Em momentos como esses, todas as portas
da mulher se abrem, as sentinelas adormecem e uma boa palavra é tão
poderosa como o ouro ou o amor. Acendi, portanto, meu cachimbo e
pronunciei a boa palavra.
— Madame Hortência, você me lembra
Sara Bernhardt... Quando ela era jovem. Nunca esperaria encontrar
nesse lugar selvagem tanta elegância, graça, beleza e cortesia. Que
Shakespeare enviou-a para cá, entre bárbaros?
— Shakespeare? — disse ela, abrindo
os olhos desbotados. — Que Shakespeare?
Seu pensamento voou, rápido, aos teatros
que havia visto, fez num piscar de olhos toda a volta dos cabarés,
de Paris a Beirute, de toda a costa da Anatólia, e subitamente
lembrou-se: foi em Alexandria, um grande teatro com lustres,
poltronas de veludo, homens e mulheres, decotes, perfumes, flores. De
repente a cortina se levanta e um negro terrível aparece...
— Que Shakespeare? — disse de novo,
vaidosa de se haver lembrado: — aquele a quem chamam também Otelo?
— Esse mesmo. Que Shakespeare, nobre
senhora, jogou-a nesses rochedos selvagens?
Olhou à sua volta. As portas estavam
fechadas, o papagaio dormia, os coelhos se entregavam ao mar,
estávamos sós.
Emocionada, ela começou a nos abrir seu
coração, como se abre um velho cofre repleto de especiarias,
bilhetes amorosos amarelecidos, antigas roupagens...
Falava razoavelmente o grego, estropiando
as palavras, embrulhando as sílabas. E, no entanto, nós a
compreendíamos perfeitamente, embora às vezes fosse difícil
reprimir o riso, e outras vezes — já havíamos bebido um pouco —
difícil reprimir as lágrimas.
— Pois bem (foi mais ou menos assim que
falou a velha sereia em seu pátio perfumado), pois bem. Esta que
lhes está falando não foi cantora de cabaré, não! Eu era uma
artista de renome. Vestia-me com combinações de seda, de rendas
verdadeiras. Mas o amor...
Ela suspirou profundamente, e acendeu
outro cigarro no de Zorba.
— Estava apaixonada por um almirante.
Creta estava em plena revolução, e as frotas das grandes potências
haviam ancorado no porto de Suda. Alguns dias depois eu também
ancorava lá. Ah, que beleza! Vocês deviam ver os quatro almirantes:
o inglês, o francês, o italiano e o russo, cobertos de ouro,
sapatos de verniz e plumas na cabeça. Uns verdadeiros galos. Grandes
galos de oitenta a cem quilos cada um. E que barbas! Frisadas,
sedosas, castanhas, louras, grisalhas, pretas, e como cheiravam bem!
Cada um tinha um perfume especial, e era assim que eu os distinguia
de noite. A Inglaterra cheirava a água-de-colônia, a França a
violetas, a Rússia a almíscar e a Itália, ah! A Itália era só
âmbar! Que barbas, meu Deus! Que barbas! Às vezes, nós nos
reuníamos no navio capitânia e falávamos sobre a revolução. Os
uniformes desabotoados, e eu apenas com uma combinação de seda que
colava na pele, por que eles a mergulhavam em champanha. Era verão,
compreendem. Falava-se então da revolução, conversas sérias, e eu
acariciava as barbas e pedia-lhes para não bombardearem os pobres
cretenses. A gente podia vê-los pelas escotilhas, sobre um rochedo,
perto de Caneia. Pequenos, pequeninos como formigas, com calças
azuis e botas amarelas. Gritavam e gritavam com uma bandeira na
mão...
A vegetação que fazia de cerca do pátio
mexeu-se. A velha combatente parou, aterrorizada. Entre as folhagens,
olhos maliciosos brilhavam. A criançada da aldeia havia farejado
festança, e nos espiava.
A cantora experimentou levantar-se, mas
não conseguiu: havia comido e bebido demais; sentou-se de novo,
pesadamente, banhada em suor. Zorba apanhou uma pedra: os garotos
fugiram correndo.
— Continue, minha querida: continue,
meu tesouro! — disse Zorba, aproximando sua cadeira.
— Eu dizia então ao almirante
italiano, com quem tinha mais liberdade, afagando-lhe a barba: “Meu
Canavarro — ele se chamava assim — meu querido Canavarro, não
fazer bum! Bum!; não fazer bum! Bum!”-quantas vezes, eu lhes falo,
salvei cretenses da morte! Quantas vezes os canhões estavam prontos
para atirar e eu, segurando a barba de algum almirante, não o
deixava fazer bum! Bum! Mas quem me agradece isso, hoje em dia? Em
matéria de condecorações...
Ela estava zangada, a Madame Hortência,
com a maldade e a ingratidão dos homens. Bateu na mesa com sua
mãozinha gorda e enrugada. E Zorba, estendeu sua mão perita sobre
os joelhos distantes, segurou-os fingindo levado pela emoção, e
bradou:
— Minha Bubulina (Heroína da Guerra
da independência — 1821/1828, que combateu valentemente no mar
como Canaris e Mionlins) eu te peço, não faz bum! Bum!
— Abaixe as patas! — disse nossa boa
senhora cacarejando. — por que está me tomando, meu velho?
E ela atirou-lhe um olhar lânguido.
— Existe um bom Deus — dizia o velho
malandro. Não se entristeça, minha Bubulina. Estamos aqui, não
tenha medo.
A velha sereia levantou para os céu os
pequenos olhos acidulados; e viu seu papagaio adormecido na gaiola,
todo verde.
— Meu Canavarro, meu querido Canavarro!
— arrulhou ela amorosamente.
O papagaio, reconhecendo a voz, abriu o
olho e agarrou-se ao poleiro, e se pôs a gritar com a voz rouca de
um homem que se afoga: Canavarro! Canavarro!
— Presente! — gritou Zorba, pousando
de novo as mãos sobre os joelhos que haviam servido tanto, com se
quisesse tomar posse.
A velha cantora se enroscou em sua
cadeira e abriu de novo a boquinha enrugada.
— Eu também combati, peito contra
peito, bravamente... Mas, vieram os dias ruins. Creta foi libertada,
as esquadras receberam ordens para partir. E o que vai ser de mim,
gritava eu agarrada às quatro barbas. Aonde vão me deixar?
Habituei-me a champanha, às galinhas assadas, habituei-me aos
marinheiros bonitinhos que me fazem continência. Que vai ser de mim,
quatro vezes viúva, senhores almirantes? Eles riam. Ah! Os homens!
Cobriram-me de libras inglesas, de liras italianas, de rublos e de
napoleões. Eu os guardei por toda parte, nas minhas meias, no meu
corpete, nas minhas sapatilhas. Na última noite eu chorava e
gritava, e então os almirantes tiveram pena de mim. Encheram a
banheira de champanha e me puseram dentro — já éramos íntimos,
vocês sabem — e depois eles beberam toda a champanha em minha
homenagem, e isso os embriagou. Depois eles apagaram as luzes... De
manhã, senti todos os perfumes superpostos: a violeta, a
água-de-colônia, o almíscar e o âmbar. As quatro grandes
potências — Inglaterra, França, Itália e Rússia — eu as tinha
aqui, sobre meus joelhos, e as manejava como, como isso!
E Madame Hortência, abrindo seus
pequenos braços gordinhos, agitou-se de baixo para cima, com se
fizesse pular um bebê nos joelhos.
— Aí está! Assim, assim! Quando
amanheceu, eles fizeram troar os canhões, não estou mentindo não,
juro, por minha honra, e uma baleeira branca com doze homens aos
remos veio me apanhar e me levar para a terra.
Ela apanhou um lencinho e pôs-se a
chorar inconsolável.
— Minha Bubulina — gritou Zorba,
esfogueteado. — feche os olhos, feche os olhos meu tesouro. Sou eu,
Canavarro!
— Abaixe as patas, estou dizendo! —
falou nossa boa senhora, torcendo-se toda. — Vejam essa cabeça!
Onde estão às ombreiras douradas, o tricórnio, a barba perfumada?
Ah! Ah!
Ela apertou docemente a mão de Zorba e
pôs-se novamente a chorar.
Nikos Kazantzakis, in Zorba, O Grego
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