domingo, 5 de outubro de 2025

O menino pretinho Guirigó


[...]

Desde, porém, como já entrávamos no perto do Sucruiú, conforme as léguas que os cascos de nossos cavalos contando, era de ver que voz Zé Bebelo dava, se queria em reto ou atalho. Ah, em reto, foi. Mas nenhum de nós teve sobrôsso. O que era, era. Aquele desgraçado lugar devia de estar lá acolá, no plão alto do campo, em seu sempre. Obra de um tiro de carabina. E como deviam de estar cozinhando, com tanto fogão, porque subia para o pedaço de céu um povoo de fumaças, feito andassem por lá renovando pastos desfora de tempo. Fazia fole de calor. Mas, entre as vertentes, no corguinho rabo serelepe que passamos, de beiras de terra preta, só os animais foram que beberam a toda sede! que, nós, mesmo da água corrente a gente se receava. Donde é que decorre a peste? Até o ver o ar. A poeira e miséria. Azul desbotado poído, sem os realces. O sol carregando de envelhecer antesmente as folhagens ― o começo do mês de junho já dava parecença de alto fim de agosto. Aquele ano declarava de não se ter nem frio, pelo legal. De que valeram as tantas chuvas? Aí este mundo de sertão tinha se perdido ― eu mesmo me disse. Como que íamos atravessar o Sucruiú, lá se chegava. O qual eram as cafuas em suas construções, no entremeio da fumaça. Essas choupanas. Gente? Não se divulgava. E certo que não se tinha medo maior. Antes todos queriam avistar de perto, de passagem, o que aquilo de verdade fosse. Só que se tinha confiança nos bentinhos e verónicas. E de repente correu aviso que Jõe Bