quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Parte 1



1

[…]

Mas lembro que certa vez, do lado de fora de um bar em Savage, Minnesota, num dia em que o calor estava de rachar, quase perdi o controle. Tínhamos passado cerca de uma hora no bar; quando saímos, as máquinas estavam tão quentes que mal conseguíamos montar. Eu já estava pronto para ir embora e John ainda tentava dar a partida no motor. Sinto um cheiro forte de gasolina, como se estivéssemos ao lado de uma refinaria, e o afirmo, pensando que isso seria suficiente para ele saber que o motor está afogado.
É, também estou sentindo – diz ele, e continua tentando dar a partida com o pé. Ele pula, toma impulso, baixa mais uma vez e outra vez a alavanca de partida e eu não sei mais o que dizer. Por fim, ele já está esbaforido, o suor lhe escorre pelo rosto e o cansaço o impede de continuar tentando. Então, sugiro que tiremos as velas para secá-las e arejar os cilindros enquanto tomamos mais uma cerveja.
Meu Deus, de jeito nenhum! Ele não quer começar com tudo isso.
Tudo isso o quê?
Ah, tirar fora as ferramentas e tudo o mais. Não tem motivo para ela não querer pegar. É uma máquina novinha em folha e estou seguindo perfeitamente as instruções. Veja só, o afogador está completamente puxado, como eles dizem.
Afogador?
É o que está nas instruções.
Isso é para quando o motor está frio!
Bem, nós ficamos lá dentro pelo menos meia hora – ele diz.
Isso me abala.
John, está fazendo calor – digo. – E um motor de moto leva mais tempo do que isso para esfriar mesmo que esteja nevando.
Ele coça a cabeça.
Bom, então por que eles não dizem isso no manual de instruções? – Abre o afogador e na segunda tentativa o motor pega. – Acho que era isso – diz ele, todo contente.
No dia seguinte, estávamos na mesma região e o problema aconteceu de novo. Dessa vez eu estava determinado a não falar sequer uma palavra. Quando minha mulher me pediu que fosse ajudá-lo, fiz que não com a cabeça. Disse a ela que, enquanto John não sentisse uma necessidade premente de ajuda, qualquer tentativa de auxílio só serviria para irritá-lo. Assim, desmontamos e sentamo-nos à sombra para esperar.
Notei que, enquanto pisava loucamente a alavanca de partida, ele falava com Sylvia de maneira supereducada, o que queria dizer que estava furioso. Ela olhava para nós com um rosto suplicante. Se ele tivesse feito uma única pergunta, eu teria me levantado imediatamente para fazer o diagnóstico, mas ele não quis. Deve ter levado uns quinze minutos para conseguir fazer o motor pegar.
Mais tarde, estávamos novamente tomando cerveja junto ao lago Minnetonka e todos conversávamos ao redor da mesa, mas ele guardava silêncio e percebi que, lá dentro, estava realmente aborrecido, como que amarrado. Ainda. Provavelmente para desabafar, ele disse por fim:
Sabe… quando ela não quer pegar… como aconteceu dessa vez… viro um monstro por dentro. Fico paranóico. – Com isso, ele pareceu se soltar um pouco e acrescentou:
Na loja, eles só tinham essa moto, sabe? Esse azedume. E não sabiam o que fazer com ela, se a mandavam de volta à fábrica, se a vendiam para um ferro-velho ou seja lá o que for… e então, no último segundo, me viram chegar. Com mil e oitocentos dólares no bolso. E perceberam que todos os problemas deles estavam resolvidos.
Repeti, em voz cantada, o apelo à atividade mecânica, e ele tentou ouvir. Às vezes, ele realmente se esforça. Porém, o bloqueio baixou de novo, ele foi até o balcão pedir mais uma rodada para todos nós e o assunto morreu.
Ele não é teimoso, não tem a mente estreita, não é preguiçoso nem é burro. Não havia uma explicação simples. Assim, a questão ficou no ar como uma espécie de enigma que a gente desiste de desvendar porque não vale a pena andar em círculos em busca de uma resposta que não existe.
Ocorreu-me que talvez o meu ponto de vista fosse incomum, mas descartei também essa hipótese. A maioria dos motociclistas que gostam de viajar sabe regular suas máquinas. Os donos de automóveis geralmente não mexem no motor, mas não existe nenhuma cidade, por menor que seja, que não tenha uma oficina com um elevador caro, ferramentas especiais e equipamentos de diagnóstico que os donos de automóvel, em geral, não têm dinheiro para comprar. Além disso, o motor de um carro é mais complexo e menos acessível que o de uma motocicleta, de modo que a atitude dos donos de carro tem algum sentido. Mas aposto que entre o ponto em que estamos e Salt Lake City não há nenhum mecânico que saiba mexer na motocicleta de John, uma BMW R60. Se as velas ou os contatos elétricos queimarem, babau. Eu sei que ele não leva consigo um jogo de contatos de reserva. Ele nem sabe o que são os contatos. Se a máquina der problema na região oeste de Dakota do Sul ou em Montana, não sei o que ele vai fazer. Talvez vendê-la aos índios. Mas sei o que ele está fazendo neste exato momento. Está se empenhando cuidadosamente em não pensar em absoluto nesse assunto. A BMW é famosa por não dar problemas na estrada, e é com isso que ele conta.
Eu teria pensado que essa atitude peculiar de John e Sylvia se refere apenas às motos, mas depois descobri que se estendia também a outras coisas… Certa manhã, sentado na cozinha da casa deles e esperando que se aprontassem, notei que a torneira da pia estava pingando e lembrei que ela já estava pingando na vez anterior em que eu estivera lá; que, na verdade, estava pingando desde a primeira vez em que a vira. Fiz um comentário sobre o assunto e John me disse que tentara consertá-la com uma borracha nova, mas que o conserto não tinha dado certo. E não disse mais nada. Conclusão: fim de papo. Se você tenta consertar a torneira e seu conserto não dá certo é porque você está fadado a conviver com uma torneira que vaza.
Isso me levou a pensar se esse pinga-pinga, dia após dia, ano após ano, não lhes dava nos nervos; mas, como não notei nenhuma irritação ou preocupação da parte deles, concluí que coisas como uma torneira que pinga simplesmente não os incomodavam. Tem gente que não se incomoda com isso.
Não lembro bem o que me fez reformular essa conclusão… foi alguma intuição, alguma ideia que tive certo dia… talvez tenha sido uma sutil mudança de humor em Sylvia quando a torneira estava pingando mais alto do que de costume e ela tentava falar. A voz dela é muito suave. Certo dia, enquanto tentava falar mais alto que o pingar da torneira, as crianças entraram e a interromperam, e ela perdeu a paciência. Tive a impressão de que sua raiva das crianças não teria sido tão grande se a torneira não estivesse pingando enquanto ela tentava falar. Foi a combinação do pingar da torneira com o berreiro das crianças que a fez explodir. O que mais me marcou na ocasião foi que ela não culpava a torneira, e não o fazia de propósito. Não estava, em absoluto, ignorando a torneira! Estava reprimindo sua raiva da torneira, e aquela maldita torneira estava a ponto de acabar com ela! Mas, por um motivo qualquer, ela não podia admitir o quanto esse fato era importante.
Por que reprimir a raiva de uma torneira que pinga? Foi o que me perguntei.
Então isso se juntou à manutenção da motocicleta, uma daquelas lâmpadas se acendeu sobre a minha cabeça e pensei: “Ahhhhhhhh!”
Não é a manutenção da motocicleta nem a torneira. O que eles não engolem é a tecnologia como um todo. Todas as peças começaram então a se encaixar, e eu sabia que tinha descoberto o problema. A irritação de Sylvia com uma amiga que pensava que a programação de computadores era uma atividade “criativa”. Todos os desenhos, pinturas e fotografias deles, nos quais não aparece sequer um aparelho tecnológico. Pensei: é claro que ela não vai se irritar com a torneira. As pessoas sempre reprimem a raiva momentânea de algo que odeiam profunda e permanentemente. É claro que John sempre muda de assunto quando começamos a falar do conserto de motocicletas, mesmo quando é óbvio que o problema o faz sofrer. É a tecnologia. E é isso mesmo, é evidente, é óbvio. É muito simples quando o percebemos. Eles sobem na motocicleta para escapar da tecnologia e fugir para o campo, o ar fresco e a luz do sol. Quando trago o tema à baila exatamente no momento e lugar em que acham que finalmente escaparam dele, eles são acometidos de uma tremenda paralisia. É por isso que a conversa sempre se interrompe e se congela quando surge esse assunto.
Há outras coisas que também se encaixam nessa explicação. De vez em quando, com um sofrimento atroz e usando um mínimo de palavras, eles falam sobre “isso” ou “tudo isso”, como na frase “Não é possível escapar disso”. Se eu pergunto “Do quê?”, a resposta pode ser “De tudo isso”, “De toda essa organização” ou até mesmo “Do sistema”. Certa vez, na defensiva, Sylvia disse: “Bem, você sabe como lidar com isso.” Na hora, isso me deixou tão envaidecido que tive vergonha de perguntar o que era “isso”, e assim continuei sem saber do que se tratava. Pensei que era algo mais misterioso que a tecnologia. Agora, porém, percebo que “isso” é principalmente, se não unicamente, a tecnologia. Por outro lado, essa ideia também não me parece correta. “Isso” é uma espécie de força que dá origem à tecnologia, uma coisa indefinida, inumana, mecânica, sem vida, um monstro cego, uma força mortífera. Uma coisa abominável da qual eles fogem, mas da qual sabem que não poderão escapar. Este meu jeito de falar é muito pesado; mas, de maneira um pouco menos enfática e menos definida, é disso que se trata. Em algum lugar existem pessoas que compreendem isso e são capazes de controlá-lo, mas são tecnólogos que, quando falam sobre o que fazem, usam uma linguagem inumana, feita de segmentos e relações entre coisas desconhecidas que nunca adquirem sentido, por mais que você ouça falar delas. E as coisas, os monstros que eles constroem, continuam devorando a terra e poluindo o ar e os lagos, e não há como revidar nem, na prática, nenhum meio de escapar.
Não é difícil chegar a essa atitude. Quando você passa pela zona industrial de uma grande cidade, lá está a tecnologia em toda a sua pujança, rodeada de cercas de arame farpado, portões trancados e grandes tabuletas que dizem PROIBIDA A ENTRADA. Mais adiante você vê, através do ar enfumaçado, horrendas formas de metal e tijolo cuja finalidade é desconhecida e cujos senhores você jamais verá. Não sabe o que aquilo significa para você e não há ninguém para lhe dizer por que aquilo existe; assim, você só pode se sentir jogado para escanteio, repelido, como se aquele não fosse o seu lugar. As pessoas que compreendem e possuem essas coisas não querem você por lá. De repente, toda essa tecnologia fez de você um estranho em sua própria terra. A forma, a aparência, o próprio mistério que a envolve dizem: “Fora!” Você sabe que em algum lugar tudo isso tem uma explicação e que, sem dúvida, a operação dessas máquinas faz algum bem indireto à humanidade, mas não é isso que vê. O que vê são as tabuletas de PROIBIDA A ENTRADA, PASSAGEM PROIBIDA; não vê as coisas servindo às pessoas, mas as pessoas, pequenas comoformigas, servindo a essas formas estranhas e incompreensíveis. E pensa: mesmo que eu fizesse parte disso, mesmo que não fosse um estranho, seria somente mais uma formiga a servir as formas. A sensação final é de hostilidade, e acho que, em última análise, é isso que explica essa atitude de John e Sylvia, a qual de outra maneira seria inexplicável. Se alguma coisa envolve válvulas, eixos e chaves inglesas, ela faz parte desse mundo desumanizado, e o melhor é não pensar no assunto. Eles não querem se envolver com isso.
Nesse caso, eles não estão sós. Não duvido de que têm seguido seus sentimentos naturais e não têm tentado imitar ninguém. Mas muitos outros também têm seguido seus sentimentos naturais sem imitar ninguém, e há um número enorme de pessoas que têm os mesmos sentimentos naturais acerca dessa questão; a tal ponto que, quando se consideram essas pessoas em sua coletividade, como fazem os jornalistas, tem-se a ilusão de um movimento de massas, um gigantesco movimento antitecnológico, uma nova esquerda antitecnológica que está surgindo, avultando no horizonte, nascendo do nada para dizer: “Chega de tecnologia. Levem-na para algum outro lugar. Não queremos tecnologia aqui.” O movimento ainda é contido por uma fina camada de lógica que observa que, sem as fábricas, não há empregos nem um bom padrão de vida. Porém, existem forças humanas mais poderosas que a lógica. Essas forças sempre existiram e, caso venham a se tornar poderosas o suficiente em seu ódio à tecnologia, a fina camada poderá se romper.
Os antitecnólogos e as pessoas contrárias ao sistema foram marcados com vários clichês e estereótipos, como os de “beatnik” ou “hippie”, e continuarão sendo. Mas a simples invenção de um adjetivo coletivo não basta para converter indivíduos em elementos da massa. John e Sylvia, como muitos outros que seguem o mesmo caminho, não são elementos da massa. Na verdade, é contra essa massificação que eles parecem se revoltar. E sentem que a tecnologia tem muito a ver com as forças que estão tentando massificá-los; e não gostam disso. Até agora têm empreendido sobretudo uma resistência passiva, fugindo para a zona rural sempre que possível e outras coisas desse tipo, mas essa passividade pode não durar para sempre.
Se discordo deles quanto à manutenção de motocicletas, não é por não me identificar com os sentimentos deles a respeito da tecnologia. Simplesmente acho que o ódio deles à tecnologia e o ato de fugir dela são autodestrutivos e autocontraditórios. O Buda, a Divindade, repousa com a mesma tranquilidade nos circuitos de um computador ou nas engrenagens de uma caixa de transmissão quanto no topo de uma montanha ou nas pétalas de uma flor. Pensar o contrário disso é aviltar o Buda – ou seja, aviltar a si mesmo. É disso que pretendo falar nesta Chautauqua.*

* * *

Já saímos dos pântanos, mas o ar ainda está tão úmido que podemos olhar direto para o círculo amarelo do sol, como se o céu estivesse encoberto da fumaça de fábricas. De qualquer modo, já estamos no meio de uma paisagem verdejante. As casas de fazenda são limpas, brancas e bem cuidadas. E não há fumaça à vista.

*As Chautauquas, cujo nome deriva da região do estado de Nova York onde a instituição foi fundada, eram espetáculos itinerantes que associavam o ensino e o entretenimento, assumindo geralmente a forma de palestras, concertos e espetáculos teatrais apresentados ao ar livre ou numa tenda especialmente montada. A instituição floresceu no final do século XIX e início do século XX. (N. do T.)

Robert M. Pirsig, em Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas  Uma Investigação Sobre os Valores

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