domingo, 1 de março de 2026

Xande de Pilares | Ainda Bem

 

O poeta, ao espelho, barbeando-se

o rito
do dia
o rictus
do dia
o risco
do dia

EU?
UE?

olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga

EU?
UE?

o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio

EU?
UE?

mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita

EU
EU

José Paulo Paes, em Antologia Poética 

Eu falando, ficava sendo


[...]

Real, mudando o propósito ― e para que isto bem se entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos; quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui! eu falando, ficava sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com outra pressa. ― Desapeiem o homem, mandemos embora, que se vá! ― em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem entendimento das coisas, sem ação. Transes que em instante temi! aquele homem morresse, roqueado no medo, rebaixado dessa forma ― então, ah, aí, então, o destino de lugar, para mim, estava definitivo! só sendo nas extremas do fim do Inferno... Com jeito, com asco, uns dos meus cumpriram meu mandado, desamontaram o homem, e o homem quase nem se impunha de ficar em pé. ― Tu foge fora daqui, tu te vai embora! ― eu disse, tive de gritar. Aí ele entendeu, e saíu. Por um momento, pensei que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora era que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele, que tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou, outra vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se sacudiam. Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia arfagem de chorar também ― eu nas margens do mar. Não quis e nem pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam em escuro. As graças d arte ― sabe o senhor ―: na escuridão, não se chora, por não se ver, como não se pita cigarro... Com isso, desgostei de mim. Ah, no final da vez, o que ria o riso principal era ele, o demo. O Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu, mesmo por querer salvar a vida dele, eu tinha procedido de demorar assim, com aquele homem. Antes tivesse logo matado. Como é que se podia desrespeitar tudo desse jeito, numa desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o homem não tinha vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua cachorrinha. E a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade. Tanto ela não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora eu colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta daquele homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais para adiante, de pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí já tinham desarreado a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele magro animal, preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava; assim esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha, essa, eu pensei! eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo tinha ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha acertação, mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha começado a desastrada estória, que um final razoável carecia de ter. Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que se debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
Ao que o Fafafa, que não teve poder em si de se consentir silêncio, virou para mim, e disse! ― Nosso Chefe, com vênia eu peço! o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o prêço deste inocente animal, que seja poupado... A eguinha não é de todo ruim...
Aonde que ele disse, outros secundaram! eu deixasse. Repente meu foi meio irado; porque até o Fafafa me atravessava. Os demais, a ver que reprovavam minha decisão, de que a égua se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em seguida, gostei, eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu pessoal discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do demo era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que, assim, como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver. Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi um recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei!
Delibero o certo! o primeiro que eu vi, foi essa égua. Ela tinha de receber a morte... Ah, mas égua não é gente, não é pessoa que existe. E que? Ah, então, não é cabível que se mate a égua, por tanto que a minha palavra decidida era de se matar um homem! Não executo. A alçada da palavra se perdeu por si e se gastou ― pois não está dito? Acho e dou que o negócio veio ao terminado.
Verdadeiramente, com alegria, foi que todos me aprovaram. Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza de toda solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente, tanto, e descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas coisas, de certo modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na outra, eu limpei o seco de minhas mãos.
Aí , correr alguém, em tempo de campear outra vez esse homem... ― eu disse. ― Trazer, a modo de se dar a ele dinheiro, se dar de comer e um café, e tornar a entregar a ele o que é dele…
Eu falava era por devolver a égua. E o Suzarte, José Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo homem. A égua, que se soltou, caçava móitas de capim, para pastar. Com o que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa aguada na vereda perto, o Jacaré armou a trempe e coou café. Sentei, na sombra dum pau-dóce, fiquei ouvindo os gabos que os em redor de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
Tal a tal, o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio... ― um disse.
A fé, que determina com a mesma justiça que Medeiro Vaz... ― outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha perturbação. Aquela hora, eu estimava meus homens, que vivessem, que falassem. Mas, para afirmar ideia e respeito de que eu estava em minha chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia aproveitar para uma sesta de sonéques. Aprazia escutar o ventinho do chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca. Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranquilidade. O melhor ― ah, pensei, o melhor de tudo! ― era que o Anhangão não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que mesmo o mais certo era d ele, demo, não competir, por não ter nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte, Jiribibe e José Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o resultado algum.
...Sujeito se sumiu nesse mundo, carregando com o rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada dele...  ― assim rendiam explicação. Que é que se podia remediar? Seguir nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a égua ali, acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de outros tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? ― Reinaldo, essa tu quer? ― perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor respondeu! ― Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai se encontrar com onde estiver o dono... E ele mesmo desatou. Valia o senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha! que latiu suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora, feito fosse para um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe desaparecer, e nós tocamos, no caminho contrário. A égua ficou lá, pastando; e o arreio do homem, como um espantalho, pendurado no ramo de árvore, até as moscas do campo já se ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não pensava. Será ― mal pergunto eu ao senhor ― que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso é que tinha sido a nossa conversação ― por causa do de que agora lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que derradeiro ele me disse, me ficou um retardo. Aquele passo me envergonhava. Como ser? Eu queria e não queria ouvir ― não queria e queria. Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação. E eu quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido, perguntei:
O recado mandado, Diadorim, tu diz.Teu falar no exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras exijo ― o que me reverte!...
Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher...
Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha nóiva; será?
Riobaldo, pois foi. Em que é que você malda?
Ao que, por praga, eu relutei no freio. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja, então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava. Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de medo. Disse assim:
Pedi a ela que rezasse por você, Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...
No argame, no esquisito desgosto de meu espírito, vi que, mesmo antes dele falar, eu já sabia que aquilo era ― o que ele não evitava de me dizer. Rude que ainda reperguntei, mesmo assim:
Ah, não! Ah, você acha que eu careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?
Acho, de manhã à noite, Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...
Mor, mor, aí, recebi surto de meu sangue, forte,no corpo da cara e na beira das orêlhas, e logo doeu no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Com um tapa na rédea, eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
Acha tua vida, rapaz! Careço é de menos amizades... ― ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem pensei! ― Hás-de! Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com chumbo fino... ― e ri mamente. O que era que me transtornava, do meio para o fim, por essa fraseação?
Sendo que, depois logo, quando esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosa nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo de projetos, e raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do Chapadão, longe do poente, segundo se ia indo, por meu comando. As muitas sérias coisas referi comigo, quando eu estava provando a fresca da tarde.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Uma Dupla do Barulho





