— “Tonerre de Dieu!”
Blasfêmia? Não era blasfêmia.
Pronunciada com ênfase, que carregava no “eeerre” mas excluía a
ideia de desafio à divindade, a exclamação tinha caráter
informativo. Do meu canto, no bar, prestando ouvidos à roda
movimentada, aprendi a receita de um drinque.
— Tonerre de Dieu é assim —
explicou o que sabia das coisas. — Dois pontos: um quarto de
uísque, um quarto de gim, um quarto de conhaque, um oitavo de vodca,
um oitavo de absinto.
— E caninha?
— Caninha pra quê?
— Não bota um quarto de caninha pra
reforçar a pauta?
O técnico olhou-o com desprezo. Então
a pauta não estava completa e perfeita? Precisava de caninha, se
aquilo já dava de sobra para derrubar um herói de Homero ou de
Grande sertão: veredas? Mania essa de encaixar coisas onde
não tem lugar para elas!
Mas o opinante não se conformava.
Caninha sim. Um quarto de caninha era absolutamente imprescindível
para conferir largo espectro à composição, cujo mérito ele não
discutia, a coisa deve ser legal, não digo que não, mas tenha
paciência, por que não incluir o quantum satis de caninha num
elenco assim prestigioso?
— Você quer que eu modifique a
fórmula internacional, devidamente estudada pelos peritos e testada
por gente de gabarito? É isso que você quer?
— Fórmula internacional. Ótimo.
Você me deu o argumento em favor da caninha. Justamente por ser
internacional, por que não incluir o Brasil nessa jogada?
— É uma reivindicação
nacionalista?
— É e não é. Se o Brasil entra,
só podemos nos regozijar. Ou você é dos que não acreditam na
grandeza da pátria, expressa de múltiplas maneiras? Mas eu não
estou propondo como patriota, eu falo de um ponto de vista estético.
Em nome da divina proporção. São cinco elementos, não são? Que
figuram na receita. Bota mais um, fica equilibrado. O mesmo peso, a
correlação de forças…
— Composição primária, essa que
você sugere. Três de cada lado? Já era, amizade. Diagramação,
hoje, é uma arte que joga com blocos irregulares. E é assim que
deve ser diagramado o tonerre de Dieu.
— Se o negócio é esse, então tira
o absinto e bota caninha. Continuam cinco, e o conjunto ganha em
representatividade.
— Tirar o absinto?! Não diga
besteira. Por que tonerre eu vou tirar o absinto?!
— Absinto é veneno. Faz um mal
danado à gente.
— Pelo contrário, sua zebra.
Absinto é o que há de mais estomacal. Veja os tratados.
— Pois sim. Produz exacerbação
dolorosa das sensações táteis.
— Absinto é tônico. Não sou eu
quem diz. É a medicina.
— Acaba produzindo insensibilidade
total. Também é a medicina que diz.
— Absinto é antiácido!
— Vê lá se eu acredito.
— É febrífugo!
— Que mais?
— Vermífugo!
— Só?
— Absinto é um santo remédio! Até
— mas isto só interessa às damas — é emenagogo.
— Absinto pode ser tudo isso que
você falou, e mais alguma coisa, no papel, não na garrafa. O que eu
sei, e sempre me preveni contra ele por causa disto, é que absinto,
ouviu? destrói a potência sexual.
O da receita estacou:
— Você tem certeza disto?
— Absoluta.
— Pois eu não acredito. E mantenho
a fórmula. Intocável. Sem corrupção. Sem caninha.
— Bota a caninha, bota…
— Nunca!
Um terceiro, meio bêbado, deu uma de
mediador:
— Atende a ele, Fernando. Só que em
lugar de caninha, bota caipirinha nessa tal de trovoada de Deus.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
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