbito que sacudiu meu cachorro) consegue, enfim, vê-las.
“Parou de estalo: o olho tinha batido na máscara do ciúme.” Já
não podia recuar.
A
experiência não é nova. Houve o dia em que Pollux notou no
semblante de Pacífico uma expressão – de torpor e alheamento –
que desconhecia. Só depois compreendeu que seu tio chegava da
primeira noite de amor com Ella. O amor não é só um sentimento
profundo; ele deforma nossos semblantes. Ele nos desenha e condena.
Outro
dia, Pollux esbarrou com Ella, subitamente transformada em uma velha.
Apavorado, tratou de fugir. Só muito depois entendeu que Ella usava
uma máscara. Ex-atriz, que se afastou dos palcos após um grande
fracasso, a mulher de seu tio não perdeu o gosto pela simulação.
Continuou a jogar com suas máscaras.
Acontece
que, em vez de encobrir a verdade, as máscaras a ressaltam. É
quando deparamos com o encoberto (e não com o nu) que vemos, enfim,
alguma coisa da verdade – porque a verdade, ela mesma, nunca se
deixa ver. Frescos e inocentes, os sentimentos, muitas vezes, nos
cegam. Só as máscaras (a ficção) chegam a roçar o rosto da
verdade.
Aos
poucos, Pollux descobre que sofre de seus sentimentos. Frontal e
escandaloso, o ciúme o cegou. Começa a valorizar a sutileza da
mentira. Mais tarde, troca o sonho de ser astrônomo pelo sonho de se
tornar escritor. Quem é o escritor senão aquele que, evitando a
visão devastadora da verdade, enfim, por um relance, a vê?
Adulto,
Pollux se torna um prestigiado autor de livros de viagens. Um dia,
decide escrever um romance. Poucos o levam a sério – a experiência
na ficção parece ser, apenas, um capricho. Pelo mesmo motivo,
reduzimos Lygia Bojunga à figura (à mascara) de “autor
infantojuvenil”. Mas é justamente a máscara – o rosto rígido a
me desafiar – que, por contraste, me conduz à verdade.
Volto
a Gaudí, meu cachorro, que um dia, enfim, descobriu as duas máscaras
de Rhodes. Naquele momento, conseguiu, por instantes, “ler”
minhas máscaras. Com isso, delas se apossou. Do mesmo modo, só
quando, na borda da máscara grega, Pollux consegue “ler” seu
ciúme, ele chega, enfim, a ser.
Há,
ainda, o momento em que Pacífico vê sua mulher, Ella, de um modo
que nunca tinha visto. Momento em que o sol poente a iluminava com
uma luz especial, “chegava mesmo a projetar nela a sombra das
grades deste portão”. Nas nuances do obscuro, a mulher, enfim, se
revela. Pacífico conclui: “Agora, estava diante de mim, só para
mim”.
A
própria Ella esclarece o que se passou: “Vê? Eu não sou mais a
mesma”. Atravessada pela incerteza de luz e sombra, encoberta pela
máscara hesitante da vida, Ella se torna, enfim, uma mulher – e
não mais qualquer mulher. Pouco depois, morre, mas já está inteira
– isto é, pulsante e estranha – no coração de Pacífico.
Só
depois de atravessar o longo corredor de máscaras, Pollux pode,
enfim, voltar para casa. Não leva consigo a verdade toda, mas só
alguns pedaços que, através daqueles semblantes duros, conseguiu
fisgar. Agora sabe que jamais possuirá a verdade. E que é assim,
com o rosto cortado ao meio, que se torna o Pollux verdadeiro.
Gaudí
morreu há um ano. Ficaram as duas máscaras de Rhodes na parede de
minha sala. Duas metades, duas figuras amputadas. Elas não são a
verdade, pois para a morte não existem palavras. Mas não permitem
que eu o esqueça.
José
Castello, in Sábados inquietos
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