Estou em casa, depois de um jogo da Seleção Brasileira, com dor de cabeça, pensando na chatice em que o nosso futebol se transformou. Toca o relefone. É Hermínio Bello de Carvalho, diretamente de São Paulo, em companhia de Dona Neuma da Mangueira. Conheci Dona Neuma quando tive a honra de desfilar na Comissão de Frente da Mangueira, que homenageou Carlos Drummond de Andrade. A escola sagrou-se bicampeã. Sou salgueirense de enfartar, mas jamais esquecerei do abraço de Dona Neuma e de Dona Zica na pista, o dia clareando, no Desfile das Campeãs.
Hermínio já me deixou em situações dificílimas. Uma vez, também em São Paulo, estávamos Hermínio, Mello Menezes e eu meio de porre, num fim de tarde, dispostos a aprontar, quando o Mello notou três moças muito engraçadinhas (e, na aparência, nada ordinárias) na mesa em frente. Paquera vai, paquera vem, Hermínio fechou a cara:
Já vi que essas peruas vão estragar a boêmia.
Procuramos acalmá-lo: que nada, bobagem, e coisa e tal. As moças vieram pra nossa mesa. O pedaço que me coube naquele latifúndio mulherístico tinha uns dentes de fazer botar óculos escuros, uma beleza. Fiz um galanteio. Comparando os dentinhos dela com pérolas, troço muito original. A jovem agradeceu e escancarou ainda mais o anúncio luminoso. Hermínio, friamente, perguntou:
São naturais ou prótese?
E quando Mello Menezes elogiou os seios da moreninha, Hermínio repetiu a pergunta. Ora, diante desse clima, uma delas procurou brincar. Pra descontrair, entende? Disse pro Hermínio:
Ainda não sei o seu nome.
Lembram do muxoxo das novelas de antanho, aquelas bochechas de tédio e descaso e um bico assim, ó? Pois, é. Hermínio fez uma careta dessas pra coitada e respondeu:
Chamo-me Valéria.
Eu caí da cadeira e o Mello começou a chorar. Elas bateram asas, amores paulistanos que poderiam ter sido, mas não foram.
Pelo telefone, Dona Neuma me deu várias informações confidenciais sobre, digamos, atributos anatômicos de Noel Rosa, João da Baiana e de outros monstros sagrados de nossa música popular. Minha dor de cabeça passou de tanto rir. Quando o Hermínio apresentava suas despedidas misturadas com o repertório de Nora Nei fui acometido de curiosidade pouco elegante e perguntei:
Estão em São Paulo por quê?
Pra um casamento de bacana, responde Hermínio. E passou a descrever a festa: trombetas na entrada da igreja, uma orquestra enorme lá dentro, coro, viadinhos.
Viadinhos? – estranhei.
E o Hermínio, do alto de sua sabedoria:
Tem em todo lugar, meu filho. Parece criança...
E eis o fecho de ouro: na recepção, a noiva, uma verdadeira avalanche de rendas, aproximou-se da gloriosa Dona Neuma.
Dona Neuma, é uma honra ter a Mangueira aqui representada pela senhora.
A resposta:
Brigada, minha filha. Cê tá tão linda que eu tou até com saudade do meu cabaço.
God save a Estação Primeira!

