quarta-feira, 18 de março de 2026

1616 – Santiago Papasquiaro

O deus dos amos, é o deus dos servos?

Falou da vida livre um velho profeta índio. Vestido à antiga, andou por estes desertos e serras levantando pó e cantando, ao triste som de um tronco oco, as façanhas dos antepassados e a perdida liberdade. Predicou o velho a guerra contra quem arrebatou dos índios as terras e os deuses e os arrebenta nas entranhas das minas de Zacatecas. Ressuscitarão os que morram na guerra necessária, anunciou, e renascerão jovens e velozes os velhos que morram lutando.
Os tepehuanos roubaram mosquetões e armaram e esconderam muitos arcos e flechas, porque eles são arqueiros destros como Estrela da Manhã, o flechador divino. Roubaram e mataram cavalos, para comer sua agilidade, e mulas para comer sua força.
A rebelião começou em Santiago Papasquiaro, ao norte de Durango. Os tepehuanes, os índios mais cristãos da região, os primeiros convertidos, pisaram as hóstias; e quando o padre Bernardo Cisneros pediu clemência, responderam Dominas Vobiscum. Ao sul, em Mezquital, romperam a machadadas a cara da Virgem e beberam vinho nos cálices. No povoado de Zape, índios vestidos de batina de jesuíta perseguiram pelos bosques os espanhóis fugitivos. Em Santa Catarina, descarregaram seus porretes sobre o padre Heraldo del Tovar enquanto diziam: Vamos ver se Deus te salva. O padre Juan del Valle ficou estendido na terra, nu, no ar a mão que fazia o sinal da cruz e a outra mão cobrindo seu sexo jamais usado.
Mas pouco durou a insurreição. Nas planícies de Cacária, as tropas coloniais fulminaram os índios. Cai uma chuva vermelha sobre os mortos. A chuva atravessa o ar espesso de pó e criva os mortos com balas de barro vermelho.
Em Zacatecas repicam os sinos, chamando aos banquetes de celebração. Os senhores das minas suspiram aliviados. Não faltará mão de obra nos túneis. Nada interromperá a prosperidade do reino. Poderão eles continuar mijando tranquilos em baciazinhas de prata lavrada e ninguém impedirá que acudam à missa suas senhoras acompanhadas de cem criados e vinte donzelas.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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