segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Harry Ann Landers

O telefone tocou. Era o escritor, Paul. Estava deprimido. Estava em Northridge.
Harry!
Sim?
Nancy e eu rompemos.
Sim?
Escuta, eu quero voltar com ela. Você pode me ajudar? A não ser que você queira voltar com ela.
Harry sorriu para o telefone.
Não quero voltar com ela, Paul.
Não sei o que deu errado. Ela começou com o papo do dinheiro. Começou a berrar sobre dinheiro. Sacudia contas de telefone em minha cara. Escuta, andei me prostituindo. Fiz um número. Barney e eu vestidos de pinguim... Ele diz um verso do poema, eu digo o outro... quatro microfones... um grupo de jazz tocando no fundo...
As contas de telefone, Paul, às vezes são irritantes – disse Harry. – Você devia ficar longe da linha dela quando está mamado. Você conhece gente demais no Maine, Boston e New Hampshire. Nancy é um caso de neurose-ansiedade. Não pode ligar o carro sem ter um ataque. Se amarra com o cinto, começa a tremer e a buzinar. Maluca como um chapeleiro. E isso se estende a outras áreas. Não pode entrar numa mercearia sem se ofender com um servente mastigando uma barra de doce.
Ela diz que sustentou você durante três meses.
Ela sustentou meu pau. Sobretudo com cartões de crédito.
Você é tão bom quanto dizem?
Harry deu uma risada.
Eu dou alma a elas. Isso não pode ser medido em centímetros.
Eu quero voltar com ela. Me diga o que fazer.
Ou você chupa xoxota como um homem ou procura um emprego.
Mas você não trabalha.
Não se meça por mim. Esse é o erro que a maioria comete.
Mas onde posso arranjar alguma grana? Me prostituí mesmo. Que vou fazer?
Sugue ar.
Você não tem nenhuma piedade?
As únicas pessoas que sabem de piedade são as que precisam dela.
Você vai precisar de piedade um dia.
Eu preciso agora... só que eu preciso de uma forma diferente da sua.
Preciso de grana, Harry, como vou conseguir?
Pegue um trabuco. Trêsoitão. Se conseguir, está limpo. Se não, consegue uma cela de cadeia: nada de contas de luz, telefone, gás, megeras. Pode aprender um ofício e ganhar quatro centavos a hora.
Você sabe mesmo massacrar um cara.
Tudo bem, deixa de frescura que eu lhe digo uma coisa.
Certo.
Eu diria que o motivo de Nancy ter largado você é outro cara. Negro, branco, vermelho ou amarelo. Guarde essa regra e vai sempre estar protegido: uma fêmea raramente se afasta de uma vítima sem ter outra à mão.
Cara – disse Paul –, eu preciso de ajuda, não de teoria.
Se não entender a teoria, vai sempre precisar de ajuda...
Harry pegou o telefone, discou o número de Nancy.
Alô? – ela atendeu.
É Harry.
Oh.
Eu soube que você foi passada pra trás no México. Ele pegou tudo?
Ah, isso...
Um toureiro espanhol desbotado, não foi?
Com os olhos mais lindos. Não como os seus. Ninguém pode ver seus olhos.
Não quero que ninguém veja meus olhos.
Por que não?
Se vissem o que estou pensando, eu não podia enganar ninguém.
Então, me ligou pra dizer que está andando de viseira?
Você sabe disso. Eu liguei pra dizer que Paul quer que você volte. Isso lhe ajuda de algum modo?
Não.
Foi o que eu pensei.
Ele ligou mesmo pra você?
Ligou.
Oh, eu estou com um novo cara agora. É maravilhoso!
Eu disse a Paul que você provavelmente estava interessada em outra pessoa.
Como você sabia?
Eu sabia.
Harry?
Sim, boneca?
Vai te foder...
Nancy desligou.

Ora veja, ele pensou, eu tento bancar o pacificador e os dois ficam putos. Harry entrou no banheiro e olhou seu rosto no espelho. Deus do céu, tinha um rosto bondoso. Será que ninguém via isso? Compreensivo. Nobreza. Localizou um cravo perto do nariz. Espremeu. Ele saiu, negro e lindo, trazendo uma cauda amarela de pus. A grande sacada, pensou, está em compreender homens e mulheres. Rolou o cravo e o pus entre os dedos. Ou talvez estivesse na capacidade de matar sem ligar. Sentou-se para dar uma cagada enquanto pensava no assunto.

Charles Bukowski, in Numa Fria

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