sábado, 11 de dezembro de 2021

Contraste entre Michelo e Mad Jack

Tendo passado brevemente em revista as grandes divisões de um navio de guerra, aprofundemo-nos em suas especificidades, em particular dois lugares-tenentes recém-formados; nobres rapazes; membros daquela Câmara dos Lordes que é a praça-d’armas. Havia muitos jovens lugares-tenentes a bordo; porém, é da natureza desses dois — representantes dos extremos de personalidade a serem encontrados em sua seção — que devemos derivar a natureza dos demais oficiais de tal patente a bordo do Neversink.
Um desses dois aristocratas do tombadilho era conhecido entre os marinheiros pelo apelido que estes lhe deram, Michelo. Evidentemente, a intenção era marcar uma característica do portador; e assim a alcunha funcionava.
Nas fragatas, bem como em todos os grandes navios de guerra, quando se aparelha a embarcação para partir, cabe ao cabo de ala e larga transmitir a tensão da amarra ao cabrestante; de modo que se possa levantar âncora sem que o poderoso cabo coberto de lodo se enrole, ele próprio, no cabrestante. À medida que a amarra da âncora entra pelo escovém, portanto, algo precisa ser constantemente utilizado para mantê-la ligada ao cabo de ala e larga, ambos em movimento; algo que possa ser rapidamente enrolado em torno de ambos, mantendo-os unidos. Este é o michelo. E o que poderia ser adaptado a tal uso? Uma gaxeta leve, afilada e lisa preparada com muito cuidado; particularmente flexível; que se enrola ao redor da amarra e do cabo de ala e larga como uma cobra elegantemente modelada ao redor dos ramos entrelaçados de uma vinha. De fato, Michelo era o tipo e o símbolo exatos de uma alta, nobre, flexível e espiralada beleza. Daí a derivação do nome que os marinheiros aplicavam ao lugar-tenente.
De que alcova marinha, de que chapelaria de sereia você emergiu, Michelo, com seu rosto pálido e cintura delicada? Que madrasta desalmada o expulsou de casa para desperdiçar seus perfumes nos ventos salinos do mar?
Foi você, Michelo, que, mirando para além da amurada, na costa do cabo Horn, observou a ilha de Hermite através de binóculos de ópera? Foi você quem pensou em propor ao capitão que, quando as velas fossem ferradas em meio a uma tempestade, se depositassem gotas de lavanda nos “seios de vela”, de modo que, novamente desferrados os panos, suas narinas não se ofendessem com o bafio? Não digo que tenha sido, Michelo; apenas pergunto respeitosamente.
Em suma: Michelo era um daqueles oficiais que, na infância, encantavam-se com a visão de um casaco naval bem cortado. Imaginou ele que, se um oficial da Marinha se vestisse bem e conversasse com educação, faria justiça a sua bandeira e imortalizaria o alfaiate que o tivesse trajado. Nesse rochedo, muitos jovens cavalheiros perderam a vida. Pois, no tombadilho de uma fragata, não basta ostentar um casaco desenhado por Stultz; nem estar reforçado de suspensórios e cintas; tampouco trazer consigo as mais doces lembranças de Lauras e Matildas. É, em sua inteireza, uma vida feita de perdas e danos, e o homem que não estiver apto o bastante a se tornar um segundo marinheiro jamais fará um oficial. Guardem isso no fundo de seus corações, candidatos à Marinha. Mergulhem os braços inteiros no piche e vejam se gostam, antes de se alistarem. Preparem-se para borrascas, tufões e violentas tempestades; leiam relatos de naufrágios e terríveis desastres; atentem às narrativas de Byron e Bligh; estejam a par das histórias da fragata inglesa Alceste e da francesa Medusa. Embora, vez por outra, terminem por aportar em belas cidades como Cádiz e Palermo; a cada dia vivido em meio a belas moças e laranjeiras, experimentarão meses inteiros de chuvas e tempestades.
A nada disso Michelo escapou. Com toda a intrépida feminilidade do verdadeiro dândi que era, porém, não deixou de tomar seus banhos de água-de-colônia e exibir seus lenços bordados no calor das tempestades. Ai, Michelo! O que seria capaz de tirar a lavanda de você?
Michelo, contudo, pouco tinha de idiota. Ele conhecia a profissão em termos teóricos; entretanto, a simples teoria náutica não é mais do que a milionésima parte do que faz um marinheiro. Não se salva um navio resolvendo uma equação na cabine; o convés é o campo de batalha.
Consciente de sua deficiência em alguns pontos, Michelo jamais tomou do porta-voz — à época, reservado unicamente aos oficiais de convés — sem um tremor de lábios e olhares preocupados dirigidos a barlavento. Ele incentivava nossos velhos Tritões,68 os quartéis-mestres, a falar-lhe com minúcia sobre os sinais de um vendaval; e não raro seguia os conselhos de tais homens para anunciar o recolher ou envergar dos panos. Os menores favores nesse sentido não eram recebidos sem gratidão. Às vezes, quando todo o céu ao norte parecia estranhamente carregar-se, ele procurava, sob rodeios e lisonjas, prolongar a permanência de seu predecessor no convés, mesmo que o turno deste se tivesse encerrado. Em dia de tempo firme, porém, quando o capitão emergia da cabine, lá se via Michelo, caminhando pela popa a passos largos e incansáveis, lançando olhares ao alto dos mastros com a mais ostensiva diligência.
Inúteis, contudo, eram suas pretensões; quem ele era capaz de enganar? Michelo!
Você sabe muito bem que, tão logo começa a ventania, o primeiro lugar-tenente intervirá com sua autoridade paternal. Todo praça e todo pajem da fragata sabe, Michelo, que você está longe de ser um Netuno!
É uma situação de não despertar inveja! Seus companheiros oficiais não o insultam, claro; mas, vez por outra, os olhares que lhe lançam são verdadeiras adagas. Os marinheiros não se riem diante dele; entretanto, em noites escuras, não perdem a oportunidade de caçoar, quando o escutam ordenar, com sua voz de mocinha tecelã, que se puxe com força o estai principal ou que acorramos às adriças! Às vezes, com o único intuito de parecer desagradável e assustar a marujada, Michelo vocifera alguma imprecação; mas a bomba delicada, recheada de beijinhos de chocolate, parece explodir como um botão de rosa esmagado do qual emanam perfumes. Michelo! Michelo! Aceite este conselho de um gajeiro de mastro principal — terminada a viagem, esqueça o mar.
Que forte contraste há entre este cavalheiro tão preocupado com gravatas e cabelos frisados e outro nascido num vendaval! Pois deve ter sido em tempo de procela — nas imediações da costa do cabo Horn ou de Hatteras — que Mad Jack veio ao mundo, não em berço de ouro, mas com um porta-voz à boca; empelicado como se estivesse envolto em vela — pois, em sua vida abençoada, está protegido contra naufrágios —, e gritando: “À bolina! À bolina! Firme! Porto! Mundo, eis-me aqui!”.
No mar, Mad Jack tinha tudo sob controle. Esse era seu lar; nem sequer se importaria muito se outro Dilúvio viesse a cobrir a terra firme; pois que outra coisa aconteceria, senão que seu bom navio flutuaria mais alto, levando a bandeira de sua orgulhosa nação ao redor do mundo por sobre as capitais de todas as nações hostis! Assim, os mastros superariam os pináculos; e toda a humanidade, como os barqueiros chineses do rio Cantão, viveria em armadas e flotilhas buscando sua comida no mar.
Mad Jack foi criado e educado para ser um marinheiro. Um metro e setenta e cinco de altura, em meias; e antes do jantar não pesava mais que setenta quilos. Como os muitos ovéns de um navio, seus músculos e tendões estavam todos em perfeita ordem, retesados, prontos para zarpar; como um navio ao vento, seus estais estavam fixos de proa a popa. Forte, seu peito era como um tabique a conter o vendaval; aquilino, o nariz dividia-lhe o rosto em dois como uma quilha. Seus pulmões eram sonoros e vigorosos como dois campanários, soando como se trouxessem consigo toda sorte de carrilhão; mas você só o escutaria em seu mais profundo ressoar no ápice da tempestade — como o grande sino da catedral de São Paulo, que dobra apenas quando morre o rei ou o demônio.
Olhe só para ele, parado à popa — um dos pés sobre a amurada, uma das mãos num ovém —, a cabeça lançada para trás, e o porta-voz como a tromba de um elefante erguida ao ar. Pretende ele alvejar com balas de som os rapazes da verga da vela de mezena grande?
Mad Jack era um pouco tirânico — dizem que todos os bons oficiais o são —, mas toda a marujada lhe tinha apreço; e preferiria realizar cinquenta turnos sob suas ordens a um somente com um marinheiro que cheirasse a água de rosas.
Mas Mad Jack, ai!, tem um terrível problema. Ele bebe. Bem, todos bebemos. Mas Mad Jack, ele só bebe conhaque. Era um vício inveterado; como Ferdinand, o conde Fathom, ele decerto mamou num barril. Com muita frequência, o hábito o fazia passar maus e sérios bocados. Por duas vezes foi suspenso pelo comodoro; e, uma vez, chegou perto de sofrer punições físicas por suas brincadeiras. No que se referia a sua eficiência como oficial, ao menos em terra firme Jack podia encher a cara tanto quanto quisesse; em alto-mar, porém, isso era terminantemente proibido.
Ora, se ele pelo menos seguisse o sábio exemplo dado por aqueles navios do deserto, os camelos, e, uma vez no porto, bebesse pela sede passada, a sede presente e a sede vindoura — de modo que pudesse cruzar o oceano sóbrio —, caso o fizesse, Mad Jack teria ido muito bem. Ainda melhor se evitasse o conhaque de todo e apenas bebesse do límpido vinho branco de arroios e regatos.

Herman Melville, in Jaqueta Branca

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