[…]
A virar o ar, viemos; em caminho não
se descansou um dia. Agora eram os brejos da beira do Paracatú. Mas
eu tinha conseguido encher em mim causas enormes. Dispor do rôr
daquilo eu não conciliava, conforme perseguia, custoso, vermelho
meu. Somente quis, nem podia dizer aos outros o que queria, somente
então uns versos dei, que se puxaram, os meus, seguintes!
Hei-de às armas, fechei trato
nasVeredas com o Cão.
Hei-de amor em seus destinos
conforme o sim pelo não.
Em tempo de vaquejada todo gado é
barbatão.
deu doideira na boiada soltaram o
Rei do Sertão...
Travessia dos Gerais tudo com armas
na mão... O
Sertão é a sombra minha e o rei
dele é Capitão!…
Arte que cantei, e todas as cachaças.
Depois os outros à fanfa entoaram ― mesmo sem me entender, só por
bazófias ― mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu
rompante; cantavam melhor cantando. De todos, menos vi Diadorim: ele
era o em silêncios. Ao de que triste: e como eu ia poder levar em
altos aquela tristeza? Aí ― eu quis: feito a correnteza. Daí, não
quis, não, de repentemente. Desde que eu era o chefe, assim eu via
Diadorim de mim mais apartado. Quieto; muito quieto é que a gente
chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. E já se
estava antefrente do Paracatú ― que também recovava o pouco e
escasso. Esbarrei não, nem examinei o adiante. Demiti meu cavalo
nágua. Os outros me acompanharam. Assim atravessamos.
Vai, viemos, viemos. Esses dias em
ondas. Sei só as encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de
ferro. E era a lua-nova. Aquelas pedras brancas, que de noite tanto
esfriam. As caraíbas estavam dando flór. Por ponto de meu corpo,
medi o enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um
vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: ― Amigo ó amigo, aqui é
aqui? Ao que ele confirmou: ― Aqui, o senhor, meu senhor, os
senhores estão nos andares do rio Urucúia... Aos campos. Sentei que
estava. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão. Tanta
doideira fiz? A prazo. Como aquela vista reta vai longe, longe, nunca
esbarra. Assim eu entrei dentro da minha liberdade. Oi, grita, arara,
araraúna, para a tua voz desenrouquecer! O Chapadão é uma estada,
estando. Somente eu sabia respirar. Sumo bebi de mim, e do que eu não
me tonteava. Só estive em meus dias. E ainda hoje, o suceder deste
meu coração copia é o eco daquele tempo; e qualquer fio de meu
cabelo branco que o senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo
― sem traslado... Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às
larguras de claridade... Acho que foi assim.
Assim. Mas alguém me impediu. Ou era
que mesmo desse jeito tinha de ser? Urubús perpassaram,
extremamente, e para o poente vinham. Diadorim me chamou, pegando em
meu braço. Diadorim vigiou aquelas diferenças! ele temeu; temeu por
minha salvação, a minha perdição. Ou foi que minha Nossa Senhora
da Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o
açôite de minha ação, ele me puxou, eu segurado, o propósito
para trás. Nas grimpas, naquelas, o significado duma coisa tive, que
depois lhe relato. Ah, só no azul do anoitecer é que o Chapadão
tem fim.
Foi na descida de algumas ladeiras, no
se costear um barrocão. Diadorim disse! ― Estou aqui, te vejo
mesmo, Riobaldo!
Eu disse! ― Ah, não. Ah, paz!
Ele disse! ― A uma coisa eu te digo,
Riobaldo...
Eu disse! ― Pois fala.
Diadorim disse ― a voz dele se
paliava! ― Por querer bem é que eu falo, Riobaldo... ― feito o
sussurro, nessas veredas, mão mansa, de tardinha, descabelando o
buritizal.
Eu disse! ― Vai dizendo! ― ; falei
uma segunda palavra.
A testa dele merujava, coisas grossas
gotas ― mesmo me temesse? ― aquele suor devia de se gelar. Aí
era um aviso, que ele queria me fornecer?
Aí eu não queria ouvir o que fosse,
de repente eu não queria, eu não queria, fiz de ficar indignado. No
eu no meu, não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor de
mim, assim obedecessem. A chefia sabe chefiar. Por certo, que, para a
jagunçagem, os Gerais mal serviam. A pobreza daquelas terras, só
pobreza, a sina tristezinha do pouco povo. Aonde o povo no rareado,
pelo que faltava de água naquelas chapadas; e a brabeza do gado, que
caminhava em triste achar. Desejar de minha gente, seria que se
atravessasse o do-Chico ― ir em cata de vilas e grandes arraiais,
adonde se ajustar pagas e alugar muitos divertimentos. Conforme no
renovável servisse: ir aonde houvesse política e eleição. Sabia
disso. Eu não era pascácio. Um chefe carece de saber é aquilo que
ele não pergunta. E mesmo eu sempre tive diversas saudades.
Reprazia, para mim, um dia reverter
para o rio das Velhas, cujos campais de gado, com coqueiral de
macaúbas, meio do mato, sobre morro, e o grande revóo baixo da
nhaúma, e o mimoso pássaro que ensina carinhos ― o
manuelzinho-da-cróa... Diadorim, eu gostava dele? Tem muitas épocas
de amor. Amor em perto, às vezes sossega, em muitos adiamentos ―
ao homem da branca barba. ― Tempo de guerrear! ― eu disse, para
Alaripe, o Pacamã-de-Presas, o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias.
Em qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu
mastro-de-guerra? Primeiro, então, por ali mesmo, na areia róxa,
para tomar o instinto do ar, a gente recruzava. Mas, dirá o senhor:
e o Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes, os
Judas? Sim, sei. Mas, eles, no meu ir eles iam vir, haviam-de. Sabia
isso era eu no coxim da sela, suor nosso. Seguindo, no raso e no
monte, das areias tirando brilhos. A mal o mundo serenava, de
tardinha, quando os jaós cantavam. Ou silêncio tão devassado,
completo, que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão de
um sino. Diadorim não me entendesse? Ele entendia?
Assim, eu tivesse muito ódio,
Diadorim havia de me entender. Mas eu estava acontecido. Por exemplo,
vinha uma boiada, que passou, no bom-balanceio. Aqueles vaqueiros,
esses com os laços enrodilhados nas garupas, e que, por prazer,
aboiavam. Apreciei de ver como todos souberam jeito de esconder o
medo que de mim deviam de ter. Boiada com rumo na barrra do Paracatú,
salvante que mudassem de roteiro. Mas a gente ia por lados
contrários. Deles até carneamos duas rêses. Se assou carne na moda
do povo dos Gerais ― que era com espeto de vara de folha-miúda,
tanto tempo se esbrazeando para estorricar, o naco de carne se
torrava como um fumo, e o gosto daquele cheiro se supria forte, só
por si punha a boca da gente aguando. Dada a mais cachaça ao menino
Guirigó e ao cego Borromeu! para eles falarem coisas diferentes do
que certas, por em si desencontradas, diversas de tudo. Conselhos me
davam? Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o
araticúm, que ― consoante o senhor escrito apontará ― sobejam
nesses campos. Mas a minha sina formava o rebrilhar; em tudo, digo ao
senhor. Conforme fatos houve.
Da mulher ― que me chamaram! ela não
estava conseguindo botar seu filho no mundo. E era noite de luar,
essa mulher assistindo num pobre rancho. Nem rancho, só um papirí
à-tôa. Eu fui. Abri, destapei a porta ― que era simples
encostada, pois que tinha porta; só não alembro se era um couro de
boi ou um tranço de buriti. Entrei no olho da casa, lua me esperou
lá fora. Mulher tão precisada! pobre que não teria o com que para
uma caixa-de-fósforo. E ali era um povoado só de papudos e
pernósticos. A mulher me viu, da esteira em que estava se jazendo,
no pouco chão, olhos dela alumiaram de pavôres. Eu tirei da
algibeira uma cédula de dinheiro, e falei! ― Toma, filha de
Cristo, senhora dona! compra um agasalho para esse que vai nascer
defendido e são, e que deve de se chamar Riobaldo... Digo ao senhor!
e foi menino nascendo. Com as lágrimas nos olhos, aquela mulher
rebeijou minha mão... Alto eu disse, no me despedir: ― Minha
Senhora Dona: um menino nasceu ― o mundo tornou a começar!... ―
e saí para as luas.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Nenhum comentário:
Postar um comentário