Às
6 horas apontamos a proa para a ilha Rasa e às 12 e meia já
estávamos de volta. Foi uma pescaria curta e modesta, pois trouxemos
apenas um dourado de 10 quilos que o patrão do barco fisgou, eu
ajudei a tentear e Chico Brito puxou com o bicheiro.
Não
o choreis. Era na verdade lindo, a correr e saltar na água azul,
todo verde e dourado e azul; lutou pela vida, foi bravo e morreu.
Não
o choreis: era um belo animal cruel e, além disso, guloso. Quando
foi aberto o seu bucho, havia dentro dele várias sardinhas e vários
baiacus, todos abocanhados inteiros, alguns evidentemente há bem
pouco tempo. Ele estava, portanto, de barriga cheia e com uma grande
parte da digestão por fazer; se engoliu nossa modesta sardinha não
foi por fome e sim por mania predatória. Como somos democratas e
defensores dos fracos e pequenos, choramos as sardinhas e baiacus.
Quanto
ao dourado, o dividimos em postas e o almoçamos tranquilamente, ao
som de um vinho branco Santa Rita, devidamente chileno. Após o que
deitei-me, na minha branca e cearense rede, cuja varanda é bordada
de leões, e cochilei cerca de meia hora, a sonhar vagamente com
minha amada e com o mar.
Enfim,
tudo isso são prazeres que um intelectual modesto pode usufruir em
um país subdesenvolvido a esta altura do século, após 30 anos de
labor relativamente honesto. Nos prazeres referidos não vai incluída
a amada, que, por desamante, antes seria motivo de melancolia; mas,
se sua presença é esquiva, sua lembrança às vezes é doce,
principalmente quando servida com peixe, vinho e rede.
Como
o leitor está vendo, ao fim de tudo isso deixei a rede e abri a
máquina de escrever. Aqui estou. Que poderia contar além da minha
pequena experiência pessoal do dia de hoje? Não sou homem de
inventar coisas, mas de contá-las. Seria preciso talvez dar-lhes um
sentido, mas não encontro nenhum.
As
coisas, em geral, não têm sentido algum.
Rubem Braga, in A traição das elegantes
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