quarta-feira, 21 de maio de 2025

O sol também se levanta


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Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. Ele não dava importância ao boxe. De fato, sequer o apreciava. Mas esforçara-se bastante para aprender a lutar, e apenas para compensar o complexo de inferioridade e a timidez que sentira, porque o tratavam como judeu, em Princeton. Era uma certa satisfação íntima saber que poderia derrubar a quem quer que o provocasse. Mas, sendo muito tímido e ótimo rapaz, nunca travava luta fora do ginásio. Robert era um astro, entre os discípulos de Spider Kelly, que ensinava seus jovens alunos a lutarem como pesos-leves, quer pesassem 48 ou 93 quilos. No caso de Robert Cohn, o sistema pareceu dar resultado. O rapaz era realmente ligeiro e tão bom, que Spider não tardou a fazê-lo medir-se com lutadores mais fortes. Seu nariz ficou irremediavelmente achatado, o que contribuiu para a aversão de Cohn pelo boxe, mas produziu-lhe uma satisfação estranha, e isso, sem dúvida, melhorou seu nariz. Durante o seu último ano em Princeton, Robert lera demais e passou a usar óculos. Nunca encontrei um só de seus colegas que se lembrasse dele ou de que tivesse sido campeão de boxe.
Desconfio de todas as pessoas francas e simples, principalmente quando suas histórias são coerentes, e sempre alimentei a suspeita de que Robert Cohn nunca fora campeão. Talvez um cavalo lhe tivesse dado um coice no rosto, ou sua mãe houvesse levado um susto, enxergando uma coisa qualquer, ou ainda, podia ser que ele tivesse caído e se machucado, quando criança. Afinal, encarreguei alguém de tirar a limpo o caso com Spider Kelly. O treinador não somente se lembrava de Cohn, como também se punha a imaginar, vez por outra, o que teria sido feito de seu antigo discípulo.
Robert Cohn era, pelo lado paterno, membro de uma das mais ricas famílias de Nova York e descendia de uma das mais antigas famílias da região, pelo lado materno. Na Escola Militar, onde fizera os preparativos para Princeton e tivera boa atuação na equipe de futebol, ninguém lhe despertara a consciência da raça. Não o fizeram sentir que era judeu e, portanto, diferente dos outros, até que ingressou em Princeton. Bom rapaz, cordial e muito tímido, desrecalcou-se no boxe. E saiu da Universidade com uma sensibilidade doentia e o nariz achatado. Foi agarrado pela primeira pequena que o agradou e casou-se com ela.Esteve casado cinco anos, e vieram três filhos. Perdeu a maior parte dos cinquenta mil dólares que herdara do pai e, como o resto da herança coubera à mãe, a infelicidade doméstica, com uma esposa rica, tornou-o intratável. Passou meses pensando em deixar a mulher, mas julgara que seria crueldade privá-la de sua companhia. Finalmente, quando já havia se decidido, foi ela quem o deixou, fugindo com um pintor miniaturista. A partida dela, assim, proporcionou-lhe um choque benéfico.
Obtido o divórcio, Robert Cohn foi para a Costa do Pacífico. Na Califórnia, caiu num meio de literatos e, como ainda possuía uns restos dos cinquenta mil dólares, logo se viu financiando uma revista de arte. A publicação foi iniciada em Carmel, na Califórnia, e acabou em Provincetown, Massachusetts. Nesse tempo, Cohn era considerado pura e simplesmente como um mecenas e seu nome aparecia na página editorial apenas como membro da direção. Mas depois se tornou o único editor. Gostava disso e o dinheiro era seu. Ficou triste, quando a revista começou a dar prejuízo e ele teve de desistir.
Nesse momento, aliás, tinha outras coisas em que pensar. Estava dominado por uma senhora que esperava fazer carreira e progredir com a revista. Era muito voluntariosa e Cohn nunca encontrara uma oportunidade para se ver livre dela. Também estava convencido de que a amava. Compreendendo que a revista não ia muito bem, ela se aborreceu com Robert e decidiu aproveitar o mais que pudesse, enquanto havia o que tirar. Insistiu para que fossem à Europa, onde Cohn poderia dedicar-se a escrever. Vieram, então, para a Europa, onde ela se educara, e aqui permaneceram três anos, o primeiro gasto em viagens e os dois últimos em Paris. Robert teve ali dois amigos, Braddocks e eu. Braddocks era o amigo literário, e eu, o amigo no tênis.
A mulher que o dominava chamava-se Frances. Verificou, no fim de dois anos, que seus encantos começavam a murchar e sua atitude para com Robert mudou, de posse indiferente e exploração, para a decisão inabalável de se casar com ele. Nesse ínterim, a mãe de Cohn designara para o filho uma mensalidade de trezentos dólares. Durante dois anos e meio, acredito que Robert nunca tivesse olhado para outra mulher. Era razoavelmente feliz. Apenas, como acontece a muitas pessoas que vivem na Europa, teria preferido viver na América. Descobriu também que dava para escrever, e de fato publicou um romance, não tão mau como os críticos disseram, mas ainda assim bastante fraco. Lia muito, jogava bridge e tênis e praticava boxe num ginásio local.
Certa noite em que jantávamos juntos, percebi pela primeira vez a atitude de Frances para com Robert. Tínhamos acabado de jantar no l’Avenue e fomos ao Café de Versailles. Tomamos café e, em seguida, várias fines. Eu disse que precisava ir andando. Cohn estivera falando sobre a possibilidade de passarmos um fim de semana em qualquer parte, pois queria sair da cidade e dar um bom passeio. Sugeri que fôssemos a Estrasburgo. Dali faríamos uma caminhada a Sainte Odille ou a algum outro ponto da Alsácia.
Eu conheço uma moça em Estrasburgo que pode nos mostrar a cidade.
Senti que me pisavam o pé sob a mesa. Pensei que fosse por acaso e prossegui:
Mora lá há dois anos e conhece tudo o que vale a pena ser visto. É uma boa moça.
Nova pisadela, e somente então notei o ar de Frances, a amiga de Robert. Tinha o queixo erguido e a fisionomia dura.
Diabo! — exclamei. — Mas, por que Estrasburgo? Poderíamos ir a Bruges ou às Ardenas.
Cohn acalmou-se e não pisou mais o meu pé. Eu dei boa-noite e ia sair, quando ele disse que precisava comprar um jornal e me acompanharia até a esquina.
Meu Deus! Para que você foi falar nessa moça de Estrasburgo? — exclamou. — Não notou o jeito de Frances?
Não. E se conheço uma moça americana que reside em Estrasburgo, que diabo tem Frances a ver com isso?
Ora, não importa que moça é essa. Seja lá quem for, eu não poderia ir, compreende?
Que bobagem!
Você conhece Frances. Não viu como ela ficou?
Está bem — respondi. — Vamos então a Senlis.
Não fique magoado, Jake.
Não estou magoado. Senlis é um lugar muito agradável. Podemos ir para o Grand Cerf, excursionar pelas matas e voltar para casa.
Isso! Vai ser ótimo.
Amanhã nos encontraremos no tênis.
Boa-noite, Jake — disse, encaminhando-se para o Café.
Você esqueceu o jornal!
É verdade…
Ele acompanhou-me até a banca da esquina.
Não está aborrecido, não é, Jake? — perguntou ainda, com o jornal na mão.
Não, não há motivo.
Então, amanhã, no tênis — concluiu.
Segui-o com os olhos, enquanto voltava ao Café, com o jornal na mão. Eu gostava bastante dele e era evidente que a mulher o fazia levar uma vida terrível.

Ernest Hemingway, em O sol também se levanta

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