sábado, 23 de agosto de 2025

1583 – Copacabana

A mãe Aymara de Deus

Atravessa o lago Titicaca na barca de junco. Ela viaja ao seu lado. Está vestida de festa. Na cidade de La Paz douraram a sua túnica.
Ao desembarcar, cobre-a com a manta, para defendê-la da chuva; e com ela nos braços, tapadinha, entra no povoado de Copacabana. A chuva metralha a multidão que se reuniu para recebê-los.
Francisco Tito Yupanqui entra com ela no santuário e a descobre. A sobem ao altar. Do alto, a Virgem de Copacabana abraça todos. Ela evitará as pestes e as penas e o mau tempo de fevereiro.
O escultor índio talhou-a em Potosí e de lá ele a trouxe. Quase dois anos esteve trabalhando para que ela nascesse com a devida formosura. Os índios só podem pintar ou talhar imagens que imitem os modelos europeus e Francisco Tito Yupanqui não pretendeu violar a proibição. Ele se dispôs a fazer uma virgem idêntica à Nossa Senhora da Candelária, mas suas mãos modelaram este corpo do altiplano, amplos pulmões ansiosos de ar, torso grande e pernas curtas, e esta larga cara de índia, de lábios carnudos e olhos amendoados que olham, tristes, a terra ferida.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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