segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Metáforas da leitura



Em 26 de março de 1892, Walt Whitman morreu na casa que comprara menos de dez anos antes em Camden, Nova Jersey, parecendo um rei do Velho Testamento ou, como descreveu Edmund Gosse, um grande e velho macho angorá. Uma fotografia tirada alguns anos antes de sua morte por Thomas Eakins, artista da Filadélfia, mostra-o com a juba branca desgrenhada, sentado à janela, observando pensativamente o mundo lá fora, que era, como havia dito aos seus leitores, uma glosa do que escrevera:

Se você me entendesse indo para as alturas ou à praia,
A ninharia mais próxima é uma explicação,
e uma gota ou movimento de ondas uma chave,
A marreta, o remo, o serrote secundam minhas palavras.

Whitman está ali para o olhar do leitor. Dois Whitmans, na verdade: o Whitiman de Folhas da relva, “Walt Whitman, um cosmo, de Manhattan o filho”, mas nascido também em todos os outros lugares (“Sou de Adelaide... Sou de Madri... Pertenço a Moscou”) e o Whitman nascido em Long Island, que gostava de ler romances de aventura e cujos amantes eram jovens da cidade, soldados, motoristas de ônibus. Ambos tornaram-se o Whitman que na velhice deixava a porta aberta para os visitantes que buscavam “o sábio de Camden”, e ambos tinham sido oferecidos ao leitor, cerca de trinta anos antes, na edição de 1860 de Folhas da relva:

Camarada, isto não é um livro,
Quem toca nisto, toca em um homem,
(É noite? Estamos sozinhos?)
Sou eu que seguras, e que te segura,
Eu salto das páginas para teus braços – a morte me chama.

Anos depois, na edição do “leito de morte” de Folhas da relva, tantas vezes revisadas e aumentadas, o mundo não “secunda” suas palavras, mas torna-se a voz primordial. Nem Whitman nem seu verso importavam: o mundo era suficiente, uma vez que não passava de um livro aberto para ser lido por todos nós. Em 1774, Goethe (que Whitman lia e admirava) escrevera: “Vê como a Natureza é um livro vivo,/ Incompreendida, mas não incompreensível?”
Em 1892, alguns dias antes de morrer, Whitman concordava:

Em cada objeto, montanha, árvore e estrela — em cada nascimento e vida,
Como parte de cada — desdobrada de cada — sígnificado, atrás da manifestação,
Uma cifra mística espera involucrada.

Li esses versos pela primeira vez em 1963, numa vacilante tradução espanhola. Certo dia, no colégio, um amigo que queria ser poeta (acabávamos de completar quinze anos na época) veio correndo até mim com um livro que descobrira, uma edição Austral de capa azul dos poemas de Whitman, impressos num papel áspero e amarelado e traduzidos por alguém cujo nome esqueci. Meu amigo era um admirador de Ezra Pound, a quem prestava a homenagem da imitação e, uma vez que os leitores não respeitam as cronologias arduamente estabelecidas por professores universitários bem pagos, ele achou que Whitman era uma imitação pobre de Pound. O próprio Pound tentara esclarecer as coisas, propondo “um pacto” com Whitman:

Foste tu que cortaste a madeira nova,
Agora é tempo de esculpir
Temos uma seiva e uma raiz —
Que haja comércio entre nós.

