quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

1609 – Santiago do Chile

As regras da mesa

Disseram-lhe esta manhã, quando lhe trouxeram o fumegante, cheiroso chocolate. De um pulo, o governador soltou-se dos lençóis holandeses: o rei da Espanha decidiu legalizar a escravidão dos índios capturados na guerra.
Quase um ano demorou a notícia para atravessar o oceano e a cordilheira. Já faz tempo que no Chile se vendem araucanos na frente de escrivão público, e aos que pretendem escapar, mandam cortar os tendões; mas a aprovação do rei fechará a boca de alguns resmungões que protestam.
Bendiga Deus este pão...
O governador oferece uma ceia aos domadores destas terras ariscas. Os convidados bebem vinho do país em chifres de boi e comem pães de milho enrolados em folhas de milho, a saborosa humita, prato dos índios. Como tinha recomendado Alfonso o Sábio, tomam com três dedos os pedaços de carne com pimenta; e como queria Erasmo de Rotterdam não roem os ossos, nem atiram embaixo da mesa, as cascas da fruta. Depois de tomar a aguinha quente de quelén-quelén, limpam os dentes com um palito, sem deixá-lo depois entre os lábios ou na orelha.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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