O
telefone tocou. Era o escritor, Paul. Estava deprimido. Estava em
Northridge.
– Harry!
– Sim?
– Nancy
e eu rompemos.
– Sim?
– Escuta,
eu quero voltar com ela. Você pode me ajudar? A não ser que você
queira voltar com ela.
Harry
sorriu para o telefone.
– Não
quero voltar com ela, Paul.
– Não
sei o que deu errado. Ela começou com o papo do dinheiro. Começou a
berrar sobre dinheiro. Sacudia contas de telefone em minha cara.
Escuta, andei me prostituindo. Fiz um número. Barney e eu vestidos
de pinguim... Ele diz um verso do poema, eu digo o outro... quatro
microfones... um grupo de jazz tocando no fundo...
– As
contas de telefone, Paul, às vezes são irritantes – disse Harry.
– Você devia ficar longe da linha dela quando está mamado. Você
conhece gente demais no Maine, Boston e New Hampshire. Nancy é um
caso de neurose-ansiedade. Não pode ligar o carro sem ter um ataque.
Se amarra com o cinto, começa a tremer e a buzinar. Maluca como um
chapeleiro. E isso se estende a outras áreas. Não pode entrar numa
mercearia sem se ofender com um servente mastigando uma barra de
doce.
– Ela
diz que sustentou você durante três meses.
– Ela
sustentou meu pau. Sobretudo com cartões de crédito.
– Você
é tão bom quanto dizem?
Harry
deu uma risada.
– Eu
dou alma a elas. Isso não pode ser medido em centímetros.
– Eu
quero voltar com ela. Me diga o que fazer.
– Ou
você chupa xoxota como um homem ou procura um emprego.
– Mas
você não trabalha.
– Não
se meça por mim. Esse é o erro que a maioria comete.
– Mas
onde posso arranjar alguma grana? Me prostituí mesmo. Que vou fazer?
– Sugue
ar.
– Você
não tem nenhuma piedade?
– As
únicas pessoas que sabem de piedade são as que precisam dela.
– Você
vai precisar de piedade um dia.
– Eu
preciso agora... só que eu preciso de uma forma diferente da sua.
– Preciso
de grana, Harry, como vou conseguir?
– Pegue
um trabuco. Trêsoitão. Se conseguir, está limpo. Se não, consegue
uma cela de cadeia: nada de contas de luz, telefone, gás, megeras.
Pode aprender um ofício e ganhar quatro centavos a hora.
– Você
sabe mesmo massacrar um cara.
– Tudo
bem, deixa de frescura que eu lhe digo uma coisa.
– Certo.
– Eu
diria que o motivo de Nancy ter largado você é outro cara. Negro,
branco, vermelho ou amarelo. Guarde essa regra e vai sempre estar
protegido: uma fêmea raramente se afasta de uma vítima sem ter
outra à mão.
– Cara
– disse Paul –, eu preciso de ajuda, não de teoria.
– Se
não entender a teoria, vai sempre precisar de ajuda...
Harry
pegou o telefone, discou o número de Nancy.
– Alô?
– ela atendeu.
– É
Harry.
– Oh.
– Eu
soube que você foi passada pra trás no México. Ele pegou tudo?
– Ah,
isso...
– Um
toureiro espanhol desbotado, não foi?
– Com
os olhos mais lindos. Não como os seus. Ninguém pode ver
seus olhos.
– Não
quero que ninguém veja meus olhos.
– Por
que não?
– Se
vissem o que estou pensando, eu não podia enganar ninguém.
– Então,
me ligou pra dizer que está andando de viseira?
– Você
sabe disso. Eu liguei pra dizer que Paul quer que você volte. Isso
lhe ajuda de algum modo?
– Não.
– Foi
o que eu pensei.
– Ele
ligou mesmo pra você?
– Ligou.
– Oh,
eu estou com um novo cara agora. É maravilhoso!
– Eu
disse a Paul que você provavelmente estava interessada em outra
pessoa.
– Como
você sabia?
– Eu
sabia.
– Harry?
– Sim,
boneca?
– Vai
te foder...
Nancy
desligou.
Ora
veja, ele pensou, eu tento bancar o pacificador e os dois ficam
putos. Harry entrou no banheiro e olhou seu rosto no espelho. Deus do
céu, tinha um rosto bondoso. Será que ninguém via isso?
Compreensivo. Nobreza. Localizou um cravo perto do nariz. Espremeu.
Ele saiu, negro e lindo, trazendo uma cauda amarela de pus. A grande
sacada, pensou, está em compreender homens e mulheres. Rolou o cravo
e o pus entre os dedos. Ou talvez estivesse na capacidade de matar
sem ligar. Sentou-se para dar uma cagada enquanto pensava no assunto.
Charles Bukowski, in Numa Fria
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