Mas meu amigo não se convenceu. Aceitei seu veredicto em nome da amizade e foi somente dois anos depois que cruzei com um exemplar de Folhas da relva em inglês, descobrindo então que Whitman dedicara seu livro a mim: “Tu, leitor, que pulsas de vida e orgulho e amor como eu / Por isso, para ti os cantos que seguem”
Li a biografia de Whitman, primeiro numa série destinada aos jovens que expurgava qualquer referência à sua sexualidade e o tornava ameno a ponto de levá-lo à não-existência, depois li o Walt Whitman de Geoffrey Dutton, instrutivo mas um tanto sóbrio demais. Anos mais tarde, a biografia de Philip Callow deu-me um retrato mais claro do homem e me fez reconsiderar um par de questões que me colocara anteriormente: se Whitman vira o leitor como ele mesmo, quem era esse leitor que Whitman tinha em mente? E como tinha Whitman, por sua vez, se tornado leitor?
Ele aprendeu a ler numa escola quaker do Brooklyn, segundo o que se conhecia como “método lancasteriano” (nome derivado do quaker inglês Joseph Lancaster). Um único professor, ajudado por crianças monitoras, cuidava de uma classe de cerca de cem alunos, dez em cada carteira. Os mais jovens estudavam no porão, as meninas mais velhas no térreo e os meninos mais velhos no andar de cima. Um de seus professores comentou que o achava “um menino de boa índole, de aparência desajeitada e relaxada, mas sem nada que chamasse a atenção”. Os poucos livros de texto eram suplementados pelos livros do pai, um democrata fervoroso que deu aos três filhos os nomes dos fundadores dos Estados Unidos. Muitos desses livros eram tratados políticos de Tom Paíne, do socialista Frances Wright e do filósofo francês do século XVIII Constantin-François, conde de Volney, mas havia também coleções de poesia e uns poucos romances. A mãe era analfabeta, mas, segundo Whitman, “uma excelente contadora de histórias”, “dotada de grandes poderes miméticos”. Whitman aprendeu as primeiras letras na biblioteca do pai, seus sons, aprendeu com as histórias que ouvira a mãe contar.
Whitman deixou a escola aos onze anos e foi trabalhar no escritório do advogado James B. Clark. O filho de Clark, Edward, gostou do menino brilhante e deu-lhe de presente uma assinatura de uma biblioteca circulante. “Foi o evento memorável da minha vida até ali”, disse Whitman mais tarde. Na biblioteca, tomou emprestado e leu As mil e uma noites “cada volume” e os romances de sir Walter Scott e James Fenimore Cooper Poucos anos depois, aos dezesseis anos, adquiriu “um robusto e bem fornido volume in-octavo de mil páginas [...] contendo toda a poesia de Walter Scott”. que consumiu avidamente. “Mais tarde, a intervalos, no verão e no outono, costumava ir para o campo ou para as praias de Long Island, às vezes por toda uma semana ali, em presença das influências do ar livre, li de ponta a ponta o Velho e o Novo Testamento e absorvi (provavelmente com mais proveito do que em qualquer biblioteca ou ambiente fechado faz muita diferença onde você lê) Shakespeare, Ossian, as melhores traduções que pude obter de Homero, Ésquilo, Sófocles, os velhos nibelungos germânicos, os poemas hindus antigos e outras obras-primas, Dante entre elas. Aconteceu de eu ter a maior parte deste último num velho bosque.” E Whitman interroga: “Desde então, pergunto-me por que não fiquei soterrado por aqueles poderosos mestres. Provavelmente porque os li na presença plena da Natureza, sob o sol, com paisagens e panoramas a perder de vista ou o mar quebrando na praia”. O lugar da leitura, como sugere Whitman, é importante não só porque proporciona um cenário físico para o texto que está sendo lido, mas também porque sugere, ao se justapor ao lugar na página, que ambos partilham da mesma qualidade hermenêutica e tentam o leitor com o desafio da elucidação.
Whitman não ficou muito tempo no escritório de advocacia. Antes do fim do ano já era aprendiz de tipógrafo no Long Island Patriot, aprendendo a trabalhar com um prelo manual que ficava num porão apertado, sob a supervisão do editor do jornal e autor de todos os artigos. Ali Whitman aprendeu “o misterioso prazer das diferentes letras e suas divisões a grande caixa de es - a caixa para espaços [...] a caixa de as, de is e todo o resto”, as ferramentas de seu ofício.
De 1836 a 1838 trabalhou como professor rural em Norwich, Nova York. O salário era baixo e errático, e, provavelmente porque os inspetores escolares desaprovavam suas classes turbulentas, foi forçado a mudar de escola oito vezes naqueles dois anos. Os superiores não podiam ficar muito contentes se ele ensinasse aos alunos: "Não deves mais tomar coisas de segunda ou terceira mão, / nem olhar através dos olhos dos mortos, nem se alimentar dos espectros nos livros". Ou então: "Honra mais o meu estilo quem aprende com ele a destruir o professor.”
Depois de aprender a imprimir e de ensinar a ler, Whitman descobriu que podia combinar as duas habilidades tornando-se editor de um jornal: primeiro o Long Islander, em Huntington,
Nova York, mais tarde o Daily Eagle, no Broolklyn. Ali começou a desenvolver sua noção de democracia como uma sociedade de "leitores livres", não contaminada por fanatismos e escolas políticas, a quem o fazedor de textos - poeta, tipógrafo, professor, editor de jornal deve servir ardorosamente. Em editorial de 1 de junho de 1846 explicou ele: "Sentimos de fato um desejo de falar sobre muitos assuntos a todas as pessoas do Brooklyn, e nem são os seus 9 pence o que mais queremos. Há um tipo curioso de simpatia (já pensaram nisso alguma vez?) que surge na mente de um diretor de jornal em relação ao público a que ele serve [...] A comunhão diária cria uma espécie de irmandade entre as duas partes".
Por essa época, Whitman entrou em contato com os escritos de Margaret Ful er, uma personalidade extraordinária: a primeira resenhadora de livros em tempo integral dos Estados Unidos, a primeira correspondente estrangeira, feminista lúcida, autora do apaixonado panfleto Woman in the nineteenth century [A mulher no século XIX]. Emerson achava que “toda a arte, o pensamento e a nobreza na Nova Inglaterra pareciam relacionados com ela, e ela com eles”. Hawthorne, porém, chamou-a de “um grande embuste”, e Oscar Wilde disse que Vênus dera “tudo” a ela, “exceto beleza”, enquanto Palas lhe dera “tudo, exceto sabedoria”. Embora acreditasse que os livros não podem substituir a experiência real, Fuller via neles “um meio para ver toda a humanidade, um centro em torno do qual todo conhecimento, toda experiência, toda ciência, todo o ideal, bem como tudo o que é prático em nossa natureza, pode reunir-se”. Whitman reagiu com entusiasmo às ideias dela. Escreveu ele:

