Foi na última festa junina do 257,
Rua dos Artistas.
O balão deu prego, foi escorado pelos
fios (pauta musical do Orestes) e todo mundo achou que o danado se
acabaria devagarinho quando o mundo estourou feito pluma, a luz
apagou, as crianças gritaram... Aquele poeta que há muito tempo não
dava o ar da sua graça, um que era meio maluco, misturou as
lanterninhas:
— Esse troço foi no meu peito.
Trouxeram o lampião de querosene. O
poeta deu de mostrar um três por quatro e um papel amarrotado.
Ninguém acreditava, ninguém levava a sério:
— De quem será que ele roubou esse
retrato?
— Tão moça, de olhinho claro, não
ia gostar desse traste…
— Que solidão, né, menina? Ter que
inventar uma namorada,tsc,tsc...
Ele ficava olhando o retrato e falava
sozinho:
— Tô decorando ela, tô decorando
elazinha... Vou botar esse papel com os nomes pra São João decidir.
O que ficar mais orvalhado...
Ceceu Rico, o cético da rua, cuspiu
na fogueira:
— Cada vez mais tantã. Isso que ele
tá falando é samba-canção do Lupicínio.
— Não cospe na fogueira que tu fica
seco.
A Lua apareceu de caipira, as manchas
escuras feito sorriso onde falta dente ou bigode de rolha queimada. O
festival de comiseração continuou:
— Dá um pouco de quentão pro
coitado.
— Dá não. Ele ficou assim por
causa da bebida.
— Que isso? Sujeito só bebe que nem
ele quando sente a agonia do peru de véspera, cumpadre. Bebida só
mata quando o tira-gosto é tristeza.
— Isso parece frase dele.
— Pô, não sei se agradeço ou se
fico ofendido.
Velho dilema de quem é amigo de
poeta.
Dançaram a quadrilha. Tuninho Sorvete
chamuscou de novo as calças remendadas na fogueira. Meu avô Aguiar
prendeu as rodinhas no cabo de vassoura. Um buscapé matreiro beijou
a bunda da Isolda. Nunca se viu tanto voluntário pro Corpo de
Bombeiros. Ela rebolou mais que Rainha do Bafo da Onça. Fagulha pra
todo lado. Penteado deu um gole na branquinha e gozou o rescaldo:
— A calça dela ficou entre dois
fogos...
Lindauro não tirava a mão do
hidrante e a Deysinha abriu a torneira:
— O balão lambe e tu é que fica
com a língua de fora, otário.
— Não chacoalha, tá? Manjo teu
repertório. Tás na bronca porque tua bucha anda pingando muito
breu.
— Tu fala de boca-cheia,
Lindauro. Peraí que eu vou apanhar uns amendoins pra tua tromba. Tás
precisando...
— Ah, vai tomar no...
— Tomate cru é na salada, teu cu é
pra garotada.
Nem Santo Antônio, o casamenteiro
calhorda, pacificaria aquele Oriente Médio. Mas o tal poeta, com
certeza por ser meio maluco, pegou o violão e cantou como se
estivesse no sonhado Papel Carbono, ao lado da inesquecível
missiméri:
Tenho certas manchas no passado,
outras hei de ver no teu pescoço...
Ah,eu queria ser moço
pra dizer à mocidade
que ela brinca de “já era”
mas o que era hoje é você.
Um tremor rindo na boca de criança
que não esconde mais a fêmea e
o que ela quer.
Nada é mais profundo e verdadeiro
que o desejo solto na mulher.
Não adianta fugir desse encontro,
Não adianta evitar meu caminho
somos ambos cobra, ambos
passarinho.
Meu fascínio é você que gera.
Teu olhar me enreda,
pago na mesma moeda,
minha bela fera.
Deu um branco momentâneo na festa e
no texto.
O pessoal há havia virado poema do
Manuel Bandeira, todos deitados dormindo profundamente, quando uma
espécie de fada tocou a campainha — ninguém ouviu! —, fez
carinho no bêbado — ninguém viu! — e voltou pro céu num bojo
enorme, meio tangerina, meio charuto, com uma alegoria que lembrava a
metade de um coração, ou a letra C, ou um pedaço de serpentina, ou
uma estrela cadente, sei lá...
No meio da noite despertei, fui pra
varanda olhar o céu e sou a única testemunha de tudo.
Mas acreditem, não me levem a sério,
que eu também costumo beber e sonhar acordado.
Aldir Blanc, em Vila Isabel, inventário da infância

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