88.
Onde está Deus, mesmo que não
exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não
cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente
materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço
enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo
próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder
ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são,
ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não
sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha
outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos
que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de
perigos grandes — penetravam em jovens cabelos louros como o
trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para
sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento
da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço
quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece
querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no
inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem
som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre
estrelas...
Quando ponho de parte os meus
artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho —
com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras,
as imagens, as frases — fico tão pequeno e inofensivo, tão só
num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não
brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações,
tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos
degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. Do meu pai sei o
nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia
de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e
choro, e faço-me uma ideia dele a que possa amar... Mas depois penso
que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não
seja nunca esse o pai da minha alma...
Quando acabará isto tudo, estas ruas
onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu
frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia
Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e
afeição... As vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o
posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem
no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido
nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança
abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adotivo, nem nenhuma
Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado
no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite
para a casa que não conheci... Torna a dar-me, ó Silêncio imenso,
a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia…
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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