Não considerávamos magnífico, oh alma, penetrar [nos temas de livros poderosos,
Absorvendo profundos e plenos os pensamentos, peças, especulações?
Mas agora, cá entre nós, pássaro engaiolado, sentir teu gorjeio jubiloso.
Enchendo o ar, a sala solitária, a longa manhã.
Não é igualmente magnífico, oh alma?

Para Whitman, texto, autor, leitor e mundo espelhavam-se uns aos outros no ato da leitura, um ato cujo significado ele expandiu até que servisse para definir cada atividade humana vital, bem como o universo no qual tudo acontecia. Nessa conjunção, o leitor reflete o escritor (ele e eu somos um), o mundo faz eco a um livro (livro de Deus, livro da Natureza), o livro é de carne e sangue (carne e sangue do escritor, que mediante uma transubstânciação literária se tornam meus), o mundo é um livro a ser decifrado (os poemas do escritor tornam-se minha leitura do mundo). Durante toda a sua vida, Whitman parece ter buscado uma compreensão e uma definição do ato de ler, que é a um só tempo ele mesmo e a metáfora de todas as suas partes.
As metáforas”, escreveu o crítico alemão Hans Blumenberg, em nossos dias; “não são mais consideradas primeiro e antes de mais nada como representação da esfera que guia nossas hesitantes concepções teóricas, como um hall de entrada para a formação de conceitos, como um dispositivo temporário dentro de linguagens especializadas que ainda não foram consolidadas, mas sim um meio autêntico de compreender contextos.” Dizer que um autor é um leitor, ou um leitor, um autor, considerar um livro como um ser humano ou um ser humano como um livro, descrever o mundo como texto ou um texto como o mundo são formas de nomear a arte do leitor.
Tais metáforas são muito antigas, com raízes nas primeiras sociedades judaico-cristãs. O crítico alemão E. R. Curtius, num capítulo sobre o simbolismo do livro em seu monumental Literatura europeia e Idade Média latina, sugeriu que as metáforas do livro começaram na Grécia clássica, mas há poucos exemplos delas, uma vez que a sociedade grega, e posteriormente a romana, não consideravam o livro como um objeto do dia-a-dia. As sociedades judaica, cristã e islâmica desenvolveram uma profunda relação simbólica com seus livros sagrados, que não eram símbolos da palavra de Deus, mas a própria Palavra Divina. Segundo Curtius, “a ideia de que o mundo e a natureza são livros deriva da retórica da Igreja católica, assumida pelos filósofos místicos dos primórdios da Idade Média e finalmente transformada em lugar-comum”.
Para o místico espanhol do século XVI frei Luís de Granada, se o mundo é um livro, então as coisas deste mundo são as letras do alfabeto com as quais esse livro está escrito. Na Introducción al símbolo de la fé, ele pergunta: “O que são todas as criaturas deste mundo, tão lindas e tão bem-feitas, senão letras separadas e iluminadas que declaram tão justamente a delicadeza e a sabedoria de seu autor? [...] E nós também [...] tendo sido colocados por vós diante deste maravilhoso livro de todo o universo, de tal forma que por meio de suas criaturas, como se fossem letras vivas, podemos ler a excelência do nosso Criador”.
O Dedo de Deus”, escreveu sir Thomas Browue em Religio Medici, remodelando a metáfora de frei Luís, “deixou uma Inscrição em todas as suas obras, não gráfica ou composta de Letras, mas feita de suas várias formas, constituições, partes e operações que, reunidas apropriadamente, culminam uma palavra que expressa suas naturezas”.
Séculos depois, o filósofo americano de origem espanhola George Santayana acrescentou: “Há livros em que as notas de rodapé, ou os comentários rabiscados por algum leitor nas margens, são mais interessantes do que o texto. O mundo é um desses livros”.
Nossa tarefa, como apontou Whitman, é ler o mundo, pois esse livro colossal é a única fonte de conhecimento para os mortais. (Os anjos, segundo santo Agostinho, não precisam ler o livro do mundo porque podem ver o próprio Autor e receber dele o mundo em toda a sua glória. Dirigindo-se a Deus, santo Agostinho pondera que os anjos "não têm necessidade de olhar para os céus ou de lê-los para ler Vossa palavra. Pois eles sempre veem Vossa face e ali, sem as sílabas do tempo, leem Vossa vontade eterna.
Eles a leem, escolhem-na, amam-na. Estão sempre lendo, e o que leem nunca chega ao fim. [...] O livro que leem não deverá ser fechado, o rolo não deverá ser enrolado novamente. Pois Vós sois o livro deles, e Vós sois eterno.) Os seres humanos, feitos à imagem de Deus, também são livros a serem lidos. Aqui, o ato de ler serve como metáfora para nos ajudar a entender nossa relação hesitante com nosso próprio corpo, o encontro, o toque e a decifração de signos em outra pessoa.
Lemos expressões no rosto, seguimos os gestos de um ser amado como num livro aberto. “Tua face, meu cavaleiro”, diz lady Macbeth ao esposo, “é como um livro onde os homens podem ler estranhas coisas”, e o poeta do século XVII Henry King escreveu sobre sua jovem esposa morta:

Querida Perda! Desde tua morte prematura
Minha sina tem sido meditar
Sobre ti, sobre ti: tu és o livro,
A biblioteca para onde olho
Embora quase cego.

E Benjamin Franklin, um grande amante dos livros, compôs para si mesmo um epitáfio (infelizmente não utilizado em seu túmulo) no qual a imagem do leitor como livro encontra sua representação plena:

O Corpo de
B. Franklin, Impressor,
Tal como a capa de um velho Livro,
Seu conteúdo arrancado,
E despido de suas Letras e Douradas,
Jaz aqui, Alimento para Vermes.
Mas a Obra não se perderá;
Pois irá como ele acreditava.
Aparecer outra vez
Em nova e mais elegante Edição
Corrigida e melhorada
Pelo Autor.

