“Compreendi
tudo e, no dia seguinte, sentindo-me extremamente exultante, achei
que tinha chegado a hora de explicar tudo à minha família. Mais do
que qualquer outra coisa, ficaram lá rindo. “Mas ouçam! Não!
Olhem! É simples, deixem-me explicar da maneira mais resumida
possível. Todas as coisas são o vazio, não são?” “Do que você
está falando, como assim, vazio, estou segurando esta laranja na
mão, não estou?” “É o vazio, tudo é vazio, as coisas só vêm
para ir embora todas as coisas feitas precisam ser desfeitas, e elas
precisam ser desfeitas simplesmente porque foram feitas!” Nem isso
eles aceitavam. “Você e o seu Buda, por que é que você não
aceita a religião em que nasceu?”, disseram minha mãe e minha
irmã. “Tudo se foi, já se foi, já veio e já se foi”, berrei.
“Ah”, andando com passos pesados de um lado para o outro,
voltando, “e as coisas são o vazio porque aparecem, não aparecem?
A gente as enxerga, mas são feitas de átomos que não podem ser
medidos nem pesados nem segurados, até aqueles idiotas dos
cientistas já sabem disso, não existe nenhuma descoberta avançada
a respeito desse troço que chamamos de átomo, “as coisas são
apenas combinações vazias de algum elemento que parece sólido
porque aparece no espaço, não são grandes nem pequenas, nem
distantes nem próximas, nem verdadeiras nem falsas, são pura e
simplesmente fantasmas.” “Fantasmas!”, gritou o pequeno Lou,
maravilhado. Ele concordava comigo de verdade, mas tinha medo da
minha insistência nos “Fantasmas”. “Olha”, disse o meu
cunhado, “se as coisas fossem o vazio, como é que eu poderia estar
sentindo esta laranja, além de sentir seu gosto e engoli-la, quero
ver você responder isso.” “Sua mente forma a laranja quando a
enxerga, ouve, toca, cheira, experimenta e pensa a respeito dela, mas
sem isso em mente, como você diz, a laranja não poderia ser vista
nem ouvida nem cheirada nem mesmo mentalmente percebida, é que na
verdade essa laranja depende da sua mente para existir! Você não
enxerga isso? Por si só, ela é uma não-coisa, é uma coisa mental
mesmo, só pode ser vista a partir da sua mente. Em outras palavras,
é o vazio, mas está desperta.”
Jack
Kerouac,
in
Os Vagabundos Iluminados
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