Fumaças de Virgínia na névoa de
Londres
Dramatis personae:
O REI Jacó I da Inglaterra, VI da
Escócia. Escreveu: O tabaco converte em uma cozinha as partes
interiores do homem, sujando-as ou infetando-as com uma espécie de
fuligem untuosa e gordurosa. Também escreveu que quem fuma imita
as bárbaras e bestiais maneiras dos selvagens e servis índios
sem Deus.
JOHN ROLFE. Colono inglês de
Virgínia. Um dos membros mais distintos deste povo apontado e
escolhido pelo dedo de Deus – segundo o próprio Rolfe define
aos seus. Com sementes levadas da ilha de Trinidad à Virginia, fez
boas misturas de tabaco em suas plantações. Há três anos
despachou para Londres, nos porões do Elizabeth, quatro tonéis
cheios de folhas, que iniciaram o recente, mas já frutífero,
comércio de tabaco com a Inglaterra. Bem se pode dizer que John
Rolfe colocou o tabaco no trono de Virgínia, como planta-rainha de
poder absoluto. No ano passado veio a Londres com o governador Dale,
buscando novos colonos e novos investimentos para a Companhia de
Virgínia e prometendo lucros fabulosos a seus acionistas, porque o
tabaco será para a Virgínia o que a prata é para o Peru. Também
veio para apresentar ante o rei Jacó sua esposa, a princesa índia
Pocahontas, batizada Rebeca.
SIR THOMAS DALE. Governador de
Virgínia até o ano passado. Autorizou a boda de John Rolfe e a
princesa Pocahontas, primeiro matrimônio anglo-índio da história
de Virgínia, por entender que era um ato de alta conveniência
política, que contribuiria ao pacífico subministro de grãos e
braços por parte da população indígena. Entretanto, em sua
solicitação de permissão, John Rolfe não mencionava este aspecto
do assunto. Tampouco mencionava o amor, embora se ocupasse de negar
terminantemente qualquer desenfreado desejo em relação à sua bela
noiva de dezoito anos de idade. Dizia Rolfe que queria casar-se com
essa pagã de rude educação, bárbaras maneiras e geração
condenada, pelo bem desta plantação, pela honra de nosso país,
pela glória de Deus, por minha própria salvação e para converter
ao verdadeiro conhecimento de Deus e Jesus Cristo uma criatura
incrédula.
POCAHONTAS. Também chamada Matoaka
enquanto viveu com os índios. Filha predileta do grande chefe
Powhatan. Desde que se casou com John Rolfe, Pocahontas renunciou à
idolatria, passou a chamar-se Rebeca e cobriu com roupa inglesa sua
nudez. Usando chapéu de copa e bordados altos no pescoço, chegou a
Londres e foi recebida na corte. Falava como inglesa e pensava como
inglesa; devotamente partilhava a fé calvinista de seu esposo e o
tabaco de Virgínia encontrou nela a mais hábil e exótica
propaganda que necessitava para se impor em Londres. De doença
inglesa morreu. Navegando pelo Tâmisa de regresso a Virgínia, e
enquanto o barco esperava ventos favoráveis, Pocahontas exalou seu
último suspiro nos braços de John Rolfe, em Gravesend no mês de
março deste ano de 1617. Não tinha cumprido vinte e um anos.
OPECHANCANOUGH. Tio de Pocahontas,
irmão mais velho do grande chefe Powhatan. Foi Opechancanough quem
entregou a noiva na igreja protestante de Jamestown, igreja nua, de
troncos, há três anos. Não disse uma palavra durante a cerimônia,
nem antes, nem depois, mas Pocahontas contou a John Rolfe a história
de seu tio. Opechancanough viveu em outros tempos na Espanha e no
México, foi cristão e se chamou Luis de Velasco, mas nem bem o
devolveram à sua terra e atirou ao fogo o crucifixo e a capa e a
gola, degolou os padres que o acompanhavam e recuperou seu nome de
Opechancanough, que na língua dos algonquins significa o que tem
a alma limpa.
Alguém que foi ator do Globe Theatre
nos anos de Shakespeare reuniu os dados desta história e se pergunta
agora, frente a uma jarra de cerveja, o que fará com eles. Escreverá
uma tragédia de amor ou um drama moralizante sobre o tabaco e seus
poderes maléficos? Ou talvez uma mascarada que tenha por tema a
conquista da América? A obra seria um êxito certo, porque toda
Londres fala da princesa Pocahontas e sua passagem fugaz por aqui.
Essa mulher... Ela sozinha era um harém. Toda Londres sonha com ela
nua entre as árvores, com flores cheirosas nos cabelos. Que anjo
vingador atravessou-a com sua espada invisível? Expiou ela os
pecados de seu povo pagão? Ou foi essa morte uma advertência de
Deus a seu marido? O tabaco, filho ilegítimo de Proserpina e Baco...
Não ampara Satanás o misterioso pacto entre essa erva e o fogo? Não
sopra Satanás a fumaça que deixa os virtuosos tontos? E a escondida
lascívia do puritano John Rolfe... E o passado de Opechancanough,
antes chamado Luis de Velasco, traidor ou vingador... Opechancanough
entrando na igreja com a princesa no braço... Alto, erguido, mudo...
– Não, não – conclui o
indiscreto caçador de histórias, enquanto paga suas cervejas e sai
à rua – Esta história é boa demais para ser escrita. Como
costuma dizer o galeno Silva, poeta das Índias: “Se a escrevo, o
que me sobrará para contar aos amigos?”
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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