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Pelo menos dois tipos diferentes de
leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como
arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura
oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas
proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de
Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo,
as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas
maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as
crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da
cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das
crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em
algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon
e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa
George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu
o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um
gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular
de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou
o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de
fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de
tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie
cérebro-e-chapelaria.” [...] A desculpa habitual para as
mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial
é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A
sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo
responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles
ruins a má poesia. Mas, como “assunto”, a sociedade, o Governo
de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia
excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: ‘Em
toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras,
imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”.
O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita
dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e
preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação
do grupo.
Tolice era também a falha que a
senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon.
Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas
leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como
consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o
mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja
trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se
fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua colega,
o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei Shonagon
floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo mais antigo
desse período é o diário de uma senhora da corte conhecida apenas
como a "Mãe de Michitsuna" – o Diário do fim do
verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer a
crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua existência.
Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu: "Enquanto os
dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos romances e achava
a maioria deles uma coleção de invenções grosseiras. Talvez,
disse para si mesma, a história de sua existência enfadonha, na
forma de um diário, pudesse provocar algum grau de interesse. Talvez
pudesse até ser capaz de responder: isto é vida apropriada para uma
dama bem-nascida?".
Apesar das críticas da senhora
Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página
em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às
emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres
do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres
nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de
travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas
próprias historiadoras.
“Há quatro maneiras de escrever a
vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G.
Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe
chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção;
um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é
chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida
antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o
processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn
Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas
literaturas que as escritoras do período Heian produziram:
monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses
textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não
vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e
fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de
leitores segregados: a literatura que exigem é confessional,
autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades
são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias
exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em
Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um
autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor
proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas
Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La
religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a
própria freira, como substituição do amante ausente e remédio
para seu desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida
erótica, um recinto dentro do qual palavras, em vez de ações,
encarnam os eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu
amor impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e
que pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura
de qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano
Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos
acrescentar – “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve
responder por isso, e que tais prestações de contas são um tipo
primitivo de ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas
como conversa de travesseiro, ou em bares, ou no divã do
psicanalista”. Ao contar “uns para os outros - ou para o mundo
hostil em torno deles - as histórias de suas vidas, não estão
apenas registrando o passado, mas também dando forma ao futuro,
forjando uma identidade e, ao mesmo tempo, revelando-a”. Em Sei
Shonagon, bem como na sra. Murasaki, encontram-se as sombras da
literatura feminina que lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot,
na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A
importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu
diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no
trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily,
réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro,
feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e,
consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou
seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores
através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da
imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às
suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na
confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir
uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as
mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha
infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para
mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios
ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas
também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres
escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos
oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas
escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer
livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas
codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência
puseram na sua mesinha-de-cabeceira.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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