99.
Há momentos em que tudo cansa, até o
que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos
repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da
alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não
conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanas,
e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio.
Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira
que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de
repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia
às avessas, uma dor perdida.
Estou num desses momentos, e escrevo
estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até
agora, trabalhei como um sonolento, contas por processos de sonho,
escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida
sobre os olhos e contra as têmporas — sono nos olhos, pressão
para fora nas têmporas, consciência de tudo isto no estômago,
náusea e desalento.
Viver parece-me um erro metafísico da
matéria, um descuido da inação. Nem olho o dia, para ver o que ele
tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição,
tape com palavras a xícara vazia do meu não me querer. Nem olho o
dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que
está lá fora na rua subjetivamente triste, na rua deserta onde está
passando o som de gente. Ignoro tudo e dói-me o peito. Parei de
trabalhar e não quero mexer-me daqui. Estou olhando para o
mata-borrão branco sujo, que alastra, pregado aos cantos, por sobre
a grande idade da secretária inclinada. Fito atentamente os rabiscos
de absorção e distração que estão borrados nele. Várias vezes a
minha assinatura às avessas e ao invés. Alguns números aqui e ali,
assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desatenção.
Olho a tudo isto como um aldeão de mata-borrões, com uma atenção
de quem olha novidades, com todo o cérebro inerte por detrás dos
centros cerebrais que promovem a visão.
Tenho mais sono íntimo do que cabe em
mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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