102.
A vida é para nós o que concebemos
nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é
um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse
império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um
campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias
sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que
fundamentar a realidade da nossa vida.
Isto não vem a propósito de nada.
Tenho sonhado muito. Estou cansado de
ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se
cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono
sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também
tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os
gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade
de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o
bem, o consegue prender. Napoleão, seu testamento em Santa Helena,
deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó
grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da
cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.
Quantos Césares fui, mas não dos
reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca
fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi
fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao
ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho
há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores.
E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os
Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a
Realidade, não os pode conhecer.
Atiro com a caixa de fósforos, que
está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da
minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.
Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos
vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum,
salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro —
tantos, sem se entenderem, e todos certos.
Quão pouco, no mundo real, forma o
suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar,
o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a
caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser
domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no
mundo, e toda a metafísica.
Mas quantos Césares fui!
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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