terça-feira, 13 de janeiro de 2026

| 2 | Nascimento



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O trabalhador é substituído justamente por causa das habilidades desumanas dos autômatos, e a capacidade que ele tem de defender sua posição ao se unir a outros trabalhadores – por meio de associações de ofício, por exemplo – diminui à medida que as próprias máquinas reúnem uma força cada vez mais potente. Este é um cenário, como acontece tão comumente no Capital, de história de terror:

No lugar da máquina individual surge um monstro mecânico, cujo corpo enche prédios fabris inteiros e cuja força demoníaca, de início escondida pelos movimentos lentos e comedidos de seus membros gigantescos, irrompe no turbilhão febril seus inúmeros órgãos de trabalho.

Uma vez que prescinde da força muscular humana, a maquinaria se torna também um meio de empregar crianças – que têm corpos mais franzinos, porém membros mais flexíveis –, e assim revoluciona o contrato entre trabalhador e capitalista.

Com base no intercâmbio de mercadorias, o pressuposto inicial era de que capitalista e trabalhador se confrontariam como pessoas livres: um, possuidor de dinheiro e de meios de produção; outro, detentor de força de trabalho. Mas agora o capital compra crianças e jovens.

Ao transcrever um anúncio que lhe fora apresentado por um inspetor de fábrica inglês – “Precisa-se de 12 a 20 garotos bastante crescidos que pareçam ter pelo menos 13 anos. Salário de quatro libras esterlinas por semana” –, Marx percebe que a busca por trabalhadores infantis se assemelha de forma geral à procura de escravos negros que em outros tempos era anunciada nos jornais norte-americanos. A expressão “que pareçam ter pelo menos 13 anos” deve-se ao fato de que, pela Lei Fabril, crianças até os 12 anos podiam trabalhar apenas seis horas por dia. Um médico oficialmente habilitado era responsável por certificar a idade. Marx observa que a aparente queda no número de crianças com menos de 13 anos trabalhando nas indústrias durante os anos de 1850 e 1860 “se devia, segundo o depoimento dos inspetores de fábrica, em grande parte, aos certifying surgeons, que falseavam a idade das crianças de acordo com a ânsia de exploração dos capitalistas e com a necessidade de traficância dos pais”.
A utilização de tecnologia pelo capitalista produz uma espécie de moto-perpétuo. Uma máquina que trabalha 16 horas por dia ao longo de sete anos e meio produz tanto quanto uma máquina igual que funcione apenas oito horas por dia durante 15 anos. Embora não transfira maior quantidade de mais-valia ao produto final, permite que o capitalista absorva os lucros duas vezes mais depressa. Por conseguinte, há grande incentivo ao uso da maquinaria pelo máximo possível de horas diárias, e isso graças ao prolongamento dos turnos dos auxiliares de máquinas – e eles não estão em posição de oferecer resistência, uma vez que a automação também intensificou a competição por empregos ao criar o que Marx chama de “exército industrial de reserva”, formado pelos desempregados. Essa população trabalhadora excedente é um subproduto necessário do capitalismo industrial e também acaba por se tornar, de modo inverso, uma alavanca da acumulação capitalista, ao fornecer “o material humano sempre pronto a ser explorado”. Quando o mercado se expande rapidamente ou abre novos empreendimentos, como as estradas de ferro, “grandes massas humanas precisam estar disponíveis para serem subitamente lançadas nos pontos decisivos sem quebrar a escala de produção em outras esferas. A superpopulação é responsável por esse provimento”. O padrão cíclico da indústria moderna – um período de mediana vitalidade seguido de produção a todo o vapor, crise e estagnação – depende da permanente constituição, absorção e reconstituição de um exército industrial de reserva. As várias fases do ciclo não só abastecem a superpopulação, mas também se transformam nos agentes mais enérgicos de sua reprodução.
O excedente de força de trabalho por sua vez regula o movimento geral dos salários. Como escreve Marx:

O exército industrial de reserva pressiona o exército ativo de trabalhadores durante os períodos de estagnação e prosperidade média e contém suas pretensões nos tempos de superprodução e atividade intensa. A superpopulação relativa é, portanto, o ambiente no qual a lei da oferta e da procura de mão-de-obra se movimenta.

Marx não se ilude a respeito da suposta simetria sagrada da lei da oferta e da procura. A demanda por trabalho não é idêntica ao crescimento do capital, pois oferta e demanda “não constituem duas forças independentes que interagem uma com a outra. Os dados estão viciados”.
Nesse ponto Marx mira suas armas contra “uma das façanhas da apologética econômica” – a noção disseminada por vários economistas vitorianos de que a introdução de uma nova maquinaria, ou a ampliação da antiga, “libera” os trabalhadores. Eles são “liberados”, explica Marx, somente no sentido de que passam a estar completamente desocupados, “e todo novo capital com desejo de funcionar pode dispor deles”. Quando encontram emprego, o medo de voltar ao exército de reserva os deixa mais expostos à exploração. Então, conclui Marx, quanto maior a produtividade do trabalho, maior a “grandeza proporcional” do exército industrial de reserva. A consequência do aumento da riqueza social é, portanto, um aumento do pauperismo oficial. “Essa é a lei geral absoluta da acumulação capitalista”, sentencia com fanfarrice para então minar a ideia logo na frase seguinte: “Como todas as outras leis, é modificada em sua realização por variadas circunstâncias, cuja análise não cabe aqui fazer.”
Tendo afastado quaisquer objeções, Marx segue em direção a uma das mais notórias assertivas do Capital: a de que o capitalismo leva à progressiva “pauperização” ou empobrecimento do proletariado. Inúmeros estudiosos consideraram-na uma afirmação de que a paulatina prosperidade do capitalismo seria alcançada por meio de uma absoluta redução do nível de qualidade de vida e do salário dos trabalhadores, julgando-a assim presa fácil para zombarias. Vejam as atuais classes trabalhadoras, com seus carros zero e fornos de microondas: não parecem muito miseráveis, não é mesmo? O economista norte-americano Paul Samuelson afirmou que toda a obra de Marx pode ser desconsiderada, uma vez que a pauperização dos trabalhadores “simplesmente não ocorreu”. Como os livros de Samuelson passaram a ser manuais de economia apresentados a gerações de universitários tanto na Inglaterra quanto na América, essa ideia se tornou senso comum.
Entretanto, ela é um mito baseado na compreensão equivocada do Capítulo 23 do primeiro volume do Capital – “A lei geral da acumulação capitalista”. “O pauperismo constitui”, escreve Marx,

uma condição de existência da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. Ele pertence aos custos incidentais da produção capitalista, que, no entanto, o capital sabe transferir, em grande parte, de seus ombros para os da classe trabalhadora e da pequena burguesia.

Nessa passagem, ele claramente não se refere a todo o proletariado, mas ao “mais profundo sedimento” da sociedade, tal como as vítimas do desemprego crônico, os doentes, os maltrapilhos – um extrato que existe ainda hoje e agora é habitualmente chamado de subclasse. (“Os pobres estarão sempre convosco”, afirmou outro pária judeu, mas nenhum economista até agora sugeriu que os ensinamentos de Jesus devam ser completamente desconsiderados pelos seus vaticínios de eterna pauperização. Até Leszek Kolakowski, um dos mais influentes críticos de Marx no século XX, reconheceu que “a pauperização material não era uma premissa necessária, quer da análise marxiana da desumanização causada pelo trabalho assalariado, quer de suas predições sobre a inescapável falência do capitalismo”.)
Marx disse que, sob o capitalismo, haveria um relativo – não absoluto – declínio dos salários. Isso é comprovadamente verdadeiro: nenhuma empresa que desfrute um aumento de 20% da mais-valia abrirá mão de todo o butim em favor dos trabalhadores e concederá um aumento salarial de 20%. “À medida que se acumula capital, a situação do trabalhador, seja sua remuneração alta ou baixa, deve piorar”, escreve Marx. A frase crucial aqui é “seja sua remuneração alta ou baixa”: o trabalho torna-se cada vez mais distante do capital, não importa quantos carros ou fornos de microondas os trabalhadores possam comprar.
Além disso, Marx deixa bastante claro, no mesmo parágrafo, que sua definição de pobreza (como a de Cristo) não é só uma questão monetária: ela trata da aniquilação do espírito humano. Com o trabalhador atado ao capital “mais firmemente que as correntes de Hefaísto agrilhoaram Prometeu ao rochedo”, a miséria de alguns é condição necessária para a riqueza de outros:

No sistema capitalista, todos os métodos para elevar a produtividade social do trabalho se aplicam à custa do trabalhador…. Mutilam-no, transformam-no num fragmento de homem, degradam-no e convertem-no em um apêndice da máquina; o trabalho vira um tormento; alienam-lhe as potências intelectuais do processo de trabalho à mesma medida que a ciência é incorporada a este último como potência autônoma; desfiguram as condições sob as quais ele trabalha; submetem-no, durante o processo de trabalho, ao mais mesquinho e odioso despotismo; transformam seu tempo de vida em tempo de trabalho; jogam sua mulher e seu filho sob a roda de Juggernaut do capital…. A acumulação de riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, o tormento do trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e degradação moral no pólo oposto, isto é, do lado da classe que produz seu próprio produto como capital.

A última sentença, analisada isoladamente, poderia ser apontada como outra predição sobre o absoluto empobrecimento financeiro dos trabalhadores, mas apenas alguém insensível – ou um economista – se apegaria a essa interpretação depois de ler a estrondosa invectiva que a precede.
Nos anos 1970, muito se falou de uma iminente “era do ócio”, em que, graças à automação, dificilmente trabalharíamos. Houve uma enxurrada de livros que refletiam com seriedade a respeito de como preencheríamos nosso novo tempo livre sem nos tornarmos desesperançadamente letárgicos. Hoje, qualquer pessoa que depare com um desses tratados esquecido em um sebo é tomada por um sorriso de incredulidade. O trabalhador inglês médio investe atualmente mais de 80 mil horas em sua vida profissional, contra 69 mil em 1981. Longe de nos afastarmos do absoluto valor positivo do trabalho, parecemos cada vez mais prisioneiros dele. A nova moda recai sobre livros que perguntam ansiosamente como podemos atingir um “equilíbrio trabalho–vida” em uma época na qual muitas pessoas não têm tempo para nada além de trabalhar e dormir.
Isso não surpreenderia Karl Marx. No Capítulo 10 do Capital, ele escarnece dos tratados econômicos vitorianos em que, “numa página, se lê que o trabalhador deve gratidão ao capital pelo desenvolvimento das forças produtivas porque o tempo de trabalho necessário é reduzido, e na página seguinte está escrito que ele deve manifestar essa gratidão passando a trabalhar, em vez de dez, 15 horas”. O que a produção capitalista busca, afirma ele, não é a redução da jornada de trabalho, mas a diminuição do tempo de trabalho necessário para produzir uma mercadoria.

O fato de que o trabalhador, quando a produtividade de seu trabalho é aumentada, produz, em uma hora, digamos, dez vezes mais mercadorias que antes, precisando, portanto, de um décimo do tempo de trabalho para fazer cada artigo, não impede de modo algum de fazê-lo trabalhar, assim como antes, 12 horas e produzir neste período 1.200 artigos, em vez de, como antes, 120. Sua jornada de trabalho pode até ser prolongada, de modo que passe a produzir, em 14 horas, 1.400 peças.

O objetivo desse processo é “encurtar a parte da jornada de trabalho durante a qual o operário deve trabalhar para si mesmo, justamente para prolongar a outra parte da jornada em que trabalha gratuitamente para o capitalista”.
Mas se todas essas mercadorias excedentes fluem para o mercado e os trabalhadores (no papel de consumidores) não são mais ricos que antes, o capitalista acabará com uma imensa pilha de produtos encalhados. O que fazer? No Manifesto Comunista de 1848 Marx já chamara atenção para

as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a sociedade burguesa. Nessas crises, grande parte dos produtos existentes, e também das forças produtivas desenvolvidas, é destruída. Irrompe uma epidemia que, em épocas precedentes, poderia parecer um absurdo – a epidemia da superprodução.

As condições da sociedade burguesa, argumenta ele, são simplesmente muito estreitas para conter sua própria riqueza. O capitalismo tem duas formas de superar o problema: “De um lado, pela destruição de grande quantidade das forças produtivas; de outro, pela conquista de novos mercados e pela intensa exploração dos antigos. Portanto, prepara crises mais extensas e destrutivas, e diminui os meios de evitá-las.”
Esse é o ciclo de “expansão e crise” do qual os governos procuram se livrar desde então. De acordo com Marx, não há escapatória possível enquanto o capitalismo prevalecer: as marés de avanço e recessão são inerentes a um sistema com tendência natural à superprodução. “A verdadeira barreira da produção capitalista”, escreveu ele no terceiro volume do Capital, “é o próprio capital.” Se a preservação do valor do capital repousar na expropriação e pauperização das massas, elas sempre entrarão em conflito com o impulso simultâneo do capital para uma ilimitada e incondicional expansão da produtividade.

A razão última de todas as crises reais é sempre a pobreza e a restrição ao consumo das massas face ao impulso da produção capitalista para desenvolver as forças produtivas, como se apenas a capacidade absoluta de consumo da sociedade constituísse seu limite.

O capitalismo foi, portanto, gravemente ferido por suas próprias armas. Após o fracasso das rebeliões de 1848, Marx argumentou que uma nova revolução só seria possível “em consequência de uma nova crise [econômica]”. Desde então, esperou impacientemente pela chegada do cataclismo. No Natal de 1851, profetizou que ela deveria “irromper no máximo no próximo outono…. Estou mais convencido que nunca de que não haverá uma revolução séria sem uma crise do mercado”. Cada agitação nos mercados ou cada precipitação de falências traziam-lhe o júbilo de semelhantes prognósticos. “No encalço de tudo isso há uma crise comercial que assoma cada vez mais perto e cujos primeiros sintomas aparecem em toda parte. Les choses marchent”, escreveu em 1852. “Em minha visão, as atuais circunstâncias deverão em breve levar a um terremoto”, vaticinou em 1853.
As expectativas eram continuamente reforçadas por Friedrich Engels, seu agente na cidadela do capitalismo, o qual lhe informava que, em 1856, ao longo do ano seguinte haveria “um dia de fúria como jamais ocorrera; toda a indústria europeia irá ruir, todos os mercados abarrotados, … as classes proprietárias em apuros, completa falência da burguesia, guerra e devassidão ao enésimo grau”. No inverno de 1857-58, como vimos, Marx trabalhou furiosamente nos cadernos econômicos que se transformaram nos Esboços de uma crítica da economia política, “para poder ao menos traçar os contornos claros antes do dilúvio”. Retornou ao tema em um posfácio à segunda edição do primeiro volume do Capital, escrito em 1873 para defender seu estilo dialético:

Em sua configuração racional, [a dialética] é um incômodo e um horror para a burguesia e para seus porta-vozes doutrinários, porque, no entendimento positivo do que existe, ela inclui ao mesmo tempo o entendimento de sua negação, de sua inevitável desaparição…. O movimento repleto de contradições da sociedade capitalista faz-se sentir ao burguês prático de modo mais contundente nos vaivéns do ciclo periódico que a indústria moderna percorre e em seu ponto culminante – a crise geral. Esta se aproxima novamente.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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