quarta-feira, 18 de março de 2026

Segundo capítulo – As Letras do Sonho



Por cima da página, Muidinga espreita o velho. Ele está de olhos fechados, parece dormido. “Fim ao cabo, tenho estado a ler apenas para minhas orelhas”, pensa Muidinga. “Também há já três noites que vou lendo, é natural o cansaço do velho”, condescende Muidinga. Os cadernos de Kindzu se tinham tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha, cozinhar as reservas da mala, carretar água: em tudo o rapaz se apressava. O tempo ele o queria apenas para mergulhar nas misteriosas folhas. O miúdo, em si, se intriga: quem seria o autor dos escritos? O homem de camisa sanguentada, estendido ao lado da mala, seria o tal Kindzu? A voz de Tuahir o surpreende:
Aposto você está pensar nessa porcaria dos cadernos.
Como sabe?
Você, agora, nem faz outra coisa. Já me chateia.
O jovem passa a mão pelo caderno, como se palpasse as letras. Ainda agora ele se admira: afinal, sabia ler? Que outras habilidades poderia fazer e que ainda desconhecia?
Tuahir, não se zanga se lhe chamar de tio...
Que queres, diga lá?
Me conte sobre a minha vida. Quem eu era, antes do senhor me apanhar?
Tio, tio, tio! Essa palavra só me desgosta...
Conte, lhe peço.
Você nem tem estória nenhuma. Lhe apanhei no campo, ganhei pena de lhe ver aranhiçar, com pernas que já nem conheciam andamento...
Mas o senhor me conhecia, sabia quem eu era?
Nada. Você nunca me foi visto. Agora, acabou-se a conversa. Apague a fogueira.
O miúdo desiste de mais pergunta. Por que razão o velho teima em não lhe revelar nenhum passado? Seria verdadeira aquela ignorância dele? Há tempos que os dois estão juntos. O velho lhe dedica paciências, em paternais maternidades. Sem nunca lhe escapar uma ternura. A conversa também é pouca, sem desperdício de palavra. Tuahir volta a insistir para que extinga o fogo. Dentro do carro é um perigo, argumenta. Mas o miúdo resiste, tem medo do escuro. A fogueirinha ajuda a vencer o medo. Ler os escritos do morto é um pretexto para ele não enfrentar a escuridão. A decisão de Tuahir se impõe, reinam as trevas. O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma.
Passado tempo, Muidinga acorda em sobressalto. Uma massa viscosa lhe raspa o rosto, fosse o ventre de uma cobra escorrediça. A medo espreita pela fresta das pálpebras: um monstro lhe lambe a cara. Visto assim, de baixo para o topo, o focinho ganha medonhas dimensões. Aquilo parecia o planeta, todo de chifre. O sol ainda não todo emergira no horizonte. Na obscuridade, Tuahir grita:
Não mexa, miúdo.
Imóvel, o garoto espera. A imagem esbatida se revela então a seus olhos: é um cabrito pastando em seu rosto. O caprino roda a cabeça estudando se o vulto que lambeu é ou não comestível. Tuahir sai do banco e avança, gatinhoso, pé posto em cautela. Se aproxima por trás e dispara um puxado pontapé no animal. Um méééé se amplia pela noite.
Hidjii! Afinal, é um cabrito!
Pensava era o quê?
Pensava era uma hiena. A hiena é que gosta de comer nariz de gente.
O cabrito não vai longe. Sai do autocarro, sacode a cauda. Tuahir enxota o bicho. Em vão.
Vou lá correr com ele, tio.
Vai. Mas não aproveite o caso para me voltar a chamar tio.
Muidinga se ergue. Sai da carcaça do autocarro, pega numa pedra e lança-a sobre o cabrito. O bicho troteia em coices, de casco e caganitas. Mas não se alonja.
Deixa lá. Ele sente falta das pessoas. Eu também começo sentir falta de cabrito. Principalmente aqui no estômago.
Vamos comer o bicho?
Surge ali um novo motivo de briga. Muidinga opõe-se a que o bicho seja morto. O cabrito lhe dá um sentimento de estar em aldeia, longe daquele lugar perdido. No facto, se passava o inacreditável: um bicho lhe trazia de volta o sentimento da família humana. O velho insiste em assar o cabrito: o rapaz deixasse o tempo passar e pensaria mais com a barriga. A fome quando ferra nos faz feras. Muidinga retira uma corda da maleta. Vou amarrar o bicho aqui pertinho, anuncia.
Pertinho não. Deixe ele solto longe, sem corda.
O miúdo entorta o nariz, decidido a desobedecer. Não queria que o animal escapasse. Procura nas redondezas um ramo à altura de receber um nó. Então se admira: aquela árvore, um djambalaueiro, estava ali no dia anterior? Não, não estava. Como podia ter-lhe escapado a presença de tão distinta árvore? E onde estava a palmeira pequena que, na véspera, dava graça aos arredores do machimbombo? Desaparecera! A única árvore que permanecia em seu lugar era o embondeiro, suportando a testa do machimbombo. Seria coisa de crer aquelas mudanças na paisagem? Muidinga hesita em consultar Tuahir. Ele haveria de desdenhar com aquele riso de peixe, a boca à espera de entender a graça. Decerto, lhe acusaria de tontice. Ou ainda pior: lhe lembraria a doença em que se havia exilado não da vida mas da humana meninice. Assim, Muidinga optou por deixar o assunto.
Se despede do cabrito e torneia a árvore de fruta que tanto o intriga. Recolhe um djambalau, examina o negro fruto. O dia já se ergueu, as sombras vão minguando na quentura do chão. O sol, voluminoso, sucessivamente sempre sendo um. Muidinga imagina como será uma aldeia, essas de antigamente, cheiinhas de tonalidades. As colorações que devia haver na vila de Kindzu antes da guerra desbotar as esperanças?! Quando é que cores voltariam a florir, a terra arco-iriscando?
Então ele com um pequeno pau rabisca na poeira do chão: “azul”. Fica a olhar o desenho, com a cabeça inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também sabia escrever? Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe ia chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar--se-ia Muidinga? Ou teria outro nome, desses assimilados, de usar em documento?
Mais uma vez contempla a palavra escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra palavra, sem cuidar na escolha: “luz”. Dá um passo atrás e examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às avessas”.
De súbito, lhe chegam sons distantes no tempo, semelhando gritos de meninagem em recreio. O menino estremece: aquela era uma primeira lembrança. Até ali ele não se recordava de ocorrência anterior à enfermidade. Corre em balbúrdias para o autocarro.
Tio, tio! Eu me lembrei de minha escola!
Tuahir sorri, carantonhoso. Faz conta que nem ouve, entretido com nenhuma coisa. O rapaz repete, sacudindo o falso-dito tio.
Me lembrei, juro!
Te lembraste o quê?
Das vozes, da barulheira dos outros meninos.
Escuta uma coisa de vez por todas: nunca houve nenhuns outros meninos, nunca houve nada. Ouviste? Fui eu que te apanhei, baboso e ranhado, faz conta tinhas sido dado parto assim mesmo. Nasceste comigo. Eu não sou teu tio: sou teu pai.
Empurrado com brusquidão, o miúdo tomba sobre os ferros do machimbombo. Afinal, era essa a razão de ele negar ser chamado de tio? Era esse o motivo por que o velho lhe ocultava todo seu passado? Então, o miúdo sorri com doçura e se ergue sobre os joelhos. O corpo lhe tropeça numa fraqueza e volta a permanecer de gatas. O velho se apressa a debruçar sobre ele, em aflição:
Lhe aleijei, miúdo?
Assim como está, Muidinga se limita a negar com a cabeça. Tuahir insiste:
Então, se está sentir mal? Lhe voltou a doença?
O rapaz se volta a erguer e enfrenta o velho. Seu rosto está sereno, parece acrescentado de uma repentina idade:
Se esse é o seu medo vou dizer o seguinte: lhe gosto mesma coisa fosse o autêntico meu pai.
Tuahir reage, apanhado em armadilha. E se torna grave: Levante-se, miúdo! Por que que é que anda a gatinhar pelo chão feito um cabrito? Ambos se separam e se arrumam em quietude. Ficam assim, amuados até serem surpreendidos por barulhos que chegam do mato. O miúdo se levanta, precipitado. Acredita serem pessoas que se aproximam. Ensaia correr, sua intenção é entregar-se de braços, seja quem for que se aproxime. Mas Tuahir lhe corta o gesto com secura:
Não mexa, miúdo!
Porquê? É gente que está vir. Vêm para nos tirar daqui...
Não termina a frase. A mão do velho se calca sobre os seus lábios, impondo o grave silêncio. Então, por entre os altos capins, assoma um elefante. O bicho se arrasta, cansado do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal de morte caminhando. E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras, está coberto de sangue. O animal se afasta, penoso. Muidinga sente o golpe da agonia em seu próprio peito. Aquele elefante se perdendo pelos matos é a imagem da terra sangrando, séculos inteiros moribundando na savana.
Dispararam sobre o bicho.
Quem foi, tio?
São esses da guerra. Querem os dentes para vender lá fora.
Se voltam a sentar em silêncio. Há uma tristeza que nem o cantarolar do velho consegue dispersar.
Tio Tuahir: estou a pensar uma coisa. Mas o senhor vai zangar, eu sei.
Você anda pensar de mais. Não lhe devia ter curado tanto. Um bocadinho de doença até lhe ia fazer bem. Chateava menos...
Mas, tio, é só imaginar. É um sonho que tenho...
Não pensa, rapaz. A vida é tão curta, você quer encher ela de tristezas?
Não, tio. Estou a pensar... Não, é melhor não dizer.
É melhor, mesmo. Fica calado.
Muidinga insiste depois de um silêncio. O velho já tinha regressado ao cantochão.
Vou dizer. Estou a pensar eu sou Junhito.
Quem é Junhito?
Junhito, esse menino do escrito que eu li, aquele da capoeira.
É pena não ser mesmo. Porque se fosse galinha, já eu lhe depenava para um bom caril.
Estou a falar sério, tio Tuahir.
E se vai calar muito sério, também.
O miúdo realmente se mantém calado até ao fim do dia. Já escurece quando reentram para o machimbombo e se preparam para deitar. Mais uma vez lhes chega o barulho do elefante. Parecia um rastolhar, lá longe. Quem sabe o bicho se findou, tombado no vasto chão? O escuro se aproveita para entrar dentro do refúgio dos dois esperantes.
Tio, posso acender a fogueira?
Acenda lá fora.
Mas eu queria ler, tio.
Leia lá fora.
Muidinga arruma uns paus secos e transporta consigo os escritos de Kindzu. Acende o fogo na berma da estrada. Depois, se instala para ler em comodidade o segundo caderno. A voz de Tuahir o sobressalta:
Não vai ler isso sozinho, pois não?

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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