Ah! Só meu amor me sabia! Se por descuido passei a amar, em cada instante ele se fazia mais indispensável. Meu coração escolheu e agora minha carne exigia sua presença. Ah! Como o corpo exige! Se o medo me invadia, se vago o horizonte, se fria a aragem, meu amor era minha moeda. Sob os juros do amor eu me enriquecia.
A mãe nos contava sobre nossos bens: uma casa com um quintal, uma horta sob mangueira, um pé de jabuticabas — que nos espiava com muitos olhos pretos. No mais, um regador para dar de beber às plantas. Nas tardes, quando o tempo se faz humano por parecer duvidar, minha mãe, sustentando o regador pela asa, benzia as flores. Exalava um perfume de terra molhada e a alma se fazia definitivamente telúrica. Viver tinha sabor de chão encharcado. Mas isso não leva importância.
O fundo é frio e a terra úmida. A aragem não sopra no lá embaixo. No fundo, o peso da terra é definitivo véu. Não há carga que o corpo morto não suporte. Não há alma lá no fundo. A luz não desfaz o breu que arde no bem profundo. No bem fundo, não há palavra capaz de soar. Mas o silêncio não existe no fundo. O nada interrompe tudo. A mãe dorme no muito fundo.
Seu adeus me deu, como sina, ler o além das letras. Aprendi, com sua ausência, a decifrar o depois dos olhares, se de afagos ou de repulsa. Li os segredos das mãos, se abençoando ou repudiando. Decifrei a censura se manifestando na linha dos lábios, amargos ou doces. Lendo adaptei-me a corresponder ao projeto do outro sobre mim. Desviando-me de mim, e, ingênuo, desconhecia a impossibilidade de novamente viver o dia de ontem. Sua partida me legou, como herança, a habilidade de explorar meu tesouro em seu vazio.
Brincar irritava a ira de nosso pai. “Viver demanda muita seriedade”, ele retrucava. Só contar estrelas permitia, por ser uma lida sem fim. Os filhos se assentavam no degrau da escada, em fila. Rendiam-se à primeira estrela e rezavam: “Primeira estrela que eu vejo me dê tudo que eu desejo”. Naquela tarde eu vi primeiro. Orei à luz para não deixar meu amor quebrar-se, nunca mais. O adeus da mãe, tenro, invocou-me a subtrair de mim a crença no absoluto. Estrela, não quero espinho — insistia aturdido.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Vermelho Amargo
Nenhum comentário:
Postar um comentário