Dizer que lemos o mundo, um livro, o corpo não basta. A metáfora da leitura solicita por sua vez outra metáfora, exige ser explicada em imagens que estão fora da biblioteca do leitor e, contudo, dentro do corpo dele, de tal forma que a função de ler é associada a outras funções corporais essenciais. Ler como vimos serve como um veículo metafórico, mas para ser compreendido precisa ele mesmo ser reconhecido por meio de metáforas. Tal como escritores falam em cozinhar uma história, misturar os ingredientes do enredo, ter ideias cruas para uma trama, apimentar uma cena, acrescentar pitadas de ironia, pôr molho, retratar uma fatia de vida, nós, os leitores, falamos em saborear um livro, encontrar alimento nele, devorá-lo de uma sentada, ruminar um texto, banquetearmo-nos com poesia, mastigar as palavras do poeta, viver numa dieta de romances policiais. Em um ensaio sobre a arte de estudar, o erudito inglês do século XVI Francis Bacon catalogou o processo: “Alguns livros são para se experimentar, outros para serem engolidos, e uns poucos para se mastigar e digerir”.
Por uma sorte extraordinária sabemos em que dia essa curiosa metáfora foi registrada pela primeira vez. Em 31 de julho de 593 a.C., às margens do Chebar, na terra dos caldeus, Ezequiel, o sacerdote, teve uma visão de fogo na qual viu “a imagem da glória do Senhor" ordenando-lhe que falasse com os filhos rebeldes de Israel. Abre a boca e come o que te vou dar, diz a visão.
Olhei e vi avançando para mim uma mão que segurava um manuscrito enrolado. E foi desdobrado diante de mim: estava coberto com escrita de um e outro lado: eram cânticos de tristeza, de queixumes e de gemidos.
São João, registrando sua visão apocalíptica em Patmos, recebeu a mesma revelação de Ezequiel. Enquanto olhava aterrorizado, um anjo desceu dos céus com um livro aberto e uma voz de trovão disse-lhe que não escrevesse o que aprendera, mas pegasse o livro da mão do anjo.
Fui eu, pois, ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o pequeno livro. E ele me disse: “Toma-o e devora-o! Ele te será amargo nas entranhas, mas, na boca, doce como o mel”. Tomei então o pequeno livro da mão do anjo e comecei a comê-lo.
De fato, em minha boca tinha a doçura do mel, mas depois de o ter comido, amargou-me nas entranhas. Então me foi dito: “Urge que ainda profetizes de novo a numerosas nações, povos, línguas e reis”.
Com o tempo, à medida que a leitura se desenvolveu e se expandiu, a metáfora gastronômica tornou-se retórica comum. Na época de Shakespeare, contava-se com ela na conversação literária, e a própria rainha Isabel usou-a para descrever suas leituras devotas: “Eu caminho muitas vezes pelos campos agradáveis das Escrituras Sagradas, onde colho as verdes e formosas ervas das sentenças, como-as lendo, mastigo-as meditando e deito-as no assento da memória,li para que possa perceber menos a amargura desta vida miserável”. Em 1695, a metáfora já se arraigara tanto na língua que William Congreve pôde parodiá-la na cena de abertura de Love for love [Amor por amor], fazendo o pedante Valentine dizer a seu criado: “Lê, lê, imbecil, e refina teu apetite; aprende a viver com instrução; banqueteia tua mente e mortifica tua carne; lê, e ingere teu alimento pelos olhos; fecha tua boca e mastiga o bolo alimentar do entendimento”.
Ficareis extremamente gordo com esta dieta de papel”, é o comentário do criado.
Menos de um século depois, o dr. Johnson lia um livro com as mesmas maneiras que exibia à mesa. Lia, disse Boswell, “sofregamente, como se o devorasse, o que era aparentemente seu método de estudo”. Segundo Boswell, durante o jantar o dr. Johnson mantinha no colo um livro embrulhado na toalha de mesa, “ávido como era por ter um entretenimento à mão quando terminasse o outro, parecendo (se me permitem usar tão grosseiro símile) um cão que segura um osso de reserva entre as patas, enquanto come outra coisa que lhe foi jogada”.
Por mais que os leitores se apropriem de um livro, no final, livro e leitor tornam-se uma só coisa. O mundo que é um livro, é devorado por um leitor, que é uma letra no texto do mundo; assim, cria-se uma metáfora circular para a infinitude da leitura. Somos o que lemos. O processo pelo qual o círculo se completa não é, argumentava Whitman, apenas intelectual; lemos intelectualmente num nível superficial, apreendendo certos significados e conscientes de certos fatos, mas, ao mesmo tempo, invisivelmente, inconscientemente, texto e leitor se entrelaçam, criando novos níveis de significado e, assim, toda vez que, ingerindo-o, fazemos o texto entregar algo, simultaneamente nasce sob ele outra coisa que ainda não apreendemos. Esse é o motivo por que como acreditava Whitman, reescrevendo e reeditando seus poemas sem parar – nenhuma leitura pode ser definitiva.
Em 1867 ele escreveu, numa espécie de explicação:

Não fechem suas portas para mim, orgulhosas bibliotecas,
Pois aquilo que faltava em todas as suas estantes abarrotadas, mas carentes,
Eu trago da guerra emergindo, um livro que fiz,
As palavras do meu livro sem motivo, impulsionando todas as coisas,
Um livro separado, não ligado ao resto, nem sentida pelo intelecto,
Mas suas latências não ditas pulsarão em cada página.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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