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Condizente com a razão

Dado esse material, o que pode ser falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum



6

Na segunda-feira eu estava de ressaca. Fiz a barba e fui atrás de um anúncio que vi no jornal. Me sentei, e do outro lado estava o editor, um homem de mangas curtas e depressões profundas ao redor dos olhos. Parecia que ele não dormia há uma semana. Lá dentro era frio e escuro. Era a sala de montagem de um dos dois jornais da cidade, o menor deles. Homens estavam sentados em mesas sob lâmpadas de leitura, trabalhando com cópias.
Doze dólares por semana — propôs ele.
Tudo bem — respondi —, eu topo.
Eu trabalhava com um homenzinho gordo que tinha uma barriga nada saudável. Ele usava um relógio de bolso antiquado, preso em uma corrente dourada, vestia colete e um boné verde, tinha lábios grossos e uma expressão carnosa e sombria. As linhas do rosto não eram interessantes e sequer tinham personalidade; a cara parecia ter sido dobrada várias vezes e depois alisada, como se fosse um pedaço de papelão. Usava sapatos quadrados bregas e mascava tabaco, cuspindo o sumo em uma escarradeira no chão.
O sr. Belger — disse ele sobre o homem que precisava dormir — trabalhou duro para erguer este jornal. Ele é um bom homem. Estávamos à beira da falência até ele aparecer.
Ele me deu uma olhada. — Normalmente dão esse emprego para um estagiário.
Um sapo, pensei, é o que ele é, isso, sim.
Quero dizer — explicou —, esse trabalho costuma ser dado a um estudante. Ele pode estudar enquanto espera uma ligação. Você estuda?
Não.
Esse trabalho em geral é para quem estuda.
Voltei para a minha sala e sentei. Estava abarrotada de fileiras e fileiras de gavetas de metal, e dentro delas ficavam as gravuras em zinco que tinham sido usadas nos anúncios. Muitas dessas gravuras eram usadas inúmeras vezes. Havia também muitos tipos – com nomes de clientes e logomarcas. O gordo gritava “Chinaski!”, e eu ia ver qual anúncio ou que tipo ele queria. Muitas vezes eu era enviado ao jornal concorrente para pegar emprestado alguns dos tipos. Eles também pegavam os nossos. Era uma caminhada agradável, e eu achei um lugar em um beco onde podia tomar um copo de cerveja por alguns centavos. O gordo não me chamava muito, e o lugar da cerveja barata se tornou minha distração. O gordo começou a sentir minha falta. No começo, ele só me olhava com uma cara desagradável, até que um dia me perguntou:
Onde você estava?
Lá fora, tomando uma cerveja.
Este é um trabalho para estudantes.
Eu não sou estudante.
Vou ter que ter que mandá-lo embora. Preciso de alguém que esteja aqui com total disponibilidade.
O gordo me levou até o Belger, que parecia cansado como nunca.
Este é um trabalho para estudantes, sr. Belger. Receio que esse homem não se encaixe. Precisamos de um estudante.
Está bem — disse Belger. O gordo saiu todo estufado da sala.
Quanto te devemos? — perguntou Belger.
Cinco dias.
Certo, leve isso ao RH.
Ouça, Belger, aquele velho miserável é nojento.
Belger suspirou. — Jesus, não me diga?
Desci para o RH.

Charles Bukowski, em Factótum