Ora,
direis, como se podem perder coisas num universo tão estreito? E eu
vos direi, no entanto, que nenhum universo pode ser estreito.
Perguntai aos microscópios. É que me lembrei agora de Dona Vituca,
no seu leito de morte, onde ela viveu tão longo tempo, e de onde
fazia, às vezes, um escarcéu medonho com a criadinha atarantada:
— Balbina,
onde é que está meu Santo Antônio?!!
Balbina
afinal descobria o santinho caído entre o colchão e a guarda da
cama.
— Não,
este não. É aquele Santo Antônio rendadinho...
O
qual era enfim descoberto no chão, de encontro à parede, com o
rendilhado retangular sujo ou — supremo horror — rasgado!
Inútil
guardar os santinhos (não se podia dizer mais apropriadamente
“figurinhas” nem a ninguém ocorria fazê-lo), inútil guardá-los
na gaveta da mesa de cabeceira: os santinhos, martirizados com a
cambulhada de carretéis, latas de pastilhas, ovos de costura,
acabavam sempre sumindo pelos fundos.
Certa
vez arranjei, para eles, uma caixa vazia de charutos. Tinha um belo
perfume de havana. Mas parece que esse não era um odor de santidade.
Jamais me esquecerei do olhar que me lançou Dona Vituca. Seus lábios
moveram-se para falar, mas imobilizaram-se de súbito. Comigo não
valia a pena, comigo não adiantava, com certeza eu já era um caso
perdido.
Nunca
o saberei, pois acredito que nós dois estaremos (ela já está) em
faixas ou canais diferentes das tevês do outro mundo. Isto me é tão
penoso que resolvo mudar de assunto, citando de passagem a única
coisa que não se perdia no leito de Dona Vituca: o grande álbum de
cartões-postais, cada qual mais lindo como eu os achava então, cada
qual mais horrível como os achei depois. E na verdade não sei como
os acharia agora, mas creio que novamente lindíssimos.
Mário Quintana, in Caderno H
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