segunda-feira, 6 de abril de 2026

1617 – Londres

Fumaças de Virgínia na névoa de Londres

Dramatis personae:
O REI Jacó I da Inglaterra, VI da Escócia. Escreveu: O tabaco converte em uma cozinha as partes interiores do homem, sujando-as ou infetando-as com uma espécie de fuligem untuosa e gordurosa. Também escreveu que quem fuma imita as bárbaras e bestiais maneiras dos selvagens e servis índios sem Deus.
JOHN ROLFE. Colono inglês de Virgínia. Um dos membros mais distintos deste povo apontado e escolhido pelo dedo de Deus – segundo o próprio Rolfe define aos seus. Com sementes levadas da ilha de Trinidad à Virginia, fez boas misturas de tabaco em suas plantações. Há três anos despachou para Londres, nos porões do Elizabeth, quatro tonéis cheios de folhas, que iniciaram o recente, mas já frutífero, comércio de tabaco com a Inglaterra. Bem se pode dizer que John Rolfe colocou o tabaco no trono de Virgínia, como planta-rainha de poder absoluto. No ano passado veio a Londres com o governador Dale, buscando novos colonos e novos investimentos para a Companhia de Virgínia e prometendo lucros fabulosos a seus acionistas, porque o tabaco será para a Virgínia o que a prata é para o Peru. Também veio para apresentar ante o rei Jacó sua esposa, a princesa índia Pocahontas, batizada Rebeca.
SIR THOMAS DALE. Governador de Virgínia até o ano passado. Autorizou a boda de John Rolfe e a princesa Pocahontas, primeiro matrimônio anglo-índio da história de Virgínia, por entender que era um ato de alta conveniência política, que contribuiria ao pacífico subministro de grãos e braços por parte da população indígena. Entretanto, em sua solicitação de permissão, John Rolfe não mencionava este aspecto do assunto. Tampouco mencionava o amor, embora se ocupasse de negar terminantemente qualquer desenfreado desejo em relação à sua bela noiva de dezoito anos de idade. Dizia Rolfe que queria casar-se com essa pagã de rude educação, bárbaras maneiras e geração condenada, pelo bem desta plantação, pela honra de nosso país, pela glória de Deus, por minha própria salvação e para converter ao verdadeiro conhecimento de Deus e Jesus Cristo uma criatura incrédula.
POCAHONTAS. Também chamada Matoaka enquanto viveu com os índios. Filha predileta do grande chefe Powhatan. Desde que se casou com John Rolfe, Pocahontas renunciou à idolatria, passou a chamar-se Rebeca e cobriu com roupa inglesa sua nudez. Usando chapéu de copa e bordados altos no pescoço, chegou a Londres e foi recebida na corte. Falava como inglesa e pensava como inglesa; devotamente partilhava a fé calvinista de seu esposo e o tabaco de Virgínia encontrou nela a mais hábil e exótica propaganda que necessitava para se impor em Londres. De doença inglesa morreu. Navegando pelo Tâmisa de regresso a Virgínia, e enquanto o barco esperava ventos favoráveis, Pocahontas exalou seu último suspiro nos braços de John Rolfe, em Gravesend no mês de março deste ano de 1617. Não tinha cumprido vinte e um anos.
OPECHANCANOUGH. Tio de Pocahontas, irmão mais velho do grande chefe Powhatan. Foi Opechancanough quem entregou a noiva na igreja protestante de Jamestown, igreja nua, de troncos, há três anos. Não disse uma palavra durante a cerimônia, nem antes, nem depois, mas Pocahontas contou a John Rolfe a história de seu tio. Opechancanough viveu em outros tempos na Espanha e no México, foi cristão e se chamou Luis de Velasco, mas nem bem o devolveram à sua terra e atirou ao fogo o crucifixo e a capa e a gola, degolou os padres que o acompanhavam e recuperou seu nome de Opechancanough, que na língua dos algonquins significa o que tem a alma limpa.
Alguém que foi ator do Globe Theatre nos anos de Shakespeare reuniu os dados desta história e se pergunta agora, frente a uma jarra de cerveja, o que fará com eles. Escreverá uma tragédia de amor ou um drama moralizante sobre o tabaco e seus poderes maléficos? Ou talvez uma mascarada que tenha por tema a conquista da América? A obra seria um êxito certo, porque toda Londres fala da princesa Pocahontas e sua passagem fugaz por aqui. Essa mulher... Ela sozinha era um harém. Toda Londres sonha com ela nua entre as árvores, com flores cheirosas nos cabelos. Que anjo vingador atravessou-a com sua espada invisível? Expiou ela os pecados de seu povo pagão? Ou foi essa morte uma advertência de Deus a seu marido? O tabaco, filho ilegítimo de Proserpina e Baco... Não ampara Satanás o misterioso pacto entre essa erva e o fogo? Não sopra Satanás a fumaça que deixa os virtuosos tontos? E a escondida lascívia do puritano John Rolfe... E o passado de Opechancanough, antes chamado Luis de Velasco, traidor ou vingador... Opechancanough entrando na igreja com a princesa no braço... Alto, erguido, mudo...
Não, não – conclui o indiscreto caçador de histórias, enquanto paga suas cervejas e sai à rua – Esta história é boa demais para ser escrita. Como costuma dizer o galeno Silva, poeta das Índias: “Se a escrevo, o que me sobrará para contar aos amigos?”

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário