Pode ser que a erudição de
primeiríssima ordem seja tão rara quanto a grande arte ou a grande
poesia. Alguns dos talentos e qualidades que ela exige são óbvios:
uma extrema concentração, uma vasta memória, mas de grande
precisão, espírito fino e penetrante, uma espécie de ceticismo
piedoso ao manusear fontes e indicações, clareza na apresentação.
Outros requisitos são mais raros e difíceis de definir. O realmente
grande erudito tem um faro especial para encontrar o documento
escondido, mas fundamental, para concatenar circunstâncias
aparentemente díspares. Num relance ele vê a carta roubada enquanto
os outros fitam o papel da parede. Como um rabdomante, ele sente o
que há de importante sob a superfície batida. Detecta a falha no
cristal, a nota falsa no arquivo, a pressão encoberta daquilo que
foi falsificado ou amordaçado. Ele adere obstinadamente ao que Blake
chamava de “a sacralidade do pequeno detalhe”, mas então extrai
a aplicação, a inferência generalizadora, que pode alterar todo o
panorama de nossas percepções históricas, literárias e sociais.
No entanto, mesmo esses talentos e sua
rara combinação não determinam o que é fundamental para a grande
erudição. Tal como o magistral tradutor, ou autor, ou intérprete
musical, o erudito realmente grandioso se torna uma unidade com seu
material, por mais abstruso, por mais recôndito que seja. Ele
amalgama a força de sua personalidade e perícia técnica à época
histórica, ao texto literário ou filosófico, à trama sociológica
que está analisando e nos apresentando. Por sua vez, essa trama,
esse conjunto de fontes primárias vai adquirir algo do estilo e da
voz de seu intérprete. Irá se tornar dele sem deixar de ser o que
é. Agora existe uma China antiga que é a de Joseph Needham, uma
civilização helenista que fala com as inflexões do finado Arnaldo
Momigliano, um mapeamento das gramáticas que por muito tempo trará
as marcas de Roman Jakobson. E no entanto, em cada um desses casos, a
alquimia reinstaura a força do material.
A erudição de Gershom Scholem
pertencia a esse gênero raro e vivificante. Não só seus estudos da
Cabala modificaram, ainda que de maneira controversa, a imagem do
judaísmo — a compreensão que mesmo um judeu agnóstico agora tem
de sua proveniência psicológica e histórica —, como também suas
explorações, traduções e apresentações dos escritos
cabalísticos exercem uma enorme influência na teoria literária em
geral, no modo como críticos e estudiosos não judeus e totalmente
agnósticos leem poesia. Os ensaios de Scholem, muitos deles
compostos numa prosa alemã límpida e clássica (escrever mal é
sinal de pouca erudição), abrangem interesses que ultrapassam em
muito a Cabala. Não existe nenhum comentador mais arguto, mais
sombriamente percuciente, do drama do judaísmo alemão, das
ambiguidades na condição da Israel moderna, do papel dos estudos e
traduções da Bíblia numa época cada vez mais secularizada. Os
gostos não raro subversivos e estranhamente irônicos de Scholem são
variados: da mesma forma que William James (e existem outras
analogias), ele tomou como campo seu o jogo entre o intelecto e as
pluralidades do sentimento humano. Toda manifestação de consciência
religiosa, de imaginação mítica, de ilusão criativa o fascinava.
Mas fascinavam-no também a matemática, a anatomia do discurso
jurídico e a antropologia. Grande parte da caudalosa produção de
Scholem é esotérica não só no tema — os arcanos do misticismo
medieval e hassídico, da cosmologia gnóstica, da magia e do
hermetismo renascentista, mas também nos meios de apresentação.
Várias obras-primas de erudição, de solução de problemas,
continuam inevitavelmente encerradas em revistas especializadas e em
hebraico. Mas as obras principais de Scholem, como As origens da
Cabala e o fascinante estudo de Sabatai Tzvi, o pseudomessias
místico (ambos publicados pela editora de Princeton), se destinam ao
público cultivado, como também aquelas preciosidades em (relativa)
miniatura: as recordações pessoais de Scholem, a monografia sobre
as visões místicas da criação, sua memória de Walter Benjamin. E
em alguns casos as traduções para o inglês trazem atualizações e
textos de apoio inexistentes nas primeiras edições hebraicas ou
alemãs. Um grande servidor da intuição tem sido muito bem servido.
Scholem e Benjamin se conheceram em
1915, quando Benjamin tinha 23 anos e Scholem, dezessete. A amizade
dos dois se tornou matéria de lenda e de pesquisa acadêmica. Ela
mostra pontos de profunda afinidade. Benjamin e Scholem eram judeus
alemães estranhamente alertas ao ambiente marginal, mas também
criativo, das condições sociais e pessoais em que viviam. Eram
homens do intelecto — do saber, da citação e do comentário num
veio quase rabínico. Ambos eram apaixonados por livros antigos,
bibliófilos e colecionadores sistemáticos em suas áreas. Eram
exímios praticantes da prosa alemã em registros muito distintos,
mas comungavam a mesma pureza de expressão, cujo próprio domínio
indicava algo não totalmente inato, não herdado de forma
inconsciente. Havia em ambos uma propensão anárquica, uma
desconfiança radical em relação às estruturas e convenções
estabelecidas. (Os dois conseguiram escapar para a Suíça durante a
Primeira Guerra Mundial, e Scholem simulou vários sintomas
neuróticos quando foi convocado pela agência de recrutamento.) Mais
importante, ambos decidiram abordar problemas filosóficos,
históricos e psicológicos centrais de um ângulo exótico. Scholem
revolucionou o estudo do judaísmo com seus exames
filológico-editoriais de esoterismos extremos — de heresias às
vezes desvairadas, de devaneios especulativos patológicos. Análises
de livros e brinquedos infantis, de fotos oitocentistas, dos livros
de emblemas e da dramaturgia “perdida” do barroco alemão, dos
empórios e lojas de departamentos que pipocaram em Paris no Segundo
Império levaram Benjamin a sugestões, a “iluminações” (termo
que tomou a Rimbaud), que hoje estão no centro do estruturalismo, da
sociologia cultural e da semiótica.
Mas as diferenças entre os dois
homens eram marcadas. Paradoxalmente, a imersão de Scholem no
misticismo religioso se originou de uma visão de mundo profundamente
cética e irônica. Tive o privilégio de conhecer Scholem em seus
últimos anos, de vê-lo em Jerusalém, Zurique e Nova York. Não
posso me atrever sequer a arriscar um palpite de se esse inspirado
expositor da meditação cabalista sobre as autodivisões da Unidade
Divina, sobre as emanações de luz da fronte divina, sobre a “quebra
dos vasos” no momento da criação, acreditava ou não em Deus. Os
trejeitos cômicos do sorriso de Scholem, as insinuações de um
divertimento voltairiano de fundo eram incontáveis. Benjamin, por
outro lado, era aquela rara criatura: um místico moderno, um
iniciado nos reinos ocultos do vaticínio, do simbolismo hermético,
da magia branca. Benjamin, que deu ao contexto sociológico-econômico
de nossa consciência um novo grau de precisão, que respondeu
prontamente à revolução na fotografia, no cinema e na rádio como
meios de comunicação de massa, que adotou um marxismo mais ou menos
pessoal e herético como componente vital de sua perspectiva, era o
verdadeiro cabalista. (Também teve experiências com drogas — uma
incursão no irracional da qual Scholem recuou.)
O interesse pelo sionismo era um
vínculo forte entre ambos, embora as maneiras de colocá-lo em
prática iriam se mostrar irreconciliáveis desde o começo. Com uma
rigorosa clarividência, Scholem sentia o potencial de catástrofe no
amálgama alemão-judaico. Para ele, tornou-se de uma clareza
fulgurante que um compromisso sério com a identidade judaica deveria
acarretar o domínio do hebraico e a vida em Israel. Há na
reconquista de Scholem do passado cabalístico para o conhecimento
judaico e para a história geral do pensamento religioso um veemente
“sionismo”, um retorno a uma Terra Santa. Benjamin manteve um
flerte ardoroso com a ideia de emigrar para a terra que então era a
Palestina. Ansioso, várias vezes informou Scholem sobre suas
intenções de estudar hebraico. Em 1929, e novamente nos meados dos
anos 1930, sob a égide de um impaciente Scholem, Benjamin declarou
que estava prestes a deixar uma Europa condenada. Nada resultou
desses impulsos prementes e inquietos. Scholem foi para Jerusalém em
1923. Morreu em 1982, cercado de honras, cumprida sua grande obra.
Benjamin, reduzido ao absoluto desespero, perseguido, seus escritos
dispersos ou fragmentados, se suicidou num buraco sórdido na
fronteira franco-espanhola em 1940. (Corria o boato de que os
refugiados isolados que tinham cruzado a fronteira seriam entregues à
polícia francesa e ficariam à mercê dos nazistas.)
Mas não poderia ser de outra maneira.
Walter Benjamin foi um dos últimos e mais inspirados
centro-europeus, sendo que essa centralidade indica uma noção
geográfica — os espaços definidos por Frankfurt-Viena-Praga-Paris
para o judaísmo emancipado — e o conceito do gênio histórico
europeu tal como se expressava em francês e em alemão. Como Adorno,
como Ernst Bloch e outros fundadores e testemunhas da chamada Escola
de Frankfurt de teoria crítica e filosofia da cultura, Benjamin
nunca poderia separar sua identidade poliglota, seu papel na
intelectualidade, seu próprio físico — o do sábio de botequim
por excelência — da fatalidade europeia. E adiou demais a chance
de fugir para os eua — chance que seus pares e amigos (Adorno,
Bloch, Horkheimer, Brecht) agarraram com maior ou menor senso de
oportunidade.
Um fio central em Correspondência
— Walter Benjamin e Gershom Scholem, traduzida por Gary Smith e
André Lefevere (Schocken, 1989), é a diferença fascinante entre o
Messias de Scholem e o Messias de Benjamin. Para Scholem, o
messiânico — cujas formas variadas e imensamente ricas ele havia
diagnosticado em monografias, em seu magistral As grandes
correntes da mística judaica e, acima de tudo, em seu épico de
Sabatai Tzvi — era inseparável de um retorno físico,
historicamente fundado, a Israel. Foi com o prazer de uma travessura
que Scholem insinuou no repertório cabalístico uma parábola que
ele mesmo tinha inventado: uma vinda do Messias que alteraria apenas
muito ligeiramente as coisas e portanto passaria despercebida
— exceto em Israel, cuja criação como Estado seria em si a melhor
prova disponível do advento messiânico. Já a visão de Benjamin,
que se concentrava na imagem do Angelus Novus, de Paul Klee —
o anjo da história, que uma ventania afasta de nós —, era
totalmente diversa. O messiânico não significava o sionismo.
Implicava a recuperação das vozes dos humilhados e vencidos,
soterradas pela história e pelos historiadores. Restauraria a língua
adâmica perdida que subjaz secretamente a todas as línguas humanas,
e cuja presença generativa fazia ao mesmo tempo possível e
impossível o ato da tradução. Para Benjamin, a vinda do Messias se
revelaria como uma imagem de transparência rumo à verdade, à
justiça social, à racionalidade amorosa se estendendo além do
judaísmo e do renascimento de Israel (por milagroso que o
considerasse).
A tradução dessa correspondência
tem a virtude da clareza. (São 128 cartas ao todo; algumas
anteriores a 1932 parecem ter se perdido, e há um toque de
prestidigitador na descoberta de Scholem em outubro de 1966, na
Alemanha Oriental, de seu lado da correspondência.) Ela não
transmite (nem poderia transmitir) de maneira convincente as
diferenças de tom dos dois escritores — diferenças que revelam
dissonâncias de índole permanentes. Mesmo sob o tom mais afetuoso —
às vezes arreliador — de Scholem há uma ponta de autoridade, de
exasperação diante da ilusão e do que lhe parece falta de lógica.
O tom de Benjamin é de faiscante sutileza, de esforço aparentemente
evasivo, mas finamente interiorizado, de dar expressão a coisas
intangíveis, a ambiguidades inevitáveis, a um vibrato de
percepções e intenções que ele mesmo denominou de “aura”.
No começo da primavera de 1934, por
exemplo, a preocupação clarividente de Scholem com a situação
europeia e a incapacidade de Benjamin de prover ao indispensável da
vida quase resultaram no rompimento da amizade. Escreve Benjamin em 3
de março:
Minha existência está chegando ao
limite do precário e a cada dia depende diretamente do bom Deus —
para dizer a mesma coisa de forma mais prudente. E com isso não me
refiro apenas à ajuda que consigo de tempos em tempos, mas também à
minha própria iniciativa, mais ou menos voltada para um milagre.
A espera de um milagre tinha um teor
ao mesmo tempo terapêutico — mantinha-o vivo — e incapacitante,
na medida em que reduzia ainda mais a utilidade, o estatuto moral e
metafísico, da simples ação racional. Para Scholem, a questão de
uma possível ajuda divina era pragmática. Ele lutou para conseguir
uma colocação profissional para Benjamin em Israel; batalhou para
conseguir a publicação ou a divulgação das obras de Benjamin. Mas
sua irritação é inequívoca. “Como vai se desenvolver realmente
sua situação está ficando cada vez mais incerto para mim”,
escreveu Scholem, e “Muitos fatos de nossa correspondência devem
lhe ter fugido da memória, pois você não lembra mais o que o levou
a tentar explicar sua situação. […] Estamos discutindo em
posições falsas, e isso não me agrada”.
Além disso, não eram somente as
vacilações de Benjamin em relação ao refúgio na Palestina que
exasperavam Scholem, mas, a partir de 1924, o envolvimento
extremamente complicado de Benjamin com o marxismo. Scholem sabia de
seu envolvimento pessoal e erótico com uma comunista. Sabia da
viagem do amigo a Moscou em 1926. O irmão mais velho de Scholem
tinha desempenhado um papel trágico e muito importante no Partido
Comunista alemão. Scholem se ressentia muito da influência cada vez
maior da obra e da pessoa de Brecht sobre Benjamin (o qual passou
semanas cruciais com Brecht no exílio dinamarquês). A política de
Scholem, se é que havia, era a do desencantamento, da ironia ou até
sarcasmo irredutível diante do espetáculo inveterado da loucura e
barbárie humanas.
Mas Scholem interpretou mal o recurso
herético e profundamente inventivo de Benjamin às teorias marxistas
da história e aos instrumentos retóricos do materialismo dialético.
Algumas amizades dentro do comunismo ajudaram Benjamin a aclarar as
sombras de sua solidão quase anormal. Em vários pontos da
enormidade política dos anos 1930, o comunismo e até o stalinismo
pareciam oferecer a única resistência efetiva à escalada
triunfante do fascismo e do nazismo. Scholem não teve acesso ao
diário de Moscou de Benjamin, publicado postumamente. Ali teria
encontrado indicações claras do ceticismo de Benjamin, de sua
aversão ao clima dominante na sociedade soviética. Mas tal aversão
não negava a força inspiradora das análises marxianas do
capitalismo oitocentista nem o estímulo a uma interpretação
materialista econômica da criação e disseminação de obras
artísticas e intelectuais que encontramos na estética marxista. Os
estudos pioneiros de Benjamin sobre a reprodutibilidade das obras de
arte para as massas, por meio da fotografia e do fac-símile em
cores, sua compreensão penetrante do jogo entre a alta cultura e o
mercado, suas análises preliminares para uma magnum opus que
havia planejado — uma anatomia de “Paris, a Capital do Século
XIX” — se fundavam numa luta pessoal com os princípios
marxistas. Daí as afinidades com o marxismo personalizado,
estrategicamente astuto, das peças e panfletos críticos de Brecht.
E sobretudo Scholem estacava diante do
que intuía a contragosto ser, em Benjamin, uma interpretação do
marxismo como variante natural da escatologia messiânica judaica —
da concentração judaica na esperança milenarista. Rigorosamente
informado, Scholem via a opressão política, a miséria humana a que
o marxismo-leninismo e seus companheiros de percurso estavam levando.
Não quis perceber as dimensões trágicas dessa degeneração dos
ideais messiânicos, do apelo utópico, porém incessante, à justiça
social, como já era eloquente nos Profetas. A anunciação em parte
mística de Benjamin quanto a uma “recuperação da história” —
da imposição de critérios morais à história — tinha nascido
justamente de um sonho de Moscou-Jerusalém. Sem esse fatídico
híbrido, ele não teria produzido muitos de seus melhores escritos —
em especial sua última produção, obra-prima de elegância e
concisão, “Teses sobre a filosofia da história”. Muito depois,
refletindo sobre o gênio de Benjamin e a sucessão de milagres que
permitiram a sobrevivência dos textos “perdidos”, Scholem iria
reconhecer (ouvi ao vivo) que a sinuosa dança de seu amigo com o
marxismo e ao redor dele tinha sido de algum proveito. Na época,
parecia-lhe uma traição e um desperdício vulgar de dotes raros.
O que manteve o andamento do diálogo,
entre seus altos e baixos, o que lhe dá estatura duradoura são as
sucessivas discussões de Kafka. Talvez de maneira subconsciente,
toda vez que suas relações estavam tensas, Benjamin e Scholem
voltavam a Kafka. O resultado é uma série de leituras — de
delineamentos críticos — de originalidade muito penetrante. Em
comparação, os truques interesseiros do atual desconstrucionismo ou
do pós-estruturalismo chegam a criar constrangimento.
Incansavelmente, Scholem e Benjamin põem a operar na esquiva
inesgotabilidade de Kafka um poder de imaginação quase equivalente
ao de seu objeto. A vontade é de citar uma página após a outra.
Limito-me a dois exemplos. Aqui está Scholem escrevendo para
Benjamin em 20 de setembro de 1934 (sobre O castelo):
E no entanto as mulheres de Kafka
trazem os sinais de outras coisas a que você não presta quase
atenção. É evidente que o castelo ou a burocracia com a qual elas
mantêm uma relação horrivelmente indefinível, mas exata, não é
o mundo primal de que você fala, se é que ele existe. Se fosse o
mundo primal, que necessidade então haveria de transformar a relação
das mulheres com ele num enigma? Tudo ficaria claro, enquanto na
realidade nada é claro e a relação delas com a burocracia é muito
instigante, ainda mais porque a própria burocracia chega a advertir
contra elas (por exemplo, pela boca do capelão). Em vez disso, o
castelo ou burocracia é algo com que o “mundo primal” deve
primeiramente manter alguma relação.
Você pergunta o que eu entendo
pelo “nada da revelação”. Entendo por ele um estado em que a
revelação aparece sem significado, em que ela ainda afirma a si
mesma, em que tem validade,
mas nenhuma significação.
Um estado em que a riqueza de significado se perdeu e o que está em
processo de aparição (pois a revelação é esse processo) mesmo
assim não desaparece, embora esteja reduzido ao ponto zero de seu
conteúdo.
A distinção entre validade e
significação é da máxima pertinência a todas as obras de
Kafka.
Ou tome-se a grande carta — um
ensaio de extrema densidade — de Benjamin, datada de 12 de junho de
1938. Mesmo uma longa citação não faz jus à sua profundidade:
Kafka entreouviu a tradição, e
quem ouve dificilmente deixa de ver.
A principal razão pela qual esse
entreouvir exige tanto esforço é que apenas os sons mais
indistintos chegam ao ouvinte. Não há nenhuma doutrina que se possa
aprender, nenhum conhecimento que se possa preservar. As coisas que o
ouvinte quer captar enquanto passa não se destinam aos ouvidos de
ninguém. Isso supõe um estado de coisas que caracteriza
negativamente as obras de Kafka com uma grande precisão. […] A
obra de Kafka representa o adoecimento da tradição […].
Disso Kafka tinha absoluta certeza:
primeiro, que, se for para ajudar, o sujeito deve ser um idiota;
segundo, apenas a ajuda de um idiota é uma verdadeira ajuda. A única
coisa incerta é: tal ajuda ainda pode ter alguma serventia para um
ser humano? […] Assim, como coloca Kafka, há uma quantidade
infinita de esperança, mas não para nós. Essa declaração
realmente contém a esperança de Kafka; é a fonte de sua serenidade
radiante.
Note-se — e isso é típico das
alegorias de Benjamin sobre a leitura — como a própria análise se
torna uma parábola ao estilo de Kafka.
Uma imensa tristeza sombreia mesmo a
carta mais informal e momentaneamente otimista. Elas foram enviadas
quando a Europa ingressou no pesadelo. Além disso, na Palestina,
Scholem não só viveu diretamente a violência dos primeiros choques
entre árabes e judeus, mas teve também claras intuições das
inimizades intratáveis que se estendiam à frente. E no entanto, à
sua maneira, é um livro jubiloso. Celebra o elixir da paixão
intelectual — a capacidade do cérebro e do sistema nervoso dos
homens de mergulhar em interesses abstratos, especulativos, mesmo ou
principalmente diante da dor e da adversidade pessoal. Demonstra com
prodigalidade a força por trás da aparente fraqueza, que muitas
vezes é a senha que permite a sobrevivência do humanismo e dos
perseguidos. Aqui, por fim, e não na placa lacônica num austero
muro de cemitério, Walter Benjamin tem seu in memoriam. E é
totalmente indissociável da maravilha, talvez mais profunda do que o
amor, que é a amizade.
22 de janeiro de 1990
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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