[…]
O trabalhador é substituído
justamente por causa das habilidades desumanas dos autômatos, e a
capacidade que ele tem de defender sua posição ao se unir a outros
trabalhadores – por meio de associações de ofício, por exemplo –
diminui à medida que as próprias máquinas reúnem uma força cada
vez mais potente. Este é um cenário, como acontece tão comumente
no Capital, de história de terror:
No lugar da máquina individual
surge um monstro mecânico, cujo corpo enche prédios fabris inteiros
e cuja força demoníaca, de início escondida pelos movimentos
lentos e comedidos de seus membros gigantescos, irrompe no turbilhão
febril seus inúmeros órgãos de trabalho.
Uma vez que prescinde da força
muscular humana, a maquinaria se torna também um meio de empregar
crianças – que têm corpos mais franzinos, porém membros mais
flexíveis –, e assim revoluciona o contrato entre trabalhador e
capitalista.
Com base no intercâmbio de
mercadorias, o pressuposto inicial era de que capitalista e
trabalhador se confrontariam como pessoas livres: um, possuidor de
dinheiro e de meios de produção; outro, detentor de força de
trabalho. Mas agora o capital compra crianças e jovens.
Ao transcrever um anúncio que lhe
fora apresentado por um inspetor de fábrica inglês – “Precisa-se
de 12 a 20 garotos bastante crescidos que pareçam ter pelo menos 13
anos. Salário de quatro libras esterlinas por semana” –, Marx
percebe que a busca por trabalhadores infantis se assemelha de forma
geral à procura de escravos negros que em outros tempos era
anunciada nos jornais norte-americanos. A expressão “que pareçam
ter pelo menos 13 anos” deve-se ao fato de que, pela Lei Fabril,
crianças até os 12 anos podiam trabalhar apenas seis horas por dia.
Um médico oficialmente habilitado era responsável por certificar a
idade. Marx observa que a aparente queda no número de crianças com
menos de 13 anos trabalhando nas indústrias durante os anos de 1850
e 1860 “se devia, segundo o depoimento dos inspetores de fábrica,
em grande parte, aos certifying surgeons, que falseavam a
idade das crianças de acordo com a ânsia de exploração dos
capitalistas e com a necessidade de traficância dos pais”.
A utilização de tecnologia pelo
capitalista produz uma espécie de moto-perpétuo. Uma máquina que
trabalha 16 horas por dia ao longo de sete anos e meio produz tanto
quanto uma máquina igual que funcione apenas oito horas por dia
durante 15 anos. Embora não transfira maior quantidade de mais-valia
ao produto final, permite que o capitalista absorva os lucros duas
vezes mais depressa. Por conseguinte, há grande incentivo ao uso da
maquinaria pelo máximo possível de horas diárias, e isso graças
ao prolongamento dos turnos dos auxiliares de máquinas – e eles
não estão em posição de oferecer resistência, uma vez que a
automação também intensificou a competição por empregos ao criar
o que Marx chama de “exército industrial de reserva”, formado
pelos desempregados. Essa população trabalhadora excedente é um
subproduto necessário do capitalismo industrial e também acaba por
se tornar, de modo inverso, uma alavanca da acumulação
capitalista, ao fornecer “o material humano sempre pronto a ser
explorado”. Quando o mercado se expande rapidamente ou abre novos
empreendimentos, como as estradas de ferro, “grandes massas humanas
precisam estar disponíveis para serem subitamente lançadas nos
pontos decisivos sem quebrar a escala de produção em outras
esferas. A superpopulação é responsável por esse provimento”. O
padrão cíclico da indústria moderna – um período de mediana
vitalidade seguido de produção a todo o vapor, crise e estagnação
– depende da permanente constituição, absorção e reconstituição
de um exército industrial de reserva. As várias fases do ciclo não
só abastecem a superpopulação, mas também se transformam nos
agentes mais enérgicos de sua reprodução.
O excedente de força de trabalho por
sua vez regula o movimento geral dos salários. Como escreve Marx:
O exército industrial de reserva
pressiona o exército ativo de trabalhadores durante os períodos de
estagnação e prosperidade média e contém suas pretensões nos
tempos de superprodução e atividade intensa. A superpopulação
relativa é, portanto, o ambiente no qual a lei da oferta e da
procura de mão-de-obra se movimenta.
Marx não se ilude a respeito da
suposta simetria sagrada da lei da oferta e da procura. A demanda por
trabalho não é idêntica ao crescimento do capital, pois oferta e
demanda “não constituem duas forças independentes que interagem
uma com a outra. Os dados estão viciados”.
Nesse ponto Marx mira suas armas
contra “uma das façanhas da apologética econômica” – a noção
disseminada por vários economistas vitorianos de que a introdução
de uma nova maquinaria, ou a ampliação da antiga, “libera” os
trabalhadores. Eles são “liberados”, explica Marx, somente no
sentido de que passam a estar completamente desocupados, “e todo
novo capital com desejo de funcionar pode dispor deles”. Quando
encontram emprego, o medo de voltar ao exército de reserva os deixa
mais expostos à exploração. Então, conclui Marx, quanto maior a
produtividade do trabalho, maior a “grandeza proporcional” do
exército industrial de reserva. A consequência do aumento da
riqueza social é, portanto, um aumento do pauperismo oficial.
“Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista”,
sentencia com fanfarrice para então minar a ideia logo na frase
seguinte: “Como todas as outras leis, é modificada em sua
realização por variadas circunstâncias, cuja análise não cabe
aqui fazer.”
Tendo afastado quaisquer objeções,
Marx segue em direção a uma das mais notórias assertivas do
Capital: a de que o capitalismo leva à progressiva
“pauperização” ou empobrecimento do proletariado. Inúmeros
estudiosos consideraram-na uma afirmação de que a paulatina
prosperidade do capitalismo seria alcançada por meio de uma absoluta
redução do nível de qualidade de vida e do salário dos
trabalhadores, julgando-a assim presa fácil para zombarias. Vejam as
atuais classes trabalhadoras, com seus carros zero e fornos de
microondas: não parecem muito miseráveis, não é mesmo? O
economista norte-americano Paul Samuelson afirmou que toda a obra de
Marx pode ser desconsiderada, uma vez que a pauperização dos
trabalhadores “simplesmente não ocorreu”. Como os livros de
Samuelson passaram a ser manuais de economia apresentados a gerações
de universitários tanto na Inglaterra quanto na América, essa ideia
se tornou senso comum.
Entretanto, ela é um mito baseado na
compreensão equivocada do Capítulo 23 do primeiro volume do Capital
– “A lei geral da acumulação capitalista”. “O pauperismo
constitui”, escreve Marx,
… uma condição de existência
da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. Ele
pertence aos custos incidentais da produção capitalista, que, no
entanto, o capital sabe transferir, em grande parte, de seus ombros
para os da classe trabalhadora e da pequena burguesia.
Nessa passagem, ele claramente não se
refere a todo o proletariado, mas ao “mais profundo sedimento” da
sociedade, tal como as vítimas do desemprego crônico, os doentes,
os maltrapilhos – um extrato que existe ainda hoje e agora é
habitualmente chamado de subclasse. (“Os pobres estarão sempre
convosco”, afirmou outro pária judeu, mas nenhum economista até
agora sugeriu que os ensinamentos de Jesus devam ser completamente
desconsiderados pelos seus vaticínios de eterna pauperização. Até
Leszek Kolakowski, um dos mais influentes críticos de Marx no século
XX, reconheceu que “a pauperização material não era uma premissa
necessária, quer da análise marxiana da desumanização causada
pelo trabalho assalariado, quer de suas predições sobre a
inescapável falência do capitalismo”.)
Marx disse que, sob o capitalismo,
haveria um relativo – não absoluto – declínio dos salários.
Isso é comprovadamente verdadeiro: nenhuma empresa que desfrute um
aumento de 20% da mais-valia abrirá mão de todo o butim em favor
dos trabalhadores e concederá um aumento salarial de 20%. “À
medida que se acumula capital, a situação do trabalhador, seja sua
remuneração alta ou baixa, deve piorar”, escreve Marx. A frase
crucial aqui é “seja sua remuneração alta ou baixa”: o
trabalho torna-se cada vez mais distante do capital, não importa
quantos carros ou fornos de microondas os trabalhadores possam
comprar.
Além disso, Marx deixa bastante
claro, no mesmo parágrafo, que sua definição de pobreza (como a de
Cristo) não é só uma questão monetária: ela trata da aniquilação
do espírito humano. Com o trabalhador atado ao capital “mais
firmemente que as correntes de Hefaísto agrilhoaram Prometeu ao
rochedo”, a miséria de alguns é condição necessária para a
riqueza de outros:
No sistema capitalista, todos os
métodos para elevar a produtividade social do trabalho se aplicam à
custa do trabalhador…. Mutilam-no, transformam-no num fragmento de
homem, degradam-no e convertem-no em um apêndice da máquina; o
trabalho vira um tormento; alienam-lhe as potências intelectuais do
processo de trabalho à mesma medida que a ciência é incorporada a
este último como potência autônoma; desfiguram as condições sob
as quais ele trabalha; submetem-no, durante o processo de trabalho,
ao mais mesquinho e odioso despotismo; transformam seu tempo de vida
em tempo de trabalho; jogam sua mulher e seu filho sob a roda de
Juggernaut do capital…. A acumulação de riqueza num pólo é,
portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, o tormento do
trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e degradação
moral no pólo oposto, isto é, do lado da classe que produz seu
próprio produto como capital.
A última sentença, analisada
isoladamente, poderia ser apontada como outra predição sobre o
absoluto empobrecimento financeiro dos trabalhadores, mas apenas
alguém insensível – ou um economista – se apegaria a essa
interpretação depois de ler a estrondosa invectiva que a precede.
Nos anos 1970, muito se falou de uma
iminente “era do ócio”, em que, graças à automação,
dificilmente trabalharíamos. Houve uma enxurrada de livros que
refletiam com seriedade a respeito de como preencheríamos nosso novo
tempo livre sem nos tornarmos desesperançadamente letárgicos. Hoje,
qualquer pessoa que depare com um desses tratados esquecido em um
sebo é tomada por um sorriso de incredulidade. O trabalhador inglês
médio investe atualmente mais de 80 mil horas em sua vida
profissional, contra 69 mil em 1981. Longe de nos afastarmos do
absoluto valor positivo do trabalho, parecemos cada vez mais
prisioneiros dele. A nova moda recai sobre livros que perguntam
ansiosamente como podemos atingir um “equilíbrio trabalho–vida”
em uma época na qual muitas pessoas não têm tempo para nada além
de trabalhar e dormir.
Isso não surpreenderia Karl Marx. No
Capítulo 10 do Capital, ele escarnece dos tratados econômicos
vitorianos em que, “numa página, se lê que o trabalhador deve
gratidão ao capital pelo desenvolvimento das forças produtivas
porque o tempo de trabalho necessário é reduzido, e na página
seguinte está escrito que ele deve manifestar essa gratidão
passando a trabalhar, em vez de dez, 15 horas”. O que a produção
capitalista busca, afirma ele, não é a redução da jornada de
trabalho, mas a diminuição do tempo de trabalho necessário para
produzir uma mercadoria.
O fato de que o trabalhador, quando
a produtividade de seu trabalho é aumentada, produz, em uma hora,
digamos, dez vezes mais mercadorias que antes, precisando, portanto,
de um décimo do tempo de trabalho para fazer cada artigo, não
impede de modo algum de fazê-lo trabalhar, assim como antes, 12
horas e produzir neste período 1.200 artigos, em vez de, como antes,
120. Sua jornada de trabalho pode até ser prolongada, de modo que
passe a produzir, em 14 horas, 1.400 peças.
O objetivo desse processo é “encurtar
a parte da jornada de trabalho durante a qual o operário deve
trabalhar para si mesmo, justamente para prolongar a outra parte da
jornada em que trabalha gratuitamente para o capitalista”.
Mas se todas essas mercadorias
excedentes fluem para o mercado e os trabalhadores (no papel de
consumidores) não são mais ricos que antes, o capitalista acabará
com uma imensa pilha de produtos encalhados. O que fazer? No
Manifesto Comunista de 1848 Marx já chamara atenção para
… as crises comerciais que,
repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a sociedade
burguesa. Nessas crises, grande parte dos produtos existentes, e
também das forças produtivas desenvolvidas, é destruída. Irrompe
uma epidemia que, em épocas precedentes, poderia parecer um absurdo
– a epidemia da superprodução.
As condições da sociedade burguesa,
argumenta ele, são simplesmente muito estreitas para conter sua
própria riqueza. O capitalismo tem duas formas de superar o
problema: “De um lado, pela destruição de grande quantidade das
forças produtivas; de outro, pela conquista de novos mercados e pela
intensa exploração dos antigos. Portanto, prepara crises mais
extensas e destrutivas, e diminui os meios de evitá-las.”
Esse é o ciclo de “expansão e
crise” do qual os governos procuram se livrar desde então. De
acordo com Marx, não há escapatória possível enquanto o
capitalismo prevalecer: as marés de avanço e recessão são
inerentes a um sistema com tendência natural à superprodução. “A
verdadeira barreira da produção capitalista”, escreveu ele no
terceiro volume do Capital, “é o próprio capital.” Se a
preservação do valor do capital repousar na expropriação e
pauperização das massas, elas sempre entrarão em conflito com o
impulso simultâneo do capital para uma ilimitada e incondicional
expansão da produtividade.
A razão última de todas as crises
reais é sempre a pobreza e a restrição ao consumo das massas face
ao impulso da produção capitalista para desenvolver as forças
produtivas, como se apenas a capacidade absoluta de consumo da
sociedade constituísse seu limite.
O capitalismo foi, portanto,
gravemente ferido por suas próprias armas. Após o fracasso das
rebeliões de 1848, Marx argumentou que uma nova revolução só
seria possível “em consequência de uma nova crise [econômica]”.
Desde então, esperou impacientemente pela chegada do cataclismo. No
Natal de 1851, profetizou que ela deveria “irromper no máximo no
próximo outono…. Estou mais convencido que nunca de que não
haverá uma revolução séria sem uma crise do mercado”. Cada
agitação nos mercados ou cada precipitação de falências
traziam-lhe o júbilo de semelhantes prognósticos. “No encalço de
tudo isso há uma crise comercial que assoma cada vez mais perto e
cujos primeiros sintomas aparecem em toda parte. Les choses
marchent”, escreveu em 1852. “Em minha visão, as atuais
circunstâncias deverão em breve levar a um terremoto”, vaticinou
em 1853.
As expectativas eram continuamente
reforçadas por Friedrich Engels, seu agente na cidadela do
capitalismo, o qual lhe informava que, em 1856, ao longo do ano
seguinte haveria “um dia de fúria como jamais ocorrera; toda a
indústria europeia irá ruir, todos os mercados abarrotados, … as
classes proprietárias em apuros, completa falência da burguesia,
guerra e devassidão ao enésimo grau”. No inverno de 1857-58, como
vimos, Marx trabalhou furiosamente nos cadernos econômicos que se
transformaram nos Esboços de uma crítica da economia política,
“para poder ao menos traçar os contornos claros antes do dilúvio”.
Retornou ao tema em um posfácio à segunda edição do primeiro
volume do Capital, escrito em 1873 para defender seu estilo
dialético:
Em sua configuração racional, [a
dialética] é um incômodo e um horror para a burguesia e para seus
porta-vozes doutrinários, porque, no entendimento positivo do que
existe, ela inclui ao mesmo tempo o entendimento de sua negação, de
sua inevitável desaparição…. O movimento repleto de contradições
da sociedade capitalista faz-se sentir ao burguês prático de modo
mais contundente nos vaivéns do ciclo periódico que a indústria
moderna percorre e em seu ponto culminante – a crise geral. Esta se
aproxima novamente.
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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