sábado, 23 de agosto de 2025

O grande poeta


Fui vê-lo. Ele era o grande poeta. Era o melhor poeta narrativo desde Jeffers, ainda com menos de setenta anos e famoso no mundo todo. Talvez seus livros mais conhecidos fossem Minha Dor é Melhor que a Sua, Ha! e A Goma de Mascar Morta de Langor. Tinha ensinado em muitas universidades, ganho todos os prêmios, incluindo o Nobel. Bernard Stachman.
Subi os degraus da ACM. O Sr. Stachman morava no Quarto 223. Bati.
DIABOS, VÁ ENTRANDO! – alguém gritou lá de dentro.
Abri a porta e entrei. Bernard Stachman estava na cama. O cheiro de vômito, bebida, urina, merda e comida podre pairava no ar. Comecei a arquejar. Corri para o banheiro, vomitei e saí.
Sr. Stachman – eu disse –, por que o senhor não abre uma janela?
É uma boa ideia. E não me venha com essa merda de “Sr. Stachman”, eu me chamo Barney.
Era aleijado, e após um grande esforço conseguiu arrancar-se da cama e meter-se numa cadeira ao lado.
Agora, um bom papo – disse. – Eu estava esperando por isso.
Ao seu lado, sobre uma mesa, via-se uma jarra de um galão de tinto italiano cheio de cinza de cigarro e mariposas mortas. Eu desviei os olhos, depois tornei a olhar. Ele levara a jarra à boca, mas a maior parte do vinho escorria para fora, pela camisa e as calças abaixo. Bernard Stachman depôs a jarra.
Exatamente o que eu precisava.
Devia usar um copo – eu disse. – É mais fácil.
É, acho que tem razão.
Olhou em volta. Havia alguns copos sujos, e imaginei qual ele ia escolher. Ele pegou o mais próximo. O fundo do copo estava coberto por uma substância amarela endurecida. Pareciam restos de frango e macarrão. Ele pôs o vinho. Depois ergueu o copo e esvaziou-o.
É, isso é muito melhor. Vejo que você trouxe sua câmera. Imagino que veio me fotografar?
É – eu disse.
Fui abrir a janela e respirei o ar fresco. Chovia há dias, e o ar estava fresco e límpido.
Escuta – ele disse –, estou com vontade de mijar há horas. Me traz uma garrafa vazia aí.
Havia muitas garrafas vazias. Eu trouxe-lhe uma. Ele não tinha zíper, só botões, e só o botão de baixo fechado, porque ele estava muito inchado. Ele meteu a mão, pegou o pênis e apoiou a cabeça na boca da garrafa. Assim que começou a urinar o pênis endureceu e se virou para todos os lados, esguichando urina para todos os lados – na camisa, nas calças, no rosto, e, incrivelmente, o último esguicho entrou na orelha direita dele.
É o diabo a gente ser aleijado – ele disse.
Como foi que aconteceu? – perguntei.
Como foi que aconteceu o quê?
Você ficou aleijado.
Minha esposa. Me atropelou com o carro.
Como? Por quê?
Disse que não podia me suportar mais.
Eu não disse nada. Fiz umas duas fotos.
Eu tenho fotos de minha esposa. Quer ver umas fotos de minha esposa?
Tudo bem.
O álbum está ali em cima da geladeira.
Fui lá, peguei-o e me sentei. Só havia fotos de sapatos de saltos altos e os finos tornozelos de uma mulher, pernas cobertas de náilon com ligas, pernas diversas em meias-calças. Em algumas das páginas estavam colados anúncios de açougue: acem, 89 centavos a libra. Fechei o álbum.
Quando nos divorciamos – ele disse – ela me deu isso. – Enfiou a mão debaixo do travesseiro na cama e puxou um par de sapatos com longos saltos agulha. Mandara bronzeá-los. Colocou-os na mesinha de cabeceira. Depois serviu-se outro drinque. – Eu durmo com esses sapatos – disse. – Faço amor com esses sapatos, e depois os lavo.
Fiz mais algumas fotos.
Aqui, olhe, quer uma foto? Aqui está uma boa foto. – Desabotoou o único botão fechado das calças. Não usava nenhuma roupa de baixo. Pegou o salto do sapato e enfiou-o no traseiro. – Aqui, olhe, tire essa. – Eu tirei.
Era difícil para ele ficar de pé, mas conseguia, segurando-se na mesa de cabeceira.
Você ainda escreve, Barney?
Diabos, não paro de escrever.
Seus fãs não interrompem seu trabalho?
Oh, diabos, às vezes as mulheres me descobrem, mas não ficam muito tempo.
Seus livros vendem?
Eu recebo cheques de direitos autorais.
Que conselho dá aos jovens escritores?
Bebam, fodam e fumem muitos cigarros.
E para os velhos escritores?
Se o cara continua vivo, não precisa de meus conselhos.
Qual é o impulso que faz você criar um poema?
Que é que faz você dar uma cagada?
Que acha de Reagan e do desemprego?
Eu não penso em Reagan ou no desemprego. Tudo isso me enche o saco. Como os voos espaciais e o campeonato de beisebol.
Quais são suas preocupações, então?
As mulheres modernas.
Mulheres modernas?
Elas não sabem se vestir. Usam uns sapatos pavorosos.
Que acha da Liberação das Mulheres?
Na hora que elas estiverem dispostas a lavar carros, se pôr atrás de um arado, perseguir os dois caras que acabaram de assaltar a loja de bebidas ou limpar os esgotos, na hora que estiverem dispostas a ter os seios arrancados à bala no exército, eu estou disposto a ficar em casa e lavar os pratos e me chatear catando fiapos do tapete.
Mas não há uma certa lógica nas reivindicações delas?
Claro.
Stachman serviu outro drinque. Mesmo bebendo no copo, parte do vinho escorria pelo queixo para a camisa. Ele tinha o cheiro de um homem que não toma banho há meses.
Minha esposa – disse –, ainda estou apaixonado por minha esposa. Me passa aquele telefone, por favor. – Entreguei-lhe o telefone. Ele discou um número. – Claire? Alô, Claire? – Pôs o fone no gancho.
Que foi que houve? – perguntei.
O de sempre. Ela desligou. Escuta, vamos sair daqui, vamos pra um bar. Já fiquei neste maldito quarto tempo demais. Preciso sair.
Mas está chovendo. Está chovendo há uma semana. As ruas estão inundadas.
Não me importo. Quero sair. Na certa ela está fodendo com algum cara neste momento. Na certa está com os saltos altos. Eu sempre a fazia ficar com os saltos altos.
Ajudei Bernard Stachman a enfiar-se num velho casaco marrom. Não havia um botão na frente. Duro de sujeira. Dificilmente seria um casaco de Los Angeles, era pesado e desajeitado, devia ter vindo de Chicago ou Denver na década de trinta.
Depois pegamos as muletas dele e descemos com dificuldade a escada da ACM. Bernard trazia um quinto de moscatel num dos bolsos. Alcançamos a entrada e ele me disse que podia atravessar a calçada e entrar no carro. Eu estacionara a alguma distância do meio-fio.
Quando corri para o outro lado do carro, ouvi um grito e um espadanar. Chovia, e chovia forte. Voltei correndo e Bernard dera um jeito de cair e meter-se entre o carro e o meio-fio. A água corria em torno dele, ele estava sentado, a água passando por cima, correndo pelas calças, batendo dos lados, as muletas flutuando no colo.
Tudo bem – ele disse –, vá embora e me deixe.
Oh, diabos, Barney.
Estou falando sério. Vá embora. Me deixe. Minha esposa não me ama.
Ela não é sua esposa, Barney. Você é divorciado.
Vá contar essa pra outro.
Ora, vamos, Barney, eu vou ajudar você.
Não, não. Está tudo bem. Eu lhe garanto. Vá em frente. Tome um porre sem mim.
Eu o peguei, abri a porta e ergui-o para o banco da frente. Ele estava encharcadíssimo. Rios de água corriam pelo chão do carro. Fui para o outro lado e entrei. Barney desatarraxou a tampa da garrafa de moscatel, tomou um gole, me passou a garrafa. Tomei um gole. Dei a partida no carro e arranquei, olhando pelo para-brisa no meio da chuva para ver se encontrava um bar onde pudéssemos entrar sem vomitar na primeira vez que víssemos a cara e o cheiro do banheiro.

Charles Bukowski, em Numa Fria

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