[…]
Com a chegada da crise, acrescentava,
sua intensidade e universalidade “hão de enfiar a dialética até
mesmo na cabeça dos parasitas afortunados do novo Sacro Império
teutoprussiano”.
Vã esperança: quase um século e
meio depois, o uso da dialética por Marx no Capital permanece
uma questão de acalorada disputa. O método deriva dos primeiros
estudos que fez sobre Hegel, sintetizando muitas formas dialéticas
anteriores – dos paradoxos de Zenão à crítica kantiana – em
algo que pode ser mais bem resumido como um processo autogênico de
razão. Hegel denominava-o “a compressão de opostos em uma unidade
ou do positivo no negativo”, uma busca de contradições e sua
incorporação em ideias novas e mais completas. Cada idéia é
produto de uma fase sua menos desenvolvida e contém em si o germe de
uma noção mais avançada.
A relevância desse aspecto para a
própria concepção de progresso econômico de Marx é
suficientemente clara, embora Hegel, mais idealista que materialista,
certamente teria protestado contra a inversão de seu método. Para
ele, o mundo real não passa de uma expressão da “Ideia”,
enquanto para Marx a ideia é o mundo material refletido e traduzido
na mente humana sob a forma de pensamento. “A dialética de Hegel é
a base de todas as demais dialéticas”, escreve Marx, “mas
somente após ter sido desnudada de sua forma mistificada, e isso é
precisamente o que distingue meu método.” No posfácio de 1873,
ele lembra que criticou o lado mistificador da dialética de Hegel
quase 30 anos antes, no momento em que ela ainda estava na moda.
Quando eu elaborava o primeiro
volume do Capital,
epígonos aborrecidos, arrogantes e medíocres, que agora pontificam
na Alemanha culta, se permitiam tratar Hegel … como “um cachorro
morto”. Por isso, confessei-me abertamente discípulo desse grande
pensador e, no capítulo sobre o valor, até andei namorando aqui e
acolá os seus modos peculiares de expressão.
No entanto, como Marx sabia, esses
flertes dialéticos tinham um valor de uso suplementar. Depois de
escrever um artigo sobre a revolta indiana de 1857, sugerindo que a
Inglaterra começaria sua retirada assim que se iniciasse a estação
das chuvas, confessou a Engels: “É possível que eu faça papel de
bobo, mas, nesse caso, sempre há a possibilidade de se safar com um
pouco de dialética. Verbalizei, é claro, minha proposição de tal
modo a ter sempre razão.” Aplicada dessa forma, a dialética
significa jamais ter de admitir os próprios erros.
Mesmo a profecia de aparência mais
inequívoca do Capital – a iminente extinção do
capitalismo – pode, portanto, frustrar o fervor crítico daqueles
que a procuram falsear. Na conclusão do primeiro tomo, Marx afirma
que a competição entre capitalistas concentra a produção em
unidades cada vez maiores, que intensificam a opressão e a
exploração do trabalho, “mas que aumentam também a revolta da
classe trabalhadora, sempre numerosa, disciplinada, unida e
organizada pelo próprio mecanismo do processo de produção
capitalista…. Soa a hora final da propriedade capitalista”.
Muitos leitores deduzem daí que para
Marx o capitalismo já se encontrava no leito de morte – uma
inferência razoável, dado o júbilo apocalíptico com que saudava
cada nova crise financeira. (“Em minha visão, as atuais
circunstâncias deverão em breve levar a um terremoto.”) Contudo,
seria surpreendente que logo Marx, entre todas as pessoas, fizesse
tal suposição. Seu próprio relato histórico das várias formas de
produção econômica – comunismo primitivo, modo de produção
antigo, feudal, capitalista – ressalta que cada período durou
vários séculos, às vezes milênios, antes de se render ao
sucessor. E Marx reconhece que o capitalismo burguês é muito mais
dinâmico e poderoso que qualquer modo de produção anterior. Como
escreveu no Manifesto Comunista, “criou maravilhas que
superam de longe as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos, as
catedrais góticas; realizou expedições que deixaram na sombra as
antigas invasões e as cruzadas”. Como, então, poderia ele
acreditar que esse impressionante poder fracassaria depois de apenas
um ou dois séculos?
