Tendo passado brevemente em revista as
grandes divisões de um navio de guerra, aprofundemo-nos em suas
especificidades, em particular dois lugares-tenentes recém-formados;
nobres rapazes; membros daquela Câmara dos Lordes que é a
praça-d’armas. Havia muitos jovens lugares-tenentes a bordo;
porém, é da natureza desses dois — representantes dos extremos de
personalidade a serem encontrados em sua seção — que devemos
derivar a natureza dos demais oficiais de tal patente a bordo do
Neversink.
Um desses dois aristocratas do tombadilho
era conhecido entre os marinheiros pelo apelido que estes lhe deram,
Michelo. Evidentemente, a intenção era marcar uma característica
do portador; e assim a alcunha funcionava.
Nas fragatas, bem como em todos os
grandes navios de guerra, quando se aparelha a embarcação para
partir, cabe ao cabo de ala e larga transmitir a tensão da amarra ao
cabrestante; de modo que se possa levantar âncora sem que o poderoso
cabo coberto de lodo se enrole, ele próprio, no cabrestante. À
medida que a amarra da âncora entra pelo escovém, portanto, algo
precisa ser constantemente utilizado para mantê-la ligada ao cabo de
ala e larga, ambos em movimento; algo que possa ser rapidamente
enrolado em torno de ambos, mantendo-os unidos. Este é o michelo. E
o que poderia ser adaptado a tal uso? Uma gaxeta leve, afilada e lisa
preparada com muito cuidado; particularmente flexível; que se enrola
ao redor da amarra e do cabo de ala e larga como uma cobra
elegantemente modelada ao redor dos ramos entrelaçados de uma vinha.
De fato, Michelo era o tipo e o símbolo exatos de uma alta, nobre,
flexível e espiralada beleza. Daí a derivação do nome que os
marinheiros aplicavam ao lugar-tenente.
De que alcova marinha, de que chapelaria
de sereia você emergiu, Michelo, com seu rosto pálido e cintura
delicada? Que madrasta desalmada o expulsou de casa para desperdiçar
seus perfumes nos ventos salinos do mar?
Foi você, Michelo, que, mirando
para além da amurada, na costa do cabo Horn, observou a ilha de
Hermite através de binóculos de ópera? Foi você quem
pensou em propor ao capitão que, quando as velas fossem ferradas em
meio a uma tempestade, se depositassem gotas de lavanda nos “seios
de vela”, de modo que, novamente desferrados os panos, suas narinas
não se ofendessem com o bafio? Não digo que tenha sido,
Michelo; apenas pergunto respeitosamente.
Em suma: Michelo era um daqueles oficiais
que, na infância, encantavam-se com a visão de um casaco naval bem
cortado. Imaginou ele que, se um oficial da Marinha se vestisse bem e
conversasse com educação, faria justiça a sua bandeira e
imortalizaria o alfaiate que o tivesse trajado. Nesse rochedo, muitos
jovens cavalheiros perderam a vida. Pois, no tombadilho de uma
fragata, não basta ostentar um casaco desenhado por Stultz; nem
estar reforçado de suspensórios e cintas; tampouco trazer consigo
as mais doces lembranças de Lauras e Matildas. É, em sua inteireza,
uma vida feita de perdas e danos, e o homem que não estiver apto o
bastante a se tornar um segundo marinheiro jamais fará um oficial.
Guardem isso no fundo de seus corações, candidatos à Marinha.
Mergulhem os braços inteiros no piche e vejam se gostam, antes de se
alistarem. Preparem-se para borrascas, tufões e violentas
tempestades; leiam relatos de naufrágios e terríveis desastres;
atentem às narrativas de Byron e Bligh; estejam a par das histórias
da fragata inglesa Alceste e da francesa Medusa.
Embora, vez por outra, terminem por aportar em belas cidades como
Cádiz e Palermo; a cada dia vivido em meio a belas moças e
laranjeiras, experimentarão meses inteiros de chuvas e tempestades.
A nada disso Michelo escapou. Com toda a
intrépida feminilidade do verdadeiro dândi que era, porém, não
deixou de tomar seus banhos de água-de-colônia e exibir seus lenços
bordados no calor das tempestades. Ai, Michelo! O que seria capaz de
tirar a lavanda de você?
Michelo, contudo, pouco tinha de idiota.
Ele conhecia a profissão em termos teóricos; entretanto, a simples
teoria náutica não é mais do que a milionésima parte do que faz
um marinheiro. Não se salva um navio resolvendo uma equação na
cabine; o convés é o campo de batalha.
Consciente de sua deficiência em alguns
pontos, Michelo jamais tomou do porta-voz — à época, reservado
unicamente aos oficiais de convés — sem um tremor de lábios e
olhares preocupados dirigidos a barlavento. Ele incentivava nossos
velhos Tritões,68 os quartéis-mestres, a falar-lhe com minúcia
sobre os sinais de um vendaval; e não raro seguia os conselhos de
tais homens para anunciar o recolher ou envergar dos panos. Os
menores favores nesse sentido não eram recebidos sem gratidão. Às
vezes, quando todo o céu ao norte parecia estranhamente carregar-se,
ele procurava, sob rodeios e lisonjas, prolongar a permanência de
seu predecessor no convés, mesmo que o turno deste se tivesse
encerrado. Em dia de tempo firme, porém, quando o capitão emergia
da cabine, lá se via Michelo, caminhando pela popa a passos largos e
incansáveis, lançando olhares ao alto dos mastros com a mais
ostensiva diligência.
Inúteis, contudo, eram suas pretensões;
quem ele era capaz de enganar? Michelo!
Você sabe muito bem que, tão logo
começa a ventania, o primeiro lugar-tenente intervirá com sua
autoridade paternal. Todo praça e todo pajem da fragata sabe,
Michelo, que você está longe de ser um Netuno!
É uma situação de não despertar
inveja! Seus companheiros oficiais não o insultam, claro; mas, vez
por outra, os olhares que lhe lançam são verdadeiras adagas. Os
marinheiros não se riem diante dele; entretanto, em noites escuras,
não perdem a oportunidade de caçoar, quando o escutam ordenar, com
sua voz de mocinha tecelã, que se puxe com força o estai
principal ou que acorramos às adriças! Às vezes, com o
único intuito de parecer desagradável e assustar a marujada,
Michelo vocifera alguma imprecação; mas a bomba delicada, recheada
de beijinhos de chocolate, parece explodir como um botão de rosa
esmagado do qual emanam perfumes. Michelo! Michelo! Aceite este
conselho de um gajeiro de mastro principal — terminada a viagem,
esqueça o mar.
Que forte contraste há entre este
cavalheiro tão preocupado com gravatas e cabelos frisados e outro
nascido num vendaval! Pois deve ter sido em tempo de procela — nas
imediações da costa do cabo Horn ou de Hatteras — que Mad Jack
veio ao mundo, não em berço de ouro, mas com um porta-voz à boca;
empelicado como se estivesse envolto em vela — pois, em sua vida
abençoada, está protegido contra naufrágios —, e gritando: “À
bolina! À bolina! Firme! Porto! Mundo, eis-me aqui!”.
No mar, Mad Jack tinha tudo sob controle.
Esse era seu lar; nem sequer se importaria muito se outro
Dilúvio viesse a cobrir a terra firme; pois que outra coisa
aconteceria, senão que seu bom navio flutuaria mais alto, levando a
bandeira de sua orgulhosa nação ao redor do mundo por sobre as
capitais de todas as nações hostis! Assim, os mastros superariam os
pináculos; e toda a humanidade, como os barqueiros chineses do rio
Cantão, viveria em armadas e flotilhas buscando sua comida no mar.
Mad Jack foi criado e educado para ser um
marinheiro. Um metro e setenta e cinco de altura, em meias; e antes
do jantar não pesava mais que setenta quilos. Como os muitos ovéns
de um navio, seus músculos e tendões estavam todos em perfeita
ordem, retesados, prontos para zarpar; como um navio ao vento, seus
estais estavam fixos de proa a popa. Forte, seu peito era como um
tabique a conter o vendaval; aquilino, o nariz dividia-lhe o rosto em
dois como uma quilha. Seus pulmões eram sonoros e vigorosos como
dois campanários, soando como se trouxessem consigo toda sorte de
carrilhão; mas você só o escutaria em seu mais profundo ressoar no
ápice da tempestade — como o grande sino da catedral de São
Paulo, que dobra apenas quando morre o rei ou o demônio.
Olhe só para ele, parado à popa — um
dos pés sobre a amurada, uma das mãos num ovém —, a cabeça
lançada para trás, e o porta-voz como a tromba de um elefante
erguida ao ar. Pretende ele alvejar com balas de som os rapazes da
verga da vela de mezena grande?
Mad Jack era um pouco tirânico — dizem
que todos os bons oficiais o são —, mas toda a marujada lhe tinha
apreço; e preferiria realizar cinquenta turnos sob suas ordens a um
somente com um marinheiro que cheirasse a água de rosas.
Mas Mad Jack, ai!, tem um terrível
problema. Ele bebe. Bem, todos bebemos. Mas Mad Jack, ele só bebe
conhaque. Era um vício inveterado; como Ferdinand, o conde Fathom,
ele decerto mamou num barril. Com muita frequência, o hábito o
fazia passar maus e sérios bocados. Por duas vezes foi suspenso pelo
comodoro; e, uma vez, chegou perto de sofrer punições físicas por
suas brincadeiras. No que se referia a sua eficiência como oficial,
ao menos em terra firme Jack podia encher a cara tanto quanto
quisesse; em alto-mar, porém, isso era terminantemente proibido.
Ora, se ele pelo menos seguisse o sábio
exemplo dado por aqueles navios do deserto, os camelos, e, uma vez no
porto, bebesse pela sede passada, a sede presente e a sede vindoura —
de modo que pudesse cruzar o oceano sóbrio —, caso o fizesse, Mad
Jack teria ido muito bem. Ainda melhor se evitasse o conhaque de todo
e apenas bebesse do límpido vinho branco de arroios e regatos.
Herman Melville, in Jaqueta Branca
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