sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O braço


Na época da guerra, um coronel recebeu uma carta da esposa. Ela dizia que estava com muita saudade e pedia que ele voltasse, porque tinha medo de morrer sem vê-lo. O coronel logo pediu uma licença; pouco antes disso ele havia recebido uma condecoração, então o deixaram ir por três dias. Foi de avião, mas a esposa morreu uma hora antes de sua chegada. Ele chorou, enterrou a mulher, e estava voltando de trem quando descobriu que havia perdido a carteirinha do partido. Ele revirou todas as coisas, retornou à estação de trem, sempre com muita dificuldade, mas nada encontrou e por fim voltou para casa. Lá, adormeceu e à noite a esposa apareceu para ele, e disse que a carteirinha do partido estava ao lado dela no caixão, do lado esquerdo, havia caído quando o coronel tinha beijado a mulher. Ela também disse ao coronel para ele não levantar o véu do rosto dela.
O coronel fez o que a esposa lhe disse: desenterrou o caixão, abriu, encontrou a carteirinha do partido perto do ombro dela, mas não resistiu e ergueu o véu. A mulher parecia viva, só na bochecha esquerda havia um vermezinho. O coronel tirou o vermezinho com a mão, cobriu o rosto da mulher com o véu e o caixão foi enterrado de novo.
O tempo agora era curto, e ele foi direto para a pista de pouso. O avião necessário não apareceu, mas de repente um piloto de macacão chamuscado o chamou de lado e disse que estava indo exatamente para a mesma região que ele precisava ir, e que o levaria. O coronel se espantou: como o piloto sabia para onde ele precisava ir? Então notou que era o mesmo piloto que o havia levado para a sua casa.
O que aconteceu com o senhor? — perguntou o coronel.
Eu me machuquei um pouco — respondeu o piloto. — Justamente na viagem
de volta. Mas tudo bem. Vou levar o senhor, sei para onde precisa ir, é o meu caminho.
Eles voaram à noite. O coronel se sentou num banco de ferro. Na verdade, ele ficou surpreso de que o avião pudesse voar. Estava muito avariado por dentro, havia farrapos pendurados por todo lado, debaixo dos pés rolava algum tronco chamuscado, havia um cheiro forte de carne queimada. Chegaram muito rápido, o coronel ainda perguntou de novo se haviam chegado lá mesmo, e o piloto disse que era exatamente ali.
Por que seu avião está nesse estado? — censurou o coronel, e o piloto respondeu que era o navegador que sempre limpava o avião, mas ele havia queimado fazia pouco tempo. E começou a arrastar para fora do avião o tronco chamuscado com as palavras:
Este é o meu navegador.
O avião estava numa clareira, e em volta dele vagavam feridos. Havia mato por todo lado, uma fogueira queimava ao longe, entre carros e canhões destruídos tinha gente sentada e deitada, uns de pé, uns andando no meio dos outros.
Mas que droga! — gritou o coronel. — Para onde você me trouxe, seu miserável? Este é o meu campo de pouso, por acaso?
Agora esta é a sua unidade — respondeu o piloto. — Trouxe o senhor para o lugar de onde o levei.
O coronel entendeu que seu regimento estava sob cerco, totalmente derrotado, todos mortos ou feridos, e amaldiçoou tudo no planeta, inclusive o piloto, que ainda por cima brincava com o tronco que chamava de navegador e pedia que levantasse e andasse.
Ora essa, vamos começar a evacuação — disse o coronel. — Primeiro os papéis do estado-maior, a bandeira do regimento e principalmente os feridos em estado grave.
O avião já não voa mais para lugar nenhum — observou o piloto.
O coronel sacou a pistola e disse que fuzilaria o piloto ali mesmo pelo não cumprimento de uma ordem. Mas o piloto ficou assobiando e pondo o tronco de pé o tempo todo, ora de um lado, ora de outro, sobre a terra, dizendo as palavras: “Venha, vamos”.
O coronel atirou mas pelo visto não acertou, porque o piloto continuou a resmungar seu “Vamos, vamos”, e enquanto isso o barulho de carros podia ser ouvido, e uma fileira de caminhões alemães com soldados ocupou a clareira.
O coronel se escondeu no capim atrás de uma colina, os veículos andavam e andavam, mas não houve nenhum tiro, comando ou parada dos motores. Dez minutos depois os carros passaram, o coronel levantou a cabeça — e o piloto brincava com o tronco chamuscado do mesmo jeito; ao longe, perto da fogueira, as pessoas estavam sentadas, deitadas ou vagando. O coronel se levantou e foi até a fogueira. Ele não reconheceu ninguém em volta, aquele não era de forma alguma o regimento dele, ali havia infantaria, artilheiros e sabe Deus o que mais, todos com os uniformes rasgados, com feridas abertas nos braços, nas pernas, barriga. Só os rostos estavam limpos. As pessoas trocavam palavras em voz baixa. Bem perto da fogueira, de costas para o coronel, havia uma mulher em trajes civis pretos com lenço na cabeça.
Quem tiver patente superior, por favor, me informe a situação — disse o coronel.
Ninguém se mexeu, ninguém prestou atenção para o fato de que o coronel começou a atirar, mas quando o piloto rolou o tronco queimado até a fogueira, todos ajudaram a carregar aquele “navegador”, como o piloto o chamava, para a fogueira e com ele apagaram as chamas. Ficou totalmente escuro.
O coronel tremia inteiro de frio e começou a praguejar: agora a gente não ia se aquecer de jeito nenhum, com aquele tronco o fogo não ia pegar.
E então a mulher, sem se voltar, disse:
Por que você foi olhar para mim, por que levantou o véu? Agora seu braço vai murchar.
Era a voz da esposa.
O coronel perdeu a consciência, e quando voltou a si viu que estava no hospital. Disseram a ele que o haviam encontrado no cemitério, perto do túmulo da esposa, e que o braço sobre o qual estava deitado ficara seriamente comprometido e agora, possivelmente, ficaria murcho.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores

Nenhum comentário:

Postar um comentário