Talvez não acreditasse. O primeiro
volume do Capital pode ter soado como o dobre fúnebre do
capitalismo, mas no capítulo final do segundo volume uma
“apresentação esquemática” de cálculos hipotéticos fornece o
modelo de uma economia capitalista que cresce a passos firmes, sem
crises recorrentes, e que poderia, em tese, se reproduzir
indefinidamente. Embora Marx anseie pelo colapso do capitalismo e
pelo fim da exploração – desejo que ocasionalmente irrompe em
profecias de destruição –, a força de sua retórica é
qualificada e matizada quando se estuda seu trabalho como um todo.
Com frequência se faz um retrato determinista e mecanicista de Marx,
que veria o mundo em termos de leis sólidas e consequências
inevitáveis; esta, porém, é uma caricatura. Na verdade ele
argumenta no Manifesto Comunista que a queda da burguesia e a
vitória do proletariado “são igualmente inevitáveis”; contudo,
no livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de 1852,
acrescentou: “Os homens fazem sua própria história, mas não como
querem; não a constroem sob circunstâncias de sua escolha, e sim
sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas
pelo passado.”
O primeiro prefácio escrito para O
Capital promete delinear as “leis naturais da produção
capitalista … que atuam e se impõem com necessidade férrea”. No
entanto, como ex-estudante de direito, Marx sabia que a mera
existência de uma lei contra roubo, digamos, não significa que
todos os roubos irão cessar. Isso é particularmente evidente em
relação a uma de suas mais controversas formulações, a chamada
lei da queda tendencial da taxa de lucro.
A ideia de que a taxa de lucro cairia
à medida que a economia se desenvolvesse era comum a todos os
economistas clássicos, inclusive Adam Smith e David Ricardo, embora
eles discordassem a respeito dos motivos que levariam a isso.
Smith atribuía a queda a um declínio das oportunidades vantajosas;
Ricardo pensava que uma provisão finita de terras levaria ao aumento
dos aluguéis, o que reduziria as margens de lucro. Na interpretação
de Marx – delineada no terceiro tomo do Capital –, a competição
entre os fabricantes iria obrigá-los a investir mais em “capital
constante” (instalações e maquinaria) e proporcionalmente menos
em “capital variável” (salários). Se, como acreditava, o
trabalho humano é a origem do valor de troca, então a taxa de lucro
– se não seu valor verdadeiro – deve cair. Com isso “está
provado, a partir da essência do modo de produção capitalista,
como uma necessidade óbvia, que, em seu progresso, a taxa média
geral de mais-valia deve se expressar em uma taxa geral de lucro em
queda”.
Houve muitos ataques a essa corajosa e
pouco comprovada afirmação, e Marx parecia esperar por eles. Logo
no capítulo seguinte a essa argumentação, busca encontrar as
razões para que na prática a taxa de lucro não tenha caído
segundo as exigências de sua teoria. Uma delas é o comércio
exterior: importações com baixos custos de produção permitem
crescentes margens de lucro. Há também a já mencionada questão do
exército industrial de reserva: o incremento da produtividade
aumenta o número de trabalhadores e força a queda dos salários, o
que desacelera a tendência de substituição do trabalho humano por
maquinaria cara. Em resumo, há “influências em jogo que se
contrariam, que cruzam e superam os efeitos da lei geral, dando-lhe
apenas o caráter de tendência”. De fato, “as mesmas causas que
implicam a queda da taxa geral de lucro provocam efeitos contrários,
que inibem, retardam e em parte paralisam essa queda”. Uma vez mais
tem-se a impressão de que Marx reformula sua proposição de modo a
estar sempre com a razão.
Semelhantes modificações podem ser
encontradas em sua discussão acerca das mencionadas crises endêmicas
de superprodução (ou, vistas de outra perspectiva, de subconsumo).
A primeira consequência de uma recessão, quando ela chega, é a
queda brutal dos preços e a depreciação do capital. Mas isso
restaura a taxa de lucro e permite que o investimento e o crescimento
sejam retomados. Ou, como Marx escreve:
A paralisação da produção
prepara o terreno para uma posterior ampliação da produção dentro
dos limites capitalistas. E assim o ciclo seria novamente percorrido.
Parte do capital que foi desvalorizada pela paralisação funcional
recobraria seu antigo valor. Além disso, com as condições de
produção ampliadas, um mercado ampliado e a força produtiva mais
elevada, o mesmo círculo vicioso se perpetua.
Não se poderiam, portanto, considerar
aqueles tremores periódicos um mecanismo de autocorreção que
assegura a sobrevivência perpétua do sistema mais do que precipita
sua queda? Nas palavras de Leon Trotski, “o capitalismo vive de
crises e expansões, assim como um ser humano vive da inspiração e
expiração”.
Em parte alguma do Capital Marx
explica por que ou como – muito menos quando – o sistema afinal
se autodestruirá. Ele simplesmente expõe sua convicção: cada novo
abalo econômico leva a uma concentração maior de capital, e esse
monopólio se transforma em um entrave ao modo de produção até que
a “centralização dos meios de produção e a socialização do
trabalho atinjam um ponto em que se tornam incompatíveis com seu
invólucro capitalista, e este arrebenta. Os expropriadores são
expropriados”. Com essa alegre perspectiva termina o primeiro (e o
único completo) volume do Capital.
Bem, quase. Após a retumbante
conclusão, Marx decide acrescentar um arremate irônico sob a forma
de um capítulo a respeito da “teoria moderna da colonização”,
concebido para mostrar o que acontece quando os trabalhadores
assalariados se libertam de seus grilhões. Em países como a
Inglaterra, o regime capitalista subordinou tão completamente a si
os recursos da nação que os economistas viam-no como uma parte da
ordem natural. Marx observa, no entanto, que as “coisas são bem
diferentes nas colônias”, onde o possuidor de dinheiro encontra a
barreira dos colonizadores da classe trabalhadora, que usam o
trabalho para enriquecer a si próprios, e não ao capitalista. (“É
algo maravilhoso”, escreveu Engels a Marx em setembro de 1851,
acompanhando a descoberta de ouro no sul da Austrália. “A
Inglaterra será expulsa, e os ‘Estados unidos’ de assassinos,
ladrões, estupradores e batedores de carteiras deportados
surpreenderão o mundo ao demonstrar os prodígios que um Estado
constituído por notórios velhacos pode realizar.”)
A anedota decisiva desse capítulo
final é o relato tragicômico de um certo sr. Peel, que leva consigo
da Inglaterra para o distrito de Swan River, na Austrália ocidental,
50 mil libras esterlinas em espécie e três mil trabalhadores, entre
homens, mulheres e crianças. O personagem negligencia apenas uma
coisa: a necessidade de manter os trabalhadores afastados dos meios
de produção. Ao encontrarem terra livre e disponível na região
erma, eles abandonam o empregador e deixam-no sem nenhum criado para
fazer sua cama ou para buscar-lhe água no rio. “Pobre sr. Peel”,
escreve Marx, “que previu tudo, menos a exportação das relações
inglesas de produção para Swan River!”
Marx encontrou a história de Peel no
livro do empresário Edward Gibbon Wakefield, que a cita como exemplo
das terríveis consequências da colonização espontânea e
desordenada. No assentamento de Swan River, queixa-se Wakefield, “um
grande capital em sementes, gado e instrumentos pereceu por falta de
trabalhadores assalariados, e nenhum povoador possui muito mais
capital além daquele que pode empregar com as próprias mãos”.
Também no norte dos Estados Unidos “é duvidoso se um décimo da
população pertence à categoria dos trabalhadores assalariados”.
Tendo oportunidade, os trabalhadores deixam de ser assalariados e se
tornam produtores independentes – talvez até “concorrentes de
seus antigos patrões no próprio mercado de trabalho assalariado”.
Para remediar esse conflito de interesses, Wakefield defende uma
“colonização sistemática”, que assegure o suprimento de
trabalhadores submissos e dependentes, que, em condição e função,
não se diferenciam muito de escravos. Isso poderia ser alcançado
com facilidade pelo estabelecimento de preços artificialmente
elevados para o solo virgem, colocando-o além do alcance dos
assalariados comuns e compelindo-os a trabalhar para o pobre sr.
Peel.
Pode-se compreender por que Marx se
deliciava tanto com essa franca confissão das exigências do
capitalismo.
O grande mérito de E.G. Wakefield
não é ter descoberto algo sobre
as colônias, mas a verdade sobre as condições capitalistas da
metrópole, … isto é, que os modos de produção e acumulação
capitalista, da mesma forma que suas propriedades privadas, têm sua
base fundamental na aniquilação da propriedade privada que reside
no trabalho individual; em outras palavras, a expropriação do
trabalhador.
O fato de Marx ter escolhido essa
sentença para concluir seu livro nos diz muito a respeito de suas
intenções autorais. Se terminasse com invólucros que arrebentavam
e expropriadores expropriados, O Capital poderia ser tomado,
em essência, como uma obra profética sobre a inevitável ruína do
capitalismo. Em vez disso, ele se volta outra vez para as vítimas,
mais que para os opressores, e reitera o tema dominante: seja qual
for seu destino, dure um século ou um milênio, o capitalismo
depende da exploração.
Voltamos a nosso ponto de partida, a
um inferno terrestre que se assemelha à versão secular do Inferno
de Dante. “Que te interessa o que aqui se murmura?”, Virgílio
pergunta a Dante no Canto V do Purgatório. “Vem comigo, e
ignora das gentes os comentários” [Vien retro a me, e lascia
dir le genti]. Na falta de um Virgílio para guiá-lo, Marx
modifica o verso no prefácio do primeiro volume do Capital para
anunciar que não fará qualquer concessão aos preconceitos da
opinião pública: “… tomo por divisa o lema do grande
florentino: ‘Segui il tuo corso, e lascia dir le genti!’
[Segue teu curso, e ignora das gentes os comentários!].” Desde o
princípio, portanto, o livro é concebido como uma descida às
regiões inferiores, e mesmo em meio a complexas abstrações
teóricas transmite um vívido sentido de espaço e movimento:
Abandonemos, então, junto com o dono
do dinheiro e o detentor da força de trabalho, essa região ruidosa
do mercado, onde tudo que é feito é visível a todos os olhos, para
seguir os dois ao local oculto da produção, em cujo limiar se pode
ler: “Não se permite a entrada senão a negócio.” Aqui há de
se mostrar não só como o capital produz, mas como ele mesmo é
produzido. O segredo da fabricação de mais-valia há de finalmente
ser desvendado.
Os antecedentes literários para tal
jornada são com frequência relembrados à medida que Marx prossegue
seu caminho. Ao descrever as fábricas de fósforos inglesas, onde
metade dos trabalhadores são crianças (algumas com não mais de
seis anos) e as condições, tão repugnantes que “somente a parte
mais miserável da classe trabalhadora, viúvas famintas, por
exemplo, cede seus filhos”, ele escreve:
A jornada variava entre 12, 14 e 15
horas, com trabalho noturno, refeições irregulares e geralmente
feitas no próprio local de trabalho, empestado de fósforo. Dante
acharia ultrapassadas suas fantasias mais cruéis sobre o inferno
nessa manufatura.
Outros infernos imaginários conferem
um ornamento adicional ao retrato que faz de uma realidade empírica:
Da massa diversa de trabalhadores
de todas as profissões, idades, sexos, que nos atropelam com mais
zelo que as almas dos assassinados à volta de Ulisses, e nos quais
se reconhece à primeira vista, sem se referir aos livros azuis que
levam sob os braços, as marcas do excesso de trabalho,
selecionaremos ainda duas figuras cujo contraste flagrante demonstra
que, diante do capital, todos os seres humanos são iguais – uma
modista e um ferreiro.
Esta é a deixa para uma história
sobre Mary Anne Walkley, uma jovem de 20 anos que morreu “por
simples excesso de trabalho” depois de se esforçar sem descanso
por mais de 26 horas confeccionando os vestidos de luxo para as
convidadas de um baile promovido pela princesa de Gales em 1863. Sua
empregadora (“uma dama com o agradável nome de Elise”, segundo o
cáustico comentário de Marx) ficou surpresa ao descobrir que a
jovem morrera sem finalizar os ornamentos da última peça que estava
costurando.
Se essas personagens não tivessem
existido, Charles Dickens talvez se sentisse tentado a inventá-las.
Há uma textura dickensiana em vários momentos do Capital, e
Marx acena com explícita casualidade para um autor que tanto amava.
Eis aqui, por exemplo, como ele se bate contra os apologistas
burgueses, segundo os quais suas críticas a determinados usos
particulares da tecnologia caracterizariam-no como um inimigo do
progresso social, que não deseja qualquer emprego de maquinaria:
Idêntico ao raciocínio do célebre
Bill Sikes: “Senhores jurados! Sem dúvida a garganta desse
caixeiro-viajante foi cortada. Não é, porém, culpa minha, mas da
faca. Por causa de tais aborrecimentos temporários, deveríamos
eliminar a utilização da faca? Pensem uma única vez! Que seria da
agricultura e do artesanato sem ela? Será que não é tão benéfica
na cirurgia quanto sábia na anatomia? Além disso, uma auxiliar
prestimosa em alegres banquetes? Eliminem a faca – e nos lançarão
de volta à mais profunda barbárie.”
Bill Sikes não faz esse discurso em
Oliver Twist: essa é a extrapolação satírica de Marx.
“Eles são meus escravos”, diria algumas vezes, gesticulando para
os livros em sua estante, “e devem me servir como eu desejar.” A
tarefa dessa força de trabalho não remunerada era providenciar
matéria-prima que pudesse ser moldada segundo seus próprios
interesses. “Sua conversação não segue em linha reta, mas é tão
variada quanto os volumes em suas estantes”, escreveu um
entrevistador do Chicago Tribune que visitou Marx em 1878.
Um homem pode em geral ser julgado
pelos livros que lê, e o leitor pode tirar suas próprias conclusões
quando lhe digo que um olhar casual revelou Shakespeare, Dickens,
Thackeray, Molière, Racine, Montaigne, Bacon, Goethe, Voltaire,
Paine; livros azuis ingleses, norte-americanos e franceses; obras
políticas e filosóficas em russo, alemão, espanhol, italiano etc.
De fato, et cetera: em 1976,
S.S. Prawer escreveu um livro de 450 páginas dedicadas inteiramente
às referências literárias de Marx. O primeiro volume do Capital
revelava citações da Bíblia, de Shakespeare, Goethe, Milton,
Voltaire, Homero, Balzac, Dante, Schiller, Sófocles, Platão,
Tucídides, Xenofonte, Defoe, Cervantes, Dryden, Heine, Virgílio,
Juvenal, Horácio, Thomas More, Samuel Butler – além de alusões a
narrativas de terror sobre lobisomens e vampiros, panfletos alemães,
obras do romantismo inglês, baladas populares, canções e jingles,
melodrama e farsa, mitos e provérbios.
E o que dizer sobre o prestígio
literário do próprio Capital? Marx sabia que não o teria de
segunda mão, pela mera oferta de flores por parte de outros homens.
No primeiro volume ele desdenha daqueles economistas que
… ostentavam uma erudição
histórico-literária ou misturavam material estranho para dissimular
a sensação, não completamente reprimível, de impotência
científica, bem como a má consciência de terem de ensinar aos
outros o que eles próprios não dominam.
O medo de que ele próprio pudesse ter
incorrido nessa ofensa talvez explique a confissão angustiada, no
posfácio à segunda edição, de que “ninguém pode julgar mais
severamente que eu as carências literárias do Capital”.
Assim mesmo, é surpreendente que tão poucas pessoas tenham
considerado o livro uma obra de literatura. O Capital originou
inúmeras análises a respeito da teoria do valor-trabalho de Marx ou
de sua lei da queda tendencial da taxa de lucro. No entanto, apenas
alguns poucos críticos prestaram a devida atenção ao desejo
intenso – declarado por Marx em várias cartas a Engels – de
produzir uma obra de arte.
[...]
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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