Na época da guerra, um coronel recebeu
uma carta da esposa. Ela dizia que estava com muita saudade e pedia
que ele voltasse, porque tinha medo de morrer sem vê-lo. O coronel
logo pediu uma licença; pouco antes disso ele havia recebido uma
condecoração, então o deixaram ir por três dias. Foi de avião,
mas a esposa morreu uma hora antes de sua chegada. Ele chorou,
enterrou a mulher, e estava voltando de trem quando descobriu que
havia perdido a carteirinha do partido. Ele revirou todas as coisas,
retornou à estação de trem, sempre com muita dificuldade, mas nada
encontrou e por fim voltou para casa. Lá, adormeceu e à noite a
esposa apareceu para ele, e disse que a carteirinha do partido estava
ao lado dela no caixão, do lado esquerdo, havia caído quando o
coronel tinha beijado a mulher. Ela também disse ao coronel para ele
não levantar o véu do rosto dela.
O coronel fez o que a esposa lhe disse:
desenterrou o caixão, abriu, encontrou a carteirinha do partido
perto do ombro dela, mas não resistiu e ergueu o véu. A mulher
parecia viva, só na bochecha esquerda havia um vermezinho. O coronel
tirou o vermezinho com a mão, cobriu o rosto da mulher com o véu e
o caixão foi enterrado de novo.
O tempo agora era curto, e ele foi direto
para a pista de pouso. O avião necessário não apareceu, mas de
repente um piloto de macacão chamuscado o chamou de lado e disse que
estava indo exatamente para a mesma região que ele precisava ir, e
que o levaria. O coronel se espantou: como o piloto sabia para onde
ele precisava ir? Então notou que era o mesmo piloto que o havia
levado para a sua casa.
— O que aconteceu com o senhor? —
perguntou o coronel.
— Eu me machuquei um pouco —
respondeu o piloto. — Justamente na viagem
de volta. Mas tudo bem. Vou levar o
senhor, sei para onde precisa ir, é o meu caminho.
Eles voaram à noite. O coronel se sentou
num banco de ferro. Na verdade, ele ficou surpreso de que o avião
pudesse voar. Estava muito avariado por dentro, havia farrapos
pendurados por todo lado, debaixo dos pés rolava algum tronco
chamuscado, havia um cheiro forte de carne queimada. Chegaram muito
rápido, o coronel ainda perguntou de novo se haviam chegado lá
mesmo, e o piloto disse que era exatamente ali.
— Por que seu avião está nesse
estado? — censurou o coronel, e o piloto respondeu que era o
navegador que sempre limpava o avião, mas ele havia queimado fazia
pouco tempo. E começou a arrastar para fora do avião o tronco
chamuscado com as palavras:
— Este é o meu navegador.
O avião estava numa clareira, e em volta
dele vagavam feridos. Havia mato por todo lado, uma fogueira queimava
ao longe, entre carros e canhões destruídos tinha gente sentada e
deitada, uns de pé, uns andando no meio dos outros.
— Mas que droga! — gritou o coronel.
— Para onde você me trouxe, seu miserável? Este é o meu campo de
pouso, por acaso?
— Agora esta é a sua unidade —
respondeu o piloto. — Trouxe o senhor para o lugar de onde o levei.
O coronel entendeu que seu regimento
estava sob cerco, totalmente derrotado, todos mortos ou feridos, e
amaldiçoou tudo no planeta, inclusive o piloto, que ainda por cima
brincava com o tronco que chamava de navegador e pedia que levantasse
e andasse.
— Ora essa, vamos começar a evacuação
— disse o coronel. — Primeiro os papéis do estado-maior, a
bandeira do regimento e principalmente os feridos em estado grave.
— O avião já não voa mais para lugar
nenhum — observou o piloto.
O coronel sacou a pistola e disse que
fuzilaria o piloto ali mesmo pelo não cumprimento de uma ordem. Mas
o piloto ficou assobiando e pondo o tronco de pé o tempo todo, ora
de um lado, ora de outro, sobre a terra, dizendo as palavras: “Venha,
vamos”.
O coronel atirou mas pelo visto não
acertou, porque o piloto continuou a resmungar seu “Vamos, vamos”,
e enquanto isso o barulho de carros podia ser ouvido, e uma fileira
de caminhões alemães com soldados ocupou a clareira.
O coronel se escondeu no capim atrás de
uma colina, os veículos andavam e andavam, mas não houve nenhum
tiro, comando ou parada dos motores. Dez minutos depois os carros
passaram, o coronel levantou a cabeça — e o piloto brincava com o
tronco chamuscado do mesmo jeito; ao longe, perto da fogueira, as
pessoas estavam sentadas, deitadas ou vagando. O coronel se levantou
e foi até a fogueira. Ele não reconheceu ninguém em volta, aquele
não era de forma alguma o regimento dele, ali havia infantaria,
artilheiros e sabe Deus o que mais, todos com os uniformes rasgados,
com feridas abertas nos braços, nas pernas, barriga. Só os rostos
estavam limpos. As pessoas trocavam palavras em voz baixa. Bem perto
da fogueira, de costas para o coronel, havia uma mulher em trajes
civis pretos com lenço na cabeça.
— Quem tiver patente superior, por
favor, me informe a situação — disse o coronel.
Ninguém se mexeu, ninguém prestou
atenção para o fato de que o coronel começou a atirar, mas quando
o piloto rolou o tronco queimado até a fogueira, todos ajudaram a
carregar aquele “navegador”, como o piloto o chamava, para a
fogueira e com ele apagaram as chamas. Ficou totalmente escuro.
O coronel tremia inteiro de frio e
começou a praguejar: agora a gente não ia se aquecer de jeito
nenhum, com aquele tronco o fogo não ia pegar.
E então a mulher, sem se voltar, disse:
— Por que você foi olhar para mim, por
que levantou o véu? Agora seu braço vai murchar.
Era a voz da esposa.
O coronel perdeu a consciência, e quando
voltou a si viu que estava no hospital. Disseram a ele que o haviam
encontrado no cemitério, perto do túmulo da esposa, e que o braço
sobre o qual estava deitado ficara seriamente comprometido e agora,
possivelmente, ficaria murcho.
Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores
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