sexta-feira, 24 de abril de 2026

1618 – Luanda

O embarque

Foram agarrados pelas redes dos caçadores e caminham até a costa, amarrados uns a outros pelo pescoço, enquanto soam os tambores da dor nas aldeias.
Na costa africana, um escravo vale quarenta colares de vidro ou um apito com correntinha ou um par de pistolas ou um punhado de balas. Os mosquetões e os facões, a aguardente, as sedas da China ou o percal da Índia são pagos com carne humana.
Um frade percorre as filas de cativos na praça principal do porto de Luanda. Cada escravo recebe uma pitada de sal na língua, uma salpicadura de água benta na cabeça e um nome cristão. Os intérpretes traduzem o sermão: Agora, sois filhos de Deus... O sacerdote manda que não pensem nas terras que abandonam e que não comam carne de cão, rato ou cavalo. Recorda a epístola de São Paulo aos efésios (Servos, servi a vossos amos!) e a maldição de Noé contra os filhos de Cam, que ficaram negros para sempre.
Veem o mar pela primeira vez e os aterroriza esse enorme animal que ruge. Creem que os brancos os levam a um matadouro distante, para comê-los e fazer óleo e banha deles. Os chicotes de pele de hipopótamo os empurram às enormes canoas que atravessam a arrebentação. Nas naus, os ameaçam os canhões de popa e proa, com as mechas acesas. Os grilhões e as correntes impedem que se atirem no mar.
Muitos morrerão na travessia. Os sobreviventes serão vendidos nos mercados da América e outra vez marcados com ferro em brasa.
Nunca esquecerão seus deus. Oxalá, ao mesmo tempo homem e mulher, se disfarçará de São Jerônimo e Santa Bárbara. Obatalá será Jesus Cristo; e Oxum, espírito da sensualidade e das águas frescas, se converterá na Virgem da Candelária, da Conceição, da Caridade ou dos Prazeres, e será Santa Ana na ilha de Trinidad. Por trás de São Jorge, Santo Antônio ou São Miguel, aparecerão os ferros de Ogum, deus da guerra; e dentro de São Lázaro cantará Babalu. Os trovões e os fogos do temível Xangô vão tirar o sossego de São João Batista ou de Santa Bárbara. Em Cuba, Elegguá continuará tendo duas caras, a vida e a morte, e no Brasil Exu terá duas cabeças, Deus e o Diabo, para oferecer a seus fiéis consolo e vingança.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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