Não é fácil chegar às obras de Guy
Davenport, professor de inglês na Universidade de Kentucky. Entre
elas há três coletâneas, com algumas partes repetidas, de
traduções de filosofia e poesia grega arcaica: Carmina
Archilochi: The Fragments of Archilochos (University of
California Press, 1964), Herakleitos and Diogenes (Grey Fox
Press, San Francisco, 1979), Archilochos, Sappho and Alkman
(University of California Press, 1980). Há três coletâneas de
contos: Tatlin! Six Stories (Scribners, 1974), Da Vinci’s
Bicycle: Ten Stories (Johns Hopkins University Press, 1979) e o
recente Eclogues: Eight Stories (North Point Press, San
Francisco, 1981). Lançados ao mesmo tempo, e também pela North
Point Press, há quarenta ensaios e esboços literários, com o
título de The Geography of the Imagination. A revista
literária de Cambridge (Inglaterra) Granta (número 4, 1981)
apresenta “Fifty-seven Views of Fujiyana”, de Guy Davenport.
Descobri que é quase impossível comprar outros três livros de
Davenport: The Intelligence of Louis Agassiz, Flowers and Leaves
e Cydonia Florentia.
O professor Davenport ilustra seus
textos com habilidosas colagens. Mantém vasilhas de água com açúcar
nos aposentos de casa, para que formigas, abelhas e vespas se sintam
bem-vindas. Escreve contos com títulos como “Mesoroposthonippidon”.
Procura em Ezra Pound qualquer eventual fragmento luminoso de
sanidade mental que tenha restado em nossa política, em nossa ideia
de como a arte pode dar ordem ao ser cívico do homem. Também
sustenta que a Revolução Bolchevique foi um delírio necessário.
As publicações do professor Davenport são, na verdade, privadas.
Retraído e arredio, elas o protegem como máscaras e sebes
espinhosas. Ele conta com um pequeno círculo de leitores fervorosos,
entre os quais se destaca Hugh Kenner. Multiplicam-se as anedotas
sobre a extrema meticulosidade de suas maneiras. “Resenhar”
Davenport parece uma invasão grosseira. Mas, em vista da esqualidez
de nossas fantasias correntes, essa invasão talvez se justifique. O
fato é que Guy Davenport é uma das raríssimas vozes realmente
originais, realmente autônomas hoje audíveis nas letras americanas.
Digamos Guy Davenport e William Gass. Não há muitos outros que
possamos pôr ao lado de Borges, Raymond Queneau e Calvino. Hoje em
dia é tão difícil encontrar sonhos adultos quanto os livros mais
arcanos de Davenport.
Reconhece-se instantaneamente uma
frase ou um parágrafo curto seu (o fragmento, o aforismo, como nos
primeiros poetas gregos e nos pensadores pré-socráticos, é o cerne
de Davenport). “De manhã, sorvendo o café, Mr. Hulme não
conseguia encontrar proporção nas colunas, nos edifícios, nas
janelas, no campanário, nas cúpulas, na tipografia do jornal, que
não fosse perfeita. As crianças e os velhos o entristeciam. Todas
as ideias brotam do corpo como música” (Eclogues). “Uma
delegação veio em trêmulo esplendor, cônsules dos mortos disseram
ser. Um ergueu a mão. As faces nobres e os belos pés me pareciam
divinos, seus olhos um bulício de luz” (Da Vinci’s Bicycle).
“Haviam ocorrido chuvas de estrelas na América do Norte durante
toda a minha infância e juventude. Por noites inteiras fogos de
artifício de meteoritos tinham sibilado e suspirado descendo o céu
antes que eu escrevesse meu poema sobre a nova que fulgurou diante
dos olhos de Tycho Brahe, e escrevi meu primeiro conto sobre o
fantasma de um cavalo saltando de uma cascata de chamas logo depois
que as Leônidas tinham sido mais torrenciais do que os homens
lembravam por séculos” (Tatlin!). “Sarabandas de Corelli,
boa conversa ao pé do fogo, o vento num tropel depois do pôr do sol
fazendo as ondas e as árvores de realejo” (Eclogues). Não
haveria nenhum problema em continuar esta resenha até o fim montando
um mosaico de citações. Mas vou transcrever na íntegra um dos
minicapítulos, um parágrafo inteiro emendado, que compõem
“Fifty-seven Views” [Cinquenta e sete vistas]:
Tudo aquilo de novo, ele disse.
Sonho em ver tudo aquilo de novo, as aldeias dos Pirineus, Pau, as
estradas. Oh Deus, sentir de novo o cheiro do café francês
misturado com o cheiro da terra, do conhaque, do feno. Alguma coisa
terá mudado, não tudo. O camponês francês perdura para sempre.
