quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O pacto nenhum ― negócio não feito


[…]

Aquelas obras, então, Diadorim não visse? Ah, conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-dágua. O amor dá as costas a toda reprovação. E era o que Diadorim agora desfazia em mim, no amargoso.
Repuno: que você está diferente de toda pessoa, Riobaldo... Você quer dansação e desordem...
Mexi meu cuspe dentro da boca.
...A bem é que falo, Riobaldo, não se agaste mais... E o que está demudando, em você, é o cómpito da alma ― não é razão de autoridade de chefias...
Diadorim disse, e a voz dele, ecosa, me rodeou; as certas sinceridades. Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da gente, a qual é arraial escondido por detrás de sete serras? Aí, demorei. Eu ia aceitar essa repreensão? Ah, nunca. E, desaguardadamente, eu atinei com outro motivo, para opor: a extratada conversa, que Diadorim tinha tido, adeparte, com o arrieiro de uma tropa. Perguntei, contra:
O segredo, com o velho arrieiro da tropa, Diadorim, que se falaram ― era de minha pessoa?
Essa tropa, que passara por nós, dias antes, rumava para o Abaeté, com carga de fumo, mantas de borracha, couros de onça e de lontra e cera de palmeiral, pouca coisa. Fossem atravessar o rio, num porto; iam passar por terras minhas conhecidas, nos sertões menores... Agora, eu queria saber.
Aquele levou um recado meu. Instruí o homem que levasse um recado...
Um recado, de mim? Aí hei, que?! Malfiz?!...
Um recado. Mais tu não pergunte, Riobaldo! que, o que fiz, foi.
Dizendo, Diadorim se arredou de mim, com uma decisão de silêncio. Não vê, que nem precisava. Eu tinha guardado meus ouvidos. Eu não queria escutar o reto, naquela ocasião, por desânimo de ser. Diadorim tinha citado alma. O que ele soubesse, não soubesse, não tinha ciência de coisa nenhuma, da arte em que eu tinha ido estipular o Oculto, nasVeredas Mortas, no ermo da encruzilhada... Aquilo não formava meu segredo? E, mesmo, na dita madrugada de noite, não tinha sucedido, tão pois. O pacto nenhum ― negócio não feito. A prova minha, era que o Demónio mesmo sabe que ele não há, só por só, que carece de existência. E eu estava livre limpo de contrato de culpa, podia carregar nômina; rezo o bendito! Trastempo, mais outras coisas sobrevinham, mas por roda normal do mundo, ninguém podia afiançar o contrário. Apús pedra por sobre pedra, não guardo lembrança. Eu era o chefe. Vez minha de dar comando e estar por mais alto. Zé Bebelo tinha de todo desaparecido. Agora, o que se carecia, era de se pegar mais munição. Todos deviam de me obedecer completamente. Só eu não queria abusar. Por que não queria? Ah, então, eu estava em dúvidas. Até por isso era que eu estremecia, fino, no ouvir certas menções. A haver a coisa que de longe me ameaçasse, feito o vem-vem das núvens de chuva. O demo, mesmo assim, podia me marcar? Se não fosse, como era que Diadorim viesse vir com aquelas palavras? Acho que eu não era capaz de ser uma coisa só o tempo todo.
Do que Diadorim se estranhava, era do seguinte! tinha sido o que aconteci com um sujeito senhor, um que disse se chamar nhô Constâncio Alves, que topamos no Chapéu-do-Boi. E também do desgraçado do homenzinho-na-égua, com o cachorro dele, que vieram vindo, três léguas depois daquele. As coisas vãs esparramáveis.
De que tivesse neste mundo um tal nhó Constâncio Alves, o que era que eu ponderava com isso? Mas ele mesmo ali loguinho falou: que era nado no pé da serra de Alegres, e sendo da minha primeira terra, também. Foi bem tratado. Mas disse que podia ser de ter me conhecido, quando eu menino. Isso me disse aquele nhó Constâncio Alves. Queria recompensas? Aos princípios, não desgostei de prosear com um antigo assim, compatrício, asseado em suas roupas e bem-avindo. Aí ele tomou café, com a gente. A dar, que o homem foi se avontadeando, encompridando as respostas; eu mesmo dava jeito para que ele tomasse coragem.
Até que, um certo momento, o pretinho Guirigó se chegou sorrateiro, e emitiu em minha orêlha. ― Ió chefe... ― arenga do menino Guirigó, que às vezes bem não regulava. O capeta ― ele falou no capeta? Ou então, só de olhar para ele, e escutar, eu pensei no capeta; mas, que era do capeta, eu entendi. Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos. Aquele homem tinha quantia consigo: tinha consciência ruim e dinheiro em caixa... ― assim eu defini. Aquele homem merecia punições de morte, eu vislumbrei, adivinhado. Com o poder de quê: luz de Lúcifer? E era, somente sei. A porque, sem prazo, se esquentou em mim o dóido afã de matar aquele homem, tresmatado. O desejo em si, que, nem era por conta do tal dinheiro: que bastava eu exigir e ele civilmente me entregava. Mas matar, matar assassinado, por má lei. Pois não era? Aí, esfreguei bem minhas mãos, ia apalpar as armas. Aí tive até um pronto de rir: nhó Constâncio Alves não sabia que a vida era do tamanhinho só menos de que um minuto…
Ah , mas, então, do sobredentro de minhas ideias ― do que nem certo sei se seja meu uma minha-voz, vozinha forte demais, de tão fraca, suministrou um cochicho. Foi. Em tão curta ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um recanto tem, miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço de entrar, então, em meus grandes palácios. No coração da gente, é o que estou figurando. Meu sertão, meu regozijo! Que isto era o que a vozinha dizia! ― Tento, cautela, toma tento, Riobaldo! que o diabo fincou pé de governar tua decisão!... A anteguarda que ouvi, e ouvi seteado; e estribei minhas forças energias. Que como? Tem então freio possível? Teve, que teve. Aí resisti o primeiramente. Só orçava. O instante que é, é ― o senhor nele se segure. Só eu sei.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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