[…]
Aquelas obras, então, Diadorim não
visse? Ah, conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de
tardinha palmeando em lume-dágua. O amor dá as costas a toda
reprovação. E era o que Diadorim agora desfazia em mim, no
amargoso.
― Repuno: que você está diferente
de toda pessoa, Riobaldo... Você quer dansação e desordem...
Mexi meu cuspe dentro da boca.
― ...A bem é que falo, Riobaldo,
não se agaste mais... E o que está demudando, em você, é o
cómpito da alma ― não é razão de autoridade de chefias...
Diadorim disse, e a voz dele, ecosa,
me rodeou; as certas sinceridades. Amizade de amor surpreende uns
sinais da alma da gente, a qual é arraial escondido por detrás de
sete serras? Aí, demorei. Eu ia aceitar essa repreensão? Ah, nunca.
E, desaguardadamente, eu atinei com outro motivo, para opor: a
extratada conversa, que Diadorim tinha tido, adeparte, com o arrieiro
de uma tropa. Perguntei, contra:
― O segredo, com o velho arrieiro da
tropa, Diadorim, que se falaram ― era de minha pessoa?
Essa tropa, que passara por nós, dias
antes, rumava para o Abaeté, com carga de fumo, mantas de borracha,
couros de onça e de lontra e cera de palmeiral, pouca coisa. Fossem
atravessar o rio, num porto; iam passar por terras minhas conhecidas,
nos sertões menores... Agora, eu queria saber.
― Aquele levou um recado meu.
Instruí o homem que levasse um recado...
― Um recado, de mim? Aí hei, que?!
Malfiz?!...
― Um recado. Mais tu não pergunte,
Riobaldo! que, o que fiz, foi.
Dizendo, Diadorim se arredou de mim,
com uma decisão de silêncio. Não vê, que nem precisava. Eu tinha
guardado meus ouvidos. Eu não queria escutar o reto, naquela
ocasião, por desânimo de ser. Diadorim tinha citado alma. O que ele
soubesse, não soubesse, não tinha ciência de coisa nenhuma, da
arte em que eu tinha ido estipular o Oculto, nasVeredas Mortas, no
ermo da encruzilhada... Aquilo não formava meu segredo? E, mesmo, na
dita madrugada de noite, não tinha sucedido, tão pois. O pacto
nenhum ― negócio não feito. A prova minha, era que o Demónio
mesmo sabe que ele não há, só por só, que carece de existência.
E eu estava livre limpo de contrato de culpa, podia carregar nômina;
rezo o bendito! Trastempo, mais outras coisas sobrevinham, mas por
roda normal do mundo, ninguém podia afiançar o contrário. Apús
pedra por sobre pedra, não guardo lembrança. Eu era o chefe. Vez
minha de dar comando e estar por mais alto. Zé Bebelo tinha de todo
desaparecido. Agora, o que se carecia, era de se pegar mais munição.
Todos deviam de me obedecer completamente. Só eu não queria abusar.
Por que não queria? Ah, então, eu estava em dúvidas. Até por isso
era que eu estremecia, fino, no ouvir certas menções. A haver a
coisa que de longe me ameaçasse, feito o vem-vem das núvens de
chuva. O demo, mesmo assim, podia me marcar? Se não fosse, como era
que Diadorim viesse vir com aquelas palavras? Acho que eu não era
capaz de ser uma coisa só o tempo todo.
Do que Diadorim se estranhava, era do
seguinte! tinha sido o que aconteci com um sujeito senhor, um que
disse se chamar nhô Constâncio Alves, que topamos no Chapéu-do-Boi.
E também do desgraçado do homenzinho-na-égua, com o cachorro dele,
que vieram vindo, três léguas depois daquele. As coisas vãs
esparramáveis.
De que tivesse neste mundo um tal nhó
Constâncio Alves, o que era que eu ponderava com isso? Mas ele mesmo
ali loguinho falou: que era nado no pé da serra de Alegres, e sendo
da minha primeira terra, também. Foi bem tratado. Mas disse que
podia ser de ter me conhecido, quando eu menino. Isso me disse aquele
nhó Constâncio Alves. Queria recompensas? Aos princípios, não
desgostei de prosear com um antigo assim, compatrício, asseado em
suas roupas e bem-avindo. Aí ele tomou café, com a gente. A dar,
que o homem foi se avontadeando, encompridando as respostas; eu mesmo
dava jeito para que ele tomasse coragem.
Até que, um certo momento, o pretinho
Guirigó se chegou sorrateiro, e emitiu em minha orêlha. ― Ió
chefe... ― arenga do menino Guirigó, que às vezes bem não
regulava. O capeta ― ele falou no capeta? Ou então, só de olhar
para ele, e escutar, eu pensei no capeta; mas, que era do capeta, eu
entendi. Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus
avessos. Aquele homem tinha quantia consigo: tinha consciência ruim
e dinheiro em caixa... ― assim eu defini. Aquele homem merecia
punições de morte, eu vislumbrei, adivinhado. Com o poder de quê:
luz de Lúcifer? E era, somente sei. A porque, sem prazo, se
esquentou em mim o dóido afã de matar aquele homem, tresmatado. O
desejo em si, que, nem era por conta do tal dinheiro: que bastava eu
exigir e ele civilmente me entregava. Mas matar, matar assassinado,
por má lei. Pois não era? Aí, esfreguei bem minhas mãos, ia
apalpar as armas. Aí tive até um pronto de rir: nhó Constâncio
Alves não sabia que a vida era do tamanhinho só menos de que um
minuto…
Ah , mas, então, do sobredentro de
minhas ideias ― do que nem certo sei se seja meu uma minha-voz,
vozinha forte demais, de tão fraca, suministrou um cochicho. Foi. Em
tão curta ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um
recanto tem, miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço
de entrar, então, em meus grandes palácios. No coração da gente,
é o que estou figurando. Meu sertão, meu regozijo! Que isto era o
que a vozinha dizia! ― Tento, cautela, toma tento, Riobaldo! que o
diabo fincou pé de governar tua decisão!... A anteguarda que ouvi,
e ouvi seteado; e estribei minhas forças energias. Que como? Tem
então freio possível? Teve, que teve. Aí resisti o primeiramente.
Só orçava. O instante que é, é ― o senhor nele se segure. Só
eu sei.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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