Perguntei se de fato havia alguma chance, alguma probabilidade, de
que conseguisse ir. Seu sorriso foi de ironia resignada. Quem sabe,
disse, se santo Antônio não tomou o bonde até Alexandria? Faz
séculos e séculos que não aparece um pai do deserto, e anda
havendo uma confusão razoável sobre as regras do jogo. Ele apontou
um campo à nossa esquerda, além da mata de carvalhos brancos e
liquidâmbares por onde estávamos andando, um campo de restolho de
trigo. Foi onde pedi a Joan Baez que tirasse os sapatos e as meias
para que eu pudesse ver de novo os pés de uma mulher. De volta à
ermida comemos queijo de cabra e amendoim salgado e bebericamos
uísque em copos de geleia. Sobre a mesa estavam cartas de Nicanor
Parra e Marguerite Yourcenar. Ele ergueu a garrafa de uísque à luz
clara e fria do sol de Kentucky brilhando pelas janelas. E então
saímos para o banheiro, onde ele chutou a porta com sua bota de
tachas, para espantar a cobra preta que geralmente ficava ali dentro.
Saia! Saia, sua desgraçada!
Você pode voltar depois.
Guy Davenport é fiel ao preceito de
Ezra Pound de que a prosa deve ser pelo menos tão bem elaborada
quanto a poesia. Ele é um mestre do ritmo sutil. Frases
aparentemente curtas e orações fragmentárias se abrem, através de
vírgulas inesperadas, em sequências opulentas como origamis de
flores lançados à água límpida. O andamento de Davenport possui o
lirismo divertido e enxuto da música de Erik Satie. Refiro-me à
gramática. (Note-se o uso excêntrico e habilidoso do presente
histórico, às vezes fazendo lembrar Gertrude Stein.) Já o
vocabulário, principalmente em textos recentes, é outro assunto. É
barroco, precioso, extremamente inventivo. Tiro meus exemplos de “On
Some Lines of Virgil” [Sobre algumas linhas de Virgílio], uma
extensa montagem nas Eclogues e, diga-se de passagem, uma das
apresentações mais cômicas, mais ternamente maliciosas do
despertar sexual em toda a literatura moderna. O leitor tem de estar
preparado para encontrar coisas como “gressório”, “pincho”,
“gárrulo”, “nucal”, “estripulento”. Descobrirá que
Davenport é exímio em verbos opacos, mas imediatamente sugestivos:
“trupivancar”, “chisparar”, “arreichar cilhas”, que soam
como coisas saídas diretamente do dicionário onírico do Bottom de
Shakespeare.
Esse dialeto coruscante faz parte,
claro, do êxtase do professor Davenport com a erudição livresca.
Ele ressuma de citações explícitas e ocultas, de alusões,
referências bibliográficas, trocadilhos eruditos. Mesmo nos
exemplos simples e basicamente líricos que citei, a demanda de
erudição pressiona o leitor. Mr. Hulme é T. E. Hulme, o guru e
poeta-filósofo imagista que influenciou Pound em Londres e que
costumava notar a coincidência de seu sobrenome com o do grande
David Hume. A observação de Tycho Brahe sobre a explosão de uma
nova é um marco na história da astronomia e da cosmologia que nos
remete a um famoso precedente chinês. Arcangelo Corelli (1653-1713)
é um dos mestres da música barroca e pré-moderna cuja elegância e
límpida textura foram redescobertas por Pound et al. em nosso
século. Uma sarabanda é uma dança solene, que contrasta com o
“tropel” do vento. Precisamos saber algo de santo Antônio na
patrística antiga e de Flaubert, precisamos ser capazes de
identificar não só Joan Baez, mas também Nicanor Parra e madame
Yourcenar, para saborear a plena significação da passagem das
“Cinquenta e sete vistas”. E são exigências muito rotineiras
comparadas às que Davenport faz ao leitor naquela que talvez seja
sua mais bela fábula, The Death of Picasso [A morte de
Picasso], ou numa vinheta como “Lo Splendore della Luce a Bologna”,
que é em si uma citação com grandes ressonâncias subjacentes.
Tal paixão livresca, tal investimento
nos excêntricos prazeres esotéricos da erudição, situa Davenport
numa tradição muito definida. Coleridge, supremo integrante dessa
linhagem, falava nos “cormorões de biblioteca”, de homens cujos
nervos se põem a vibrar a uma nota de rodapé. A anatomia da
melancolia, de Burton, muitas vezes prenuncia o mosaico de
alusões de Davenport. Outros cormorões são Nabokov — prova disso
é a tremenda graça de suas notas e índice remissivo em Eugênio
Oneguin, de Púchkin — e Borges, assíduo frequentador da
Biblioteca Universal. E aqui de novo Pound é essencial para a
perspectiva de Davenport. Suas parábolas e colagens em prosa formam
de muitas maneiras um complemento, uma guirlanda tecida em torno do
omnium-gatherum dos Cantos, de Pound. De fato, Pound e
Davenport parecem representar uma onivoracidade cultural, uma
tentativa de fazer um inventário completo do saque estético-poético
do mundo, que é radicalmente americana.
Guy Davenport é igualmente americano
em seu engajamento, que parece uma antítese a seu eruditismo, com as
informalidades do agreste, com a inocência do espaço inculto. A
fogueira ao ar livre durante o anoitecer, a árdua caminhada com o
corpo encharcado pelas matas do Maine e por uma trilha de Vermont, o
mergulho na lagoa da pedreira a céu aberto no lento calor do verão
de Indiana ou do Kentucky — são icônicos para Davenport.
Repercute, rivaliza com Thoreau e Mark Twain na consciente
sensualidade de suas imersões na Arcádia americana. Canta a friável
ferrugem nas colinas da Virgínia, os lagos escuros das Poconos.
Abrigue-o durante a noite úmida num velho moinho subindo pelas White
Mountains, e Davenport abraça sua sorte: “Esquilos de ceroulinhas
brancas, e aranhas, e lagartas, sem dúvida, eu disse, e ficaremos
amigos de todos eles” (“Fifty-seven Views”).
Davenport é genial ao unir uma
extrema erudição bizantina e um à-vontade profundamente americano
com a natureza. Esse jogo confere a toda a sua obra o frescor sem
igual, sua devoção irreverente. Vejam-se os choques complexos, mas
espontâneos, do reconhecimento lítero-sensual naquela invocação
de Joan Baez ao se contrapor ao classicismo austero de Marguerite
Yourcenar. Veja-se o final da passagem. Nada poderia ser mais
robustamente nativo do que espantar a cobra. Mas sabemos, e Davenport
precisa que saibamos, das cobras guardiãs dos antigos santuários e
de um momento muito parecido no poema talvez mais encantador, mais
generoso de D. H. Lawrence. Os termos fundamentais em Davenport são
a continuidade e o uníssono, o entrelaçamento de tempo e espaço,
de experiência e inocência, possível graças à montagem e à
colagem. O bisão pintado nas grutas pré-históricas de Lascaux rima
inconscientemente com as águas-fortes de touros de Goya e com a
Guernica de Picasso. Todos os tempos, todas as coisas e formas se
entretecem em arabescos de uma unidade múltipla. Ovídio fala de
homens que viram animais, Darwin de animais que viram homens. Ciência
e poesia devem brotar da mesma música mental, da mesma sugestão de
harmonia, ou nada são. A arte é apenas uma maneira de enxergar com
precisão, com a precisão com que enxergou Agassiz:
Ele faz parte do mesmo espírito de
Picasso e Tchelitchev, que refletem sobre a transformação como
infinita variedade dentro de uma forma, variações temáticas feitas
no próprio início da criação, simultâneas. As ideias de natureza
eram para Agassiz o que é uma imagem para Picasso. Gênero e espécie
são talvez formas ideais de onde a natureza extrai e amadurece todas
as possibilidades. O tempo não precisa entrar na conversa. Cobra,
pássaro, pterodáctilo, todos vêm da mesma oficina, da mesma
materia disponível para o artífice; não precisam ser vistos como
derivados um do outro. Um artista fascinado por um tema estrutural
fez todos eles (The Geography).
Podiam ser palavras de Plotino, o
grande visionário neoplatônico. Mais próximo, é o credo de
Emerson. A obra de Davenport é de unidade metamórfica. Como se a
madeira ainda estivesse viva no papel de seus livros. (“Impresso
por Maple-Vail em papel livre de ácido”, diz o colofão da North
Point Press.)
Segue-se que não existe realmente
nenhuma diferença de tática ou de atitude entre as “ficções”
e os ensaios literários de Davenport, agora reunidos pela primeira
vez. A mesma elegância angulosa, a mesma erudição e senso de humor
estão presentes em ambos. O professor Davenport engrinalda de
louvores e definições penetrantes Charles Olson, Louis Zukofski,
Marianne Moore e Eudora Welty (sendo este último ensaio uma das mais
finas análises da arte contida, mas compassiva, de miss Welty). Os
diversos ensaios sobre Pound são uma autêntica celebração. A
concisa saudação a Charles Ives leva a uma queixa fundamental —
um estudo pioneiro do compositor
recaiu sob o espírito do mal que
manteve o próprio Ives como um tímido fantasma na arte americana.
Quanto tempo levamos para enxergar Melville! Ainda não temos ideia
da grandeza de Poe. Nosso Whitman e nosso Thoreau não são Whitman e
Thoreau. Temos uma avaliação errada, vaga e inadequada de Stephen
Foster. E do grande pintor formalista Grant Wood, que na Europa teria
fundado uma escola (The
Geography).
O professor Davenport é esclarecedor
quanto aos jogos de linguagem de Wittgenstein e Gertrude Stein, e a
elaboração deles em William Carlos Williams: “Quando ele cita, no
começo de ‘Paterson’, um aviso dizendo que não é autorizada a
presença de cães sem coleira no parque, quer nos pegar no momento
steiniano-wittgensteiniano de ver que, sim, o aviso tem uma espécie
de finalidade, mas, como os cães não leem, o aviso existe num sono
da razão”. A referência disfarçada a Goya é quase uma marca
registrada de Davenport. Se essa modalidade de crítica tem algum
defeito, é apenas o da generosidade.
Mas essa prodigalidade e leveza no
toque podem trair Davenport. Não adiantará dizer que Ezra Pound
ficou louco pelo “simples fato de que os eua não emitem moeda, mas
emprestam moeda emitida por um banco privado”. E acrescenta: “Os
impostos medonhos e obscenos que pagamos a nosso governo são na
verdade os juros deste empréstimo perpétuo, inextirpável e
impagável” (“The Geography”). A formulação de Davenport nos
leva a supor que ele simpatiza ou concorda (ou ambos) com a economia
desvairada de Pound. É essa “insanidade econômica sisífica”,
afirma Davenport, que explica as posições de Pound sobre as
conspirações tributárias internacionais dos judeus. “Tal era a
geometria de sua visão.” Mas foi uma visão que levou a algumas
das diatribes antissemitas e antiamericanas mais nauseantes na
literatura da histeria e da propaganda. Sem dúvida, o problema se
complica com as ações pessoais e o estado mental de Pound. Mas a
elegância vivaz de Davenport neutraliza totalmente o que, para ele e
para outras “imaginações clássicas”, deveria constituir uma
questão central. Ezra Pound e o filósofo alemão Martin Heidegger
são muito provavelmente os dois grandes mestres do humanismo em
nossa época. Isso significa que falaram com mais autoridade, com
mais energia lírica do que qualquer outro poeta ou pensador do
século xx contra a devastação ecológica, contra a vulgarização
do estilo pessoal, contra a ganância cega que caracteriza nossa
sociedade de consumo de massas. É nos Cantos de Pound e nos
escritos metafísicos e antropológicos de Heidegger que encontramos
a grande reafirmação dos ideais clássicos e confucianos da
decência cívica, da amistosidade humana no que nos restou do nosso
conspurcado planeta. E, no entanto, há na vida e nos pronunciamentos
de ambos um envolvimento significativo com a desumanidade fascista e
totalitária. Quais são as conexões por trás disso? O que torna a
alta erudição tão vulnerável ao canto das sereias da barbárie?
Davenport prefere se abster.
Isso também se aplica a um segundo
campo fundamental. O mundo das ficciones e reflexões de Davenport é
o do homoerotismo. The Death of Picasso está entre as poucas
obras-primas da sensibilidade homossexual após Proust. Mas, quando
se trata de perceber e enunciar as pressões desse eros nos próprios
centros nevrálgicos da arte, do pensamento e da consciência social
modernos, Davenport se evade. É essa evasão que reduz sua vinheta
de Wittgenstein, nesta coletânea de ensaios, e muitas das alusões e
presenças de Wittgenstein em toda a sua obra, a trivialidades.
Não são, penso eu, lapsos
aleatórios. A estética de Pound, o repertório de Pound sobre o que
importa na saúde da arte e da condição social dos homens, está no
próprio cerne do empreendimento de Davenport. Seu humor hermético,
a arguta artificiosidade de seus questionamentos do discurso e dos
gestos remetem a Wittgenstein, tão diretamente quanto a poética
lírica da Grécia arcaica remete em grande parte aos enigmas e
metáforas dos pré-socráticos. A falta de disposição de Guy
Davenport em enfrentar a substância trágica seja de Pound seja de
Wittgenstein, com as implicações mais amplas de suas posições,
sugere uma reticência fulcral. Davenport parece proteger a si e a
seus leitores do pleno desdobramento, talvez anárquico, de suas
próprias forças. Um certo preciosismo, um escrúpulo cortês se
interpõe entre o professor Davenport e seu daimon.
Mas, de qualquer modo, todos os que se
interessam por graça e ordem na vida exposta das letras americanas
estão em grande dívida com Davenport. Ele não é, como diz a
pertinaz expressão britânica, “a xícara de chá de todo mundo”.
Mas para um número cada vez maior, tenho certeza, ele será néctar.
30 de novembro de 1981
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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