terça-feira, 13 de março de 2018

As máscaras de Rhodes

Trouxe da ilha de Rhodes duas máscaras gregas. Estampam, uma, o sorriso traiçoeiro da comédia e a outra o horror da tragédia. Não se completam, se repelem. Fixei-as sobre a lareira de minha sala. Ainda estão ali, a me advertir que a vida é um sonho partido ao meio.
Meu cachorro, Gaudí, nunca se interessou pelas máscaras. Presos a fios invisíveis, elétricos, os cockers são obcecados pelo presente. Agitam-se sobre ele com entusiasmo e destemor. Não lhes interessa o longo rasto de passado que as máscaras arrastam.
Um dia, eu o encontrei sentado diante da lareira. Desafiava as máscaras com um rosnar furioso, como se elas fossem dois estranhos que acabassem de invadir a sala. Algum evento improvável, alguma onda do acaso, o levou a fixar a atenção sobre elas. A ver, finalmente, o que sempre esteve ali, e ele era incapaz de ver.
Uma máscara grega – que simboliza o ciúme – está na capa de Querida (Casa Lygia Bojunga), romance da mais premiada autora brasileira de literatura infantojuvenil. Escrevo com repulsa: “de literatura infantojuvenil”. Lygia é um dos grandes escritores brasileiros vivos e o clichê (a máscara) a reduz e esmaga. A restrição odiosa me força, porém, a pensar em sua grandeza. É pelo simulacro que chego à verdade.
Também, o herói de Querida, o menino Pollux, passa anos a fio sem conseguir ver o que está bem diante de si. Perde o pai. A mãe se apaixona por outro homem, um diplomata, que planeja se mudar com a família para a Austrália. Cego pelo ciúme, Pollux foge de casa.
Acreditamos, em geral, que os sentimentos são transparentes e puros, e que eles nos conduzem diretamente à verdade. Será? Dominado pelo ciúme, Pollux crê que o padrasto quer matá-lo. Primeiro, empurrando-o para os trilhos do metrô. Depois, afogando-o em um lago. Por fim, atropelando-o. Seus sinceros sentimentos o levam a ver o que não existe. Em vez de inofensivos e singelos, os sentimentos deformam a verdade.
Ao contrário, tendemos sempre a crer que as máscaras são mentirosas. Elas encobrem a realidade e disfarçam a verdade, pensamos. Camuflam, deturpam, falsificam. Mesmas suspeitas que cultivamos, em geral, a respeito da ficção. Máscaras, concluímos, não passam de mentiras. Não devemos levá-las a sério.
Sozinho no mundo, Pollux pede abrigo a um tio, Pacífico. O tio se afastou da família para viver uma paixão secreta (“mascarada”) por uma desconhecida, Ella. O nome da amada, Ella, carrega em si a marca do neutro – isto é, das máscaras. Da falsificação e da mentira, penso com minhas ideias automáticas.
O casal tem uma coleção de máscaras, dispostas sobre a mesa da sala. Sempre estiveram ali, mas Pollux nunca lhes deu atenção. É só quando o livro se aproxima do fim que o menino (tomado pelo mesmo despertar súbito que sacudiu meu cachorro) consegue, enfim, vê-las. “Parou de estalo: o olho tinha batido na máscara do ciúme.” Já não podia recuar.
A experiência não é nova. Houve o dia em que Pollux notou no semblante de Pacífico uma expressão – de torpor e alheamento – que desconhecia. Só depois compreendeu que seu tio chegava da primeira noite de amor com Ella. O amor não é só um sentimento profundo; ele deforma nossos semblantes. Ele nos desenha e condena.
Outro dia, Pollux esbarrou com Ella, subitamente transformada em uma velha. Apavorado, tratou de fugir. Só muito depois entendeu que Ella usava uma máscara. Ex-atriz, que se afastou dos palcos após um grande fracasso, a mulher de seu tio não perdeu o gosto pela simulação. Continuou a jogar com suas máscaras.
Acontece que, em vez de encobrir a verdade, as máscaras a ressaltam. É quando deparamos com o encoberto (e não com o nu) que vemos, enfim, alguma coisa da verdade – porque a verdade, ela mesma, nunca se deixa ver. Frescos e inocentes, os sentimentos, muitas vezes, nos cegam. Só as máscaras (a ficção) chegam a roçar o rosto da verdade.
Aos poucos, Pollux descobre que sofre de seus sentimentos. Frontal e escandaloso, o ciúme o cegou. Começa a valorizar a sutileza da mentira. Mais tarde, troca o sonho de ser astrônomo pelo sonho de se tornar escritor. Quem é o escritor senão aquele que, evitando a visão devastadora da verdade, enfim, por um relance, a vê?
Adulto, Pollux se torna um prestigiado autor de livros de viagens. Um dia, decide escrever um romance. Poucos o levam a sério – a experiência na ficção parece ser, apenas, um capricho. Pelo mesmo motivo, reduzimos Lygia Bojunga à figura (à mascara) de “autor infantojuvenil”. Mas é justamente a máscara – o rosto rígido a me desafiar – que, por contraste, me conduz à verdade.
Volto a Gaudí, meu cachorro, que um dia, enfim, descobriu as duas máscaras de Rhodes. Naquele momento, conseguiu, por instantes, “ler” minhas máscaras. Com isso, delas se apossou. Do mesmo modo, só quando, na borda da máscara grega, Pollux consegue “ler” seu ciúme, ele chega, enfim, a ser.
Há, ainda, o momento em que Pacífico vê sua mulher, Ella, de um modo que nunca tinha visto. Momento em que o sol poente a iluminava com uma luz especial, “chegava mesmo a projetar nela a sombra das grades deste portão”. Nas nuances do obscuro, a mulher, enfim, se revela. Pacífico conclui: “Agora, estava diante de mim, só para mim”.
A própria Ella esclarece o que se passou: “Vê? Eu não sou mais a mesma”. Atravessada pela incerteza de luz e sombra, encoberta pela máscara hesitante da vida, Ella se torna, enfim, uma mulher – e não mais qualquer mulher. Pouco depois, morre, mas já está inteira – isto é, pulsante e estranha – no coração de Pacífico.
Só depois de atravessar o longo corredor de máscaras, Pollux pode, enfim, voltar para casa. Não leva consigo a verdade toda, mas só alguns pedaços que, através daqueles semblantes duros, conseguiu fisgar. Agora sabe que jamais possuirá a verdade. E que é assim, com o rosto cortado ao meio, que se torna o Pollux verdadeiro.
Gaudí morreu há um ano. Ficaram as duas máscaras de Rhodes na parede de minha sala. Duas metades, duas figuras amputadas. Elas não são a verdade, pois para a morte não existem palavras. Mas não permitem que eu o esqueça.
José Castello, in Sábados inquietos

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