sábado, 11 de dezembro de 2021

Disfarçada de peregrina

Blue se aproxima do templo disfarçada de peregrina: cabelo raspado para mostrar o brilho dos circuitos enrolados em torno das orelhas e subindo pelo escalpo, olhos protegidos, a boca uma nódoa de cromo resplandecente, pálpebras de cromo pesado. Ela usa antigas teclas de uma máquina de escrever na ponta dos dedos, em veneração ao grande deus Hack, e seus braços estão ornamentados em espirais de ouro, prata, paládio, cintilando forte contra sua pele escura.
Vista de cima, ela é uma entre milhares, indistinguível entre os corpos se esbarrando e arrastando-se em direção ao templo: um poço cavado no centro de um vasto pavilhão ensolarado. Ninguém entra: tal calor reverente murcharia o deus deles em sua videira de silício.
Mas ela precisa chegar lá dentro.
Blue tamborila seus dedos de teclas um contra o outro com a precisão de uma dançarina. A, C, G, T, para trás e para a frente, bifurcados, reunidos. As sequências de ritmo percussivo geram do nada um malware, que ela vem desenvolvendo há gerações, um organismo espalhando tentáculos invisíveis pela rede neural daquela sociedade, inofensivo até ser executado.
Ela estala os dedos. Uma faísca se acende entre eles.
Os peregrinos — todos os dez mil, todos de uma vez — colapsam, perfeitamente silenciosos, em um enorme monte ornamentado.
Ela ouve os chiados e estouros dos circuitos superaquecidos causando falhas na ignição de cérebros filigranados e caminha pacificamente entre os peregrinos incapacitados, os membros trêmulos deles batendo como ondas suaves em seus tornozelos.
Blue acha muito divertido que, ao desabilitar o templo, ao montar esse ataque, ela mesma tenha realizado um ato de devoção ao deus deles.
Ela tem dez minutos para navegar o labirinto do templo: descer a escada de serviço uma mão após a outra, depois uma palma contra a parede escura e seca para seguir suas linhas quebradas até um centro. Está frio no subsolo, mais frio em sua pele nua, mais frio quanto mais fundo desce, e ela treme, mas não reduz a velocidade.
No centro há uma tela quadrangular, que se ilumina quando Blue se aproxima.
Olá, eu sou o Mackint…
Quieta, Siri. Estou aqui pelas charadas.
Olhos e uma boca — não se pode exatamente chamar de face — animam a tela, encarando-a seriamente.
Muito bem. Como se calcula a hipotenusa de um triângulo retângulo?
Blue inclina a cabeça, imóvel, exceto pelos dedos se flexionando ao lado do corpo. Ela limpa a garganta.
— “Era briluz, e as lesmolisas touvas/ roldavam e reviam nos gramilvos…”
A tela de Siri pisca com estática antes de perguntar:
Qual é o valor de pi em sessenta e duas casas decimais?
— “O junco à beira do lago já secou,/ E nenhum pássaro canta.”
Um punhado de neve cai pela face de Siri.
Se o trem A sai de Toronto às seis da tarde viajando para o leste a cem quilômetros por hora, e o trem B sai de Ottawa às sete da noite viajando para o oeste a cento e vinte quilômetros por hora, quando eles irão se cruzar?
— “Veja! O encanto agora trabalha ao seu redor,/ E a corrente sem tinido te atou;/ Sobre teu coração e cérebro juntos/ A palavra foi passada — agora murche!”
Um flash de luz: Siri desliga.
Além disso — acrescenta Blue, aproximando-se gentilmente da tela, erguendo-a para colocá-la na pesada bolsa ao lado —, Ontário é um saco. Como diz o profeta.
A tela pisca de novo; ela dá um passo atrás, assustada. Palavras rolam pela superfície e, enquanto elas sobem, os olhos de Blue se arregalam e a luz branco-azulada da tela se reflete na pintura cromada de sua boca, que se abre, lentamente, em um sorriso feroz.
Ela bate as teclas uma última vez antes de arrancá-las de seus dedos, arrancar o brilho da boca, o metal de seus braços. Ao dar um passo para dentro da trança, a pilha de ornamentos encolhe, enferruja, esfarela, indistinguível da areia fina do chão da caverna. A rastreadora, em seu encalço, distingue cada grão.

Amal El-Mohtar & Max Gladstone, in É assim que se perde a guerra do tempo

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