domingo, 26 de abril de 2026

Homem de visão na Vila



Foi na última festa junina do 257, Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as lanterninhas:
Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado. Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
De quem será que ele roubou esse retrato?
Tão moça, de olhinho claro, não ia gostar desse traste…
Que solidão, né, menina? Ter que inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava sozinho:
Tô decorando ela, tô decorando elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir. O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu na fogueira:
Cada vez mais tantã. Isso que ele tá falando é samba-canção do Lupicínio.
Não cospe na fogueira que tu fica seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O festival de comiseração continuou:
Dá um pouco de quentão pro coitado.
Dá não. Ele ficou assim por causa da bebida.
Que isso? Sujeito só bebe que nem ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só mata quando o tira-gosto é tristeza.
Isso parece frase dele.
Pô, não sei se agradeço ou se fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
A calça dela ficou entre dois fogos...
Lindauro não tirava a mão do hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
O balão lambe e tu é que fica com a língua de fora, otário.
Não chacoalha, tá? Manjo teu repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito breu.
Tu fala de boca-cheia, Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás precisando...
Ah, vai tomar no...
Tomate cru é na salada, teu cu é pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível missiméri:

Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.

Deu um branco momentâneo na festa e no texto.
O pessoal há havia virado poema do Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério, que eu também costumo beber e sonhar acordado.

Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

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