Blue se aproxima do templo disfarçada de
peregrina: cabelo raspado para mostrar o brilho dos circuitos
enrolados em torno das orelhas e subindo pelo escalpo, olhos
protegidos, a boca uma nódoa de cromo resplandecente, pálpebras de
cromo pesado. Ela usa antigas teclas de uma máquina de escrever na
ponta dos dedos, em veneração ao grande deus Hack, e seus braços
estão ornamentados em espirais de ouro, prata, paládio, cintilando
forte contra sua pele escura.
Vista de cima, ela é uma entre milhares,
indistinguível entre os corpos se esbarrando e arrastando-se em
direção ao templo: um poço cavado no centro de um vasto pavilhão
ensolarado. Ninguém entra: tal calor reverente murcharia o deus
deles em sua videira de silício.
Mas ela precisa chegar lá dentro.
Blue tamborila seus dedos de teclas um
contra o outro com a precisão de uma dançarina. A, C, G, T, para
trás e para a frente, bifurcados, reunidos. As sequências de ritmo
percussivo geram do nada um malware, que ela vem desenvolvendo há
gerações, um organismo espalhando tentáculos invisíveis pela rede
neural daquela sociedade, inofensivo até ser executado.
Ela estala os dedos. Uma faísca se
acende entre eles.
Os peregrinos — todos os dez mil, todos
de uma vez — colapsam, perfeitamente silenciosos, em um enorme
monte ornamentado.
Ela ouve os chiados e estouros dos
circuitos superaquecidos causando falhas na ignição de cérebros
filigranados e caminha pacificamente entre os peregrinos
incapacitados, os membros trêmulos deles batendo como ondas suaves
em seus tornozelos.
Blue acha muito divertido que, ao
desabilitar o templo, ao montar esse ataque, ela mesma tenha
realizado um ato de devoção ao deus deles.
Ela tem dez minutos para navegar o
labirinto do templo: descer a escada de serviço uma mão após a
outra, depois uma palma contra a parede escura e seca para seguir
suas linhas quebradas até um centro. Está frio no subsolo, mais
frio em sua pele nua, mais frio quanto mais fundo desce, e ela treme,
mas não reduz a velocidade.
No centro há uma tela quadrangular, que
se ilumina quando Blue se aproxima.
— Olá, eu sou o Mackint…
— Quieta, Siri. Estou aqui pelas
charadas.
Olhos e uma boca — não se pode
exatamente chamar de face — animam a tela, encarando-a seriamente.
— Muito bem. Como se calcula a
hipotenusa de um triângulo retângulo?
Blue inclina a cabeça, imóvel, exceto
pelos dedos se flexionando ao lado do corpo. Ela limpa a garganta.
— “Era briluz, e as lesmolisas
touvas/ roldavam e reviam nos gramilvos…”
A tela de Siri pisca com estática antes
de perguntar:
— Qual é o valor de pi em sessenta e
duas casas decimais?
— “O junco à beira do lago já
secou,/ E nenhum pássaro canta.”
Um punhado de neve cai pela face de Siri.
— Se o trem A sai de Toronto às seis
da tarde viajando para o leste a cem quilômetros por hora, e o trem
B sai de Ottawa às sete da noite viajando para o oeste a cento e
vinte quilômetros por hora, quando eles irão se cruzar?
— “Veja! O encanto agora trabalha ao
seu redor,/ E a corrente sem tinido te atou;/ Sobre teu coração e
cérebro juntos/ A palavra foi passada — agora murche!”
Um flash de luz: Siri desliga.
— Além disso — acrescenta Blue,
aproximando-se gentilmente da tela, erguendo-a para colocá-la na
pesada bolsa ao lado —, Ontário é um saco. Como diz o profeta.
A tela pisca de novo; ela dá um passo
atrás, assustada. Palavras rolam pela superfície e, enquanto elas
sobem, os olhos de Blue se arregalam e a luz branco-azulada da tela
se reflete na pintura cromada de sua boca, que se abre, lentamente,
em um sorriso feroz.
Ela bate as teclas uma última vez antes
de arrancá-las de seus dedos, arrancar o brilho da boca, o metal de
seus braços. Ao dar um passo para dentro da trança, a pilha de
ornamentos encolhe, enferruja, esfarela, indistinguível da areia
fina do chão da caverna. A rastreadora, em seu encalço, distingue
cada grão.
Amal El-Mohtar & Max Gladstone, in É assim que se perde a guerra do tempo
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