segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

I Don’t Know – Paul McCartney



I Don’t Know – Paul McCartney

I got crows at my window
Dogs at my door
I don’t think I can take any more
What am I doing wrong?
I don’t know

My brother told me
Life’s not a pain
That was right when it started to rain
Where am I going wrong?
I don’t know

But it’s alright, sleep tight
I will take the strain
You’re fine, love of mine
You will feel no pain

Well I see trouble
At every turn
I’ve got so many lessons to learn
What am I doing wrong?
I don’t know

Now what’s the matter with me?
Am I right, am I wrong?
Now I’ve started to see
I must try to be strong
I tried to love you
Best as I can
But you know that I’m only a man
Why am I going wrong?
I don’t know

But it’s alright, sleep tight
I will take the strain
You’re fine, little love of mine
You will feel no pain

I got crows at my window
Dogs at my door
But I don’t think I can take any more
What am I doing wrong?
I don’t know

Now what’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
What’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know
What’s the matter with me?
I don’t know, I don’t know

Ser pai ou mãe é um negócio interessante. Fazemos nenéns pela pura alegria de trazer uma criaturinha ao mundo e tudo o que vem com ela. Mas, às vezes, a gente se esquece de que um dia elas vão crescer. Conheço gente que diz: “Ah, eu não gosto delas quando são nenéns. Gosto delas quando ficam um pouco mais velhas”. Não concordo. Eu gosto delas quando são nenéns, mas digamos que vai ficando mais interessante à medida que crescem, porque entram na conversa outras coisas além de “gu-gu-dá-dá” e “mamã”. Aos poucos, o vocabulário vai se expandindo. Às vezes, é “desafiador”, como se diz, e esse foi um desses momentos.
Andei uns dias um pouco frenético com o que estava acontecendo em casa – o tipo de coisa que acontece com todos nós. É por isso que a canção começa assim: “I got crows at my window/ Dogs at my door”; porque era assim que eu estava me sentindo, com corvos na minha janela e cachorros na minha porta, e meio que transbordou, como quem diz: “Nossa, estou tão mal, preciso desabafar”. Assim que a terminei, senti como se estivesse saindo de uma sessão de terapia.
Não é sempre que eu me sinto tão deprimido, mas, nessa ocasião, eu parecia estar carregando um verdadeiro fardo. Após uma ou duas estrofes gemendo comigo mesmo, tendo a chuva como símbolo de tristeza, então penso: “Qual é o outro lado disso? Não vai dar certo ou ainda posso encontrar um consolo?”. Imagino que, na condição de pai, eu queria dizer: “Está tudo bem, vai dar certo, não se preocupe”. Em seguida, temos esta seção de ponte: “But it’s alright, sleep tight/ I will take the strain/ You’re fine, love of mine/ You will feel no pain”.
Portanto, isso define a ideia básica. Estou falando sobre os meus problemas, como eu faria numa canção de blues. “Well I see trouble/ At every turn/ I’ve got so many lessons to learn”. Quando você está triste, está triste. Se eu vou cantar uma música sobre tristeza, levando em conta os meus gostos musicais ao longo dos anos, a coisa tende a se inclinar para o blues, a forma que serviu de base ao rock’n’roll. É uma sensação boa cantar naqueles termos. É uma sensação boa incorporar a tristeza em vez de só dizer: “Tô muito triste hoje”.
Em muitos aspectos, a poesia e a música têm a ver com isso – a capacidade de projetar ou mostrar algo por meio da própria arte, de elevar todos esses tipos de emoções a um nível mais alto, exatamente como um bom professor de redação às vezes pede a você para “mostrar” em vez de apenas “contar”.
Esta é uma canção que ainda não tocamos em shows, porque é um pouco complicada, e eu ando na linha tênue entre fazer música que é muito simples – rock’n’roll com três, quatro acordes, no máximo, muito minimalista – ou a música da época do meu pai, por causa das melodias e das harmonias e da sagacidade dessas canções. Eu penso nos grandes compositores dos sucessos da época de papai, como Harold Arlen, Cole Porter, os Gershwin, todos egressos dessa tradição. Nessa época, a Broadway estava no auge, e Hollywood estava no auge, então esse pessoal que se tornou adepto de inventar pequenas rimas inteligentes transformou isso numa grande tradição estadunidense.
Sempre me interessei muito por esse período, a época que talvez tenha durado até pouco depois de eu nascer, quando havia um piano em cada casa, quando existia, em muitos lares, a tradição generalizada de compor pequenas cantigas para o aniversário de alguém. Todo mundo se arriscava como compositor. Por isso, às vezes, eu me afasto dos três ou quatro acordes e tento explorar outras formações.
I Don’t Know” é uma daquelas canções em que eu acabo saindo de minha zona de conforto. Não se restringe a Dó, Fá, Sol. Também tem Lá bemol e Mi bemol. Tem um pouco mais de colorido. Se tem uma coisa de que eu gosto é tentar coisas diferentes e experimentar.
Costumo dizer que compor uma canção é como falar com um psicoterapeuta, e esta canção é exatamente isso. Sou eu expondo meus problemas e pensamentos e me perguntando o que é que estou fazendo de errado. Mas a resposta é: “Não sei”.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

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