quarta-feira, 7 de abril de 2021

Meu Canavarro! Minha Bubulina!

Em momentos como esses, todas as portas da mulher se abrem, as sentinelas adormecem e uma boa palavra é tão poderosa como o ouro ou o amor. Acendi, portanto, meu cachimbo e pronunciei a boa palavra.
Madame Hortência, você me lembra Sara Bernhardt... Quando ela era jovem. Nunca esperaria encontrar nesse lugar selvagem tanta elegância, graça, beleza e cortesia. Que Shakespeare enviou-a para cá, entre bárbaros?
Shakespeare? — disse ela, abrindo os olhos desbotados. — Que Shakespeare?
Seu pensamento voou, rápido, aos teatros que havia visto, fez num piscar de olhos toda a volta dos cabarés, de Paris a Beirute, de toda a costa da Anatólia, e subitamente lembrou-se: foi em Alexandria, um grande teatro com lustres, poltronas de veludo, homens e mulheres, decotes, perfumes, flores. De repente a cortina se levanta e um negro terrível aparece...
Que Shakespeare? — disse de novo, vaidosa de se haver lembrado: — aquele a quem chamam também Otelo?
Esse mesmo. Que Shakespeare, nobre senhora, jogou-a nesses rochedos selvagens?
Olhou à sua volta. As portas estavam fechadas, o papagaio dormia, os coelhos se entregavam ao mar, estávamos sós.
Emocionada, ela começou a nos abrir seu coração, como se abre um velho cofre repleto de especiarias, bilhetes amorosos amarelecidos, antigas roupagens...
Falava razoavelmente o grego, estropiando as palavras, embrulhando as sílabas. E, no entanto, nós a compreendíamos perfeitamente, embora às vezes fosse difícil reprimir o riso, e outras vezes — já havíamos bebido um pouco — difícil reprimir as lágrimas.
Pois bem (foi mais ou menos assim que falou a velha sereia em seu pátio perfumado), pois bem. Esta que lhes está falando não foi cantora de cabaré, não! Eu era uma artista de renome. Vestia-me com combinações de seda, de rendas verdadeiras. Mas o amor...
Ela suspirou profundamente, e acendeu outro cigarro no de Zorba.
Estava apaixonada por um almirante. Creta estava em plena revolução, e as frotas das grandes potências haviam ancorado no porto de Suda. Alguns dias depois eu também ancorava lá. Ah, que beleza! Vocês deviam ver os quatro almirantes: o inglês, o francês, o italiano e o russo, cobertos de ouro, sapatos de verniz e plumas na cabeça. Uns verdadeiros galos. Grandes galos de oitenta a cem quilos cada um. E que barbas! Frisadas, sedosas, castanhas, louras, grisalhas, pretas, e como cheiravam bem! Cada um tinha um perfume especial, e era assim que eu os distinguia de noite. A Inglaterra cheirava a água-de-colônia, a França a violetas, a Rússia a almíscar e a Itália, ah! A Itália era só âmbar! Que barbas, meu Deus! Que barbas! Às vezes, nós nos reuníamos no navio capitânia e falávamos sobre a revolução. Os uniformes desabotoados, e eu apenas com uma combinação de seda que colava na pele, por que eles a mergulhavam em champanha. Era verão, compreendem. Falava-se então da revolução, conversas sérias, e eu acariciava as barbas e pedia-lhes para não bombardearem os pobres cretenses. A gente podia vê-los pelas escotilhas, sobre um rochedo, perto de Caneia. Pequenos, pequeninos como formigas, com calças azuis e botas amarelas. Gritavam e gritavam com uma bandeira na mão...
A vegetação que fazia de cerca do pátio mexeu-se. A velha combatente parou, aterrorizada. Entre as folhagens, olhos maliciosos brilhavam. A criançada da aldeia havia farejado festança, e nos espiava.
A cantora experimentou levantar-se, mas não conseguiu: havia comido e bebido demais; sentou-se de novo, pesadamente, banhada em suor. Zorba apanhou uma pedra: os garotos fugiram correndo.
Continue, minha querida: continue, meu tesouro! — disse Zorba, aproximando sua cadeira.
Eu dizia então ao almirante italiano, com quem tinha mais liberdade, afagando-lhe a barba: “Meu Canavarro — ele se chamava assim — meu querido Canavarro, não fazer bum! Bum!; não fazer bum! Bum!”-quantas vezes, eu lhes falo, salvei cretenses da morte! Quantas vezes os canhões estavam prontos para atirar e eu, segurando a barba de algum almirante, não o deixava fazer bum! Bum! Mas quem me agradece isso, hoje em dia? Em matéria de condecorações...
Ela estava zangada, a Madame Hortência, com a maldade e a ingratidão dos homens. Bateu na mesa com sua mãozinha gorda e enrugada. E Zorba, estendeu sua mão perita sobre os joelhos distantes, segurou-os fingindo levado pela emoção, e bradou:
Minha Bubulina (Heroína da Guerra da independência — 1821/1828, que combateu valentemente no mar como Canaris e Mionlins) eu te peço, não faz bum! Bum!
Abaixe as patas! — disse nossa boa senhora cacarejando. — por que está me tomando, meu velho?
E ela atirou-lhe um olhar lânguido.
Existe um bom Deus — dizia o velho malandro. Não se entristeça, minha Bubulina. Estamos aqui, não tenha medo.
A velha sereia levantou para os céu os pequenos olhos acidulados; e viu seu papagaio adormecido na gaiola, todo verde.
Meu Canavarro, meu querido Canavarro! — arrulhou ela amorosamente.
O papagaio, reconhecendo a voz, abriu o olho e agarrou-se ao poleiro, e se pôs a gritar com a voz rouca de um homem que se afoga: Canavarro! Canavarro!
Presente! — gritou Zorba, pousando de novo as mãos sobre os joelhos que haviam servido tanto, com se quisesse tomar posse.
A velha cantora se enroscou em sua cadeira e abriu de novo a boquinha enrugada.
Eu também combati, peito contra peito, bravamente... Mas, vieram os dias ruins. Creta foi libertada, as esquadras receberam ordens para partir. E o que vai ser de mim, gritava eu agarrada às quatro barbas. Aonde vão me deixar? Habituei-me a champanha, às galinhas assadas, habituei-me aos marinheiros bonitinhos que me fazem continência. Que vai ser de mim, quatro vezes viúva, senhores almirantes? Eles riam. Ah! Os homens! Cobriram-me de libras inglesas, de liras italianas, de rublos e de napoleões. Eu os guardei por toda parte, nas minhas meias, no meu corpete, nas minhas sapatilhas. Na última noite eu chorava e gritava, e então os almirantes tiveram pena de mim. Encheram a banheira de champanha e me puseram dentro — já éramos íntimos, vocês sabem — e depois eles beberam toda a champanha em minha homenagem, e isso os embriagou. Depois eles apagaram as luzes... De manhã, senti todos os perfumes superpostos: a violeta, a água-de-colônia, o almíscar e o âmbar. As quatro grandes potências — Inglaterra, França, Itália e Rússia — eu as tinha aqui, sobre meus joelhos, e as manejava como, como isso!
E Madame Hortência, abrindo seus pequenos braços gordinhos, agitou-se de baixo para cima, com se fizesse pular um bebê nos joelhos.
Aí está! Assim, assim! Quando amanheceu, eles fizeram troar os canhões, não estou mentindo não, juro, por minha honra, e uma baleeira branca com doze homens aos remos veio me apanhar e me levar para a terra.
Ela apanhou um lencinho e pôs-se a chorar inconsolável.
Minha Bubulina — gritou Zorba, esfogueteado. — feche os olhos, feche os olhos meu tesouro. Sou eu, Canavarro!
Abaixe as patas, estou dizendo! — falou nossa boa senhora, torcendo-se toda. — Vejam essa cabeça! Onde estão às ombreiras douradas, o tricórnio, a barba perfumada? Ah! Ah!
Ela apertou docemente a mão de Zorba e pôs-se novamente a chorar.

Nikos Kazantzakis, in Zorba, O Grego

Nenhum comentário:

Postar um comentário