As regras da mesa
Disseram-lhe esta manhã, quando lhe
trouxeram o fumegante, cheiroso chocolate. De um pulo, o governador
soltou-se dos lençóis holandeses: o rei da Espanha decidiu
legalizar a escravidão dos índios capturados na guerra.
Quase um ano demorou a notícia para
atravessar o oceano e a cordilheira. Já faz tempo que no Chile se
vendem araucanos na frente de escrivão público, e aos que pretendem
escapar, mandam cortar os tendões; mas a aprovação do rei fechará
a boca de alguns resmungões que protestam.
– Bendiga Deus este pão...
O governador oferece uma ceia aos
domadores destas terras ariscas. Os convidados bebem vinho do país
em chifres de boi e comem pães de milho enrolados em folhas de
milho, a saborosa humita, prato dos índios. Como tinha
recomendado Alfonso o Sábio, tomam com três dedos os pedaços de
carne com pimenta; e como queria Erasmo de Rotterdam não roem os
ossos, nem atiram embaixo da mesa, as cascas da fruta. Depois de
tomar a aguinha quente de quelén-quelén, limpam os dentes com um
palito, sem deixá-lo depois entre os lábios ou na orelha.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário