quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Cartas Mortas





A receita do romance Letters [Cartas] (Putnam, 1979), de John Barth, é bastante simples. O primeiro passo é pegar qualquer um dos vários compêndios de história da literatura e, depois de um minucioso cruzamento das referências, guarnecer um texto de 772 páginas, aqui e ali, com passagens como esta:

É a data de nascimento de João Calvino, Giorgio de Chirico, Jaime III da Escócia, Carl Orff, Camille Pissarro, Marcel Proust, James McNeill Whistler. Os Aliados estão desembarcando na Sicília, a Apolo XI teve um vazamento, o vice-presidente Fillmore sucedeu Zachary Taylor na presidência dos EUA, o primeiro contingente de fuzileiros americanos está saindo do Vietnã, Ben Franklin propõe uma União Colonial aos moldes da Liga Iroquesa das Seis Nações, os alemães começaram o bombardeamento da Inglaterra e ratificaram o Tratado de Versalhes, Ra de Thor Heyerdahl está enfrentando de novo um mar bravio e talvez não chegue a Barbados, começaram as negociações para a trégua na Coreia, o mercado financeiro continua em baixa, Woodrow Wilson apresentou sua proposta da Liga das Nações ao Senado americano.

A finalidade dessas listagens sincrônicas é sugerir que o passado e o presente, a memória e o sonho, o real e o fictício fazem parte da mesma brincadeira. Nosso ser, as sombras fugidias em nossos pensamentos são apenas um longo Wiedertraum (palavra de mr. Barth), um sonho sonhado de novo. Tudo se interliga na pulsante teia do tempo. Bertrand Russell perguntou com suprema concisão: que provas existem de que o passado inteiro do universo não é uma fantasia da mente nesta última fração de segundo? Borges pode adotar essa possibilidade numa única frase tranquila.
Segundo passo: você supõe que o leitor tem plena familiaridade com todas as suas obras anteriores — que ele tem na ponta da língua todos os seus enredos, alusões, personagens e recursos de estilo. Em cada página, você insere referências mais ou menos sorrateiras, mais ou menos discretas em A ópera flutuante, The End of the Road [O fim da estrada], The Sot-Weed Factor, Giles Goat-Boy, Perdido no túnel do terror e Quimera. Num êxtase de narcisismo intelectualista, segue em frente. Você faz o personagem principal de Letters descobrir, ler e comentar todas essas paradas anteriores na sala de espelhos. E aí, num salto lá de cima da corda para a rede de proteção do próprio eu, você introduz no novo romance um tal Jacob Horner, máscara visivelmente autobiográfica tirada de um livro anterior, e ainda melhor. Outrossim (para imitar o pastiche da linguagem epistolar clássica feito pelo professor Barth), você divide o referido Horner numa forma dupla: Jacob Horner, o morador da Fazenda da Remobilização, redige cartas a Jacob Horner, o morador da Fazenda da Remobilização, entregando-se a um abandono autista. Um personagem de um romance prévio, seu mesmo, sonha consigo outra vez. Mas Pirandello já esteve aqui antes, e foi magistral.
Terceiro passo: sendo um professor de literatura inglesa e americana sem sombra alguma de dúvida culto e possuindo um conhecimento não meramente superficial das letras europeias dos séculos XVIII e XIX, você coze seu enorme tijolo (Letters é mais longo do que O idiota, Ulisses ou A montanha mágica) com um carvão acadêmico cuidadosamente preparado; isto é, ele se torna um palimpsesto de fontes e alusões literário-histórico-estilísticas. Por trás desse tomo estão Clarissa, de Samuel Richardson, Werther, de Goethe, e aquele que é o mais grandioso, o romance epistolar mais nu e cru de todos, Ligações perigosas, de Laclos. Cada passagem, uma após a outra, é construída com citações, alusões em acrósticos duplos, jogos acrônimos com nomes, fatos e citações tirados da literatura inglesa e americana, de Chaucer a T. S. Eliot. Defoe, Swift e Samuel Johnson abundam neste que é basicamente um pastiche de um romance epistolar setecentista. Mas abundam também os metafísicos, Shakespeare e os humoristas americanos. Quando chega abril, ele é, claro, “o mais cruel dos meses”; quando se pormenorizam infindavelmente as genealogias, elas trazem furtivos ecos dos inventários das heranças em Faulkner, sobretudo em O urso. Mas a trama e a urdidura não são apenas literárias em sentido estrito. São tecidas em torno de carretéis biográficos arcanos. É praticamente impossível entender Letters sem um íntimo conhecimento da vida, dos amores e das opiniões de Madame de Staël e seu atormentado amante Benjamin Constant. A intimidade com as peregrinações eróticas de Lorde Byron também é um requisito indispensável. (Madame de Staël e Byron se conheciam.) Sabendo do papel essencial de Napoleão na vida e na imaginação de George Noel e Corinne, passamos para um conjunto tremendamente erudito de alusões à suposta fuga de Napoleão para os EUA em 1815, à efetiva estada americana de Jérôme Bonaparte e às testemunhas ou descendentes ianques dessa ilustre visita. A ressurreição de figuras histórico-literárias nada tem de novo nem de ilícito. Mas Barth não teve sorte. Titãs já estiveram aqui antes dele, e exatamente no mesmo terreno. O mundo de Madame de Staël e Byron, às cintilantes margens do lago de Genebra, tece seu espectral sortilégio em Ada, de Nabokov; Werther renasce, com a vitalidade do pleno autocontrole, em Carlota em Weimar, de Thomas Mann.
Tais ingredientes, em si, vão resultar num suflê escolar mais ou menos indigesto. Nenhuma página aqui, senhor doutor, que não mereça exegeses, glosas, notas de rodapé, hermenêuticas, explicações, análises semióticas, comentários psico-históricos e acadêmico-cabalísticos. Que os adufes ressoem nas coutadas do saber, pois não só o texto do professor Barth é uma colcha de retalhos, mas esses retalhos muitas vezes são duplamente, triplamente costurados. Ambrose Mensch propõe “fazer uma verbena”. Ha, ha! Transposição do famoso faire cattleya de Proust, significando “fazer amor”. Coisa para calouro, isso. Mas espere: não é a Proust que o dr. Barth agora nos encaminha. Ele pergunta num parêntese: “Você conhece o conto ‘La Fenêtre’ [A janela], de Maupassant, sobre a dama com perfume de verbena que convida seu galanteador para seu château no campo?”. Uma corrida da sala de aula até as estantes, onde, de fato, espera-nos uma edição completa dos contos de Maupassant. Fim da caçada? De maneira nenhuma. “Perfume de verbena” deveria despertar alguma lembrança. Deveras, senhor, andamos meio desmemoriados. Aquele conto intrigante, “Um odor de verbena”, da coletânea Os invencidos, de Faulkner. Claro! Como demoramos tanto para perceber? John Barth, Professor Catedrático de Inglês e de Redação Criativa na Cátedra do Centenário dos Ex-Alunos da Universidade Johns Hopkins, membro do Instituto Nacional de Artes e Letras e da Academia de Artes e Ciências dos eua (tudo isso e outras coisas mais na orelha do livro), fica sentado a sorrir.
John Barth tem se mostrado um escritor extremamente inteligente, se bem que enfatuado. Possui um ouvido excepcional para a paródia, o pastiche, o rifacimento, a imitação satírica. Tem um conhecimento impressionante da literatura e da história, da guerra de 1812 e do desenvolvimento do cinema americano, da fauna e da flora de Maryland. Por grosseira que tantas vezes seja, sua verbalização da sexualidade e da pulsão erótica na carne humana é de intensa convicção. Sem dúvida voltará a escrever livros melhores, mas neste aqui os virtuosismos da percepção e da técnica verbal resultam num desperdício gigantesco. Se o professor Barth não quer refrear sua prolixidade, não havia ninguém com a coragem ou a afeição necessárias para dizer ao autor que um livro com um terço do tamanho e despido de sua espalhafatosa mecânica autorreferencial ficaria divertido e funcionaria bem? O lamentável nessa história toda vai muito além do caso particular. Abrange também o clima atual das publicações que pretendem nos oferecer um “ótimo momento” — a caçada, ao mesmo tempo arrogante e descerebrada, ao “blockbuster”. Supõe a inexistência de um exercício gabaritado da resenha literária, sobretudo da “literatura dos grandes nomes”. Quantos resenhistas sob pressão terão tido tempo para examinar e, quanto mais, para dedicar uma reflexão crítica a esta “nova obra-prima do cômico”? (Quem escreve os releases tem de dizer essas coisas.) No entanto, apenas quando a crítica é rigorosa e franca é que se honra a literatura. Hoje em dia é moda aplicar o rótulo de narcisista à situação americana. Boa parte dessa atribuição é obviamente esquemática e simplista demais. Mas, num grau ao mesmo tempo exato e grotesco, Letters parece comprovar a validade desse ponto de vista.
Carta ao autor: Prezado John Barth, na França — onde (como diz um de seus mestres favoritos, o Sterne Laurence) sabem lidar melhor com essas coisas — existe um provérbio: um mau livro mata uma boa floresta.
31 de dezembro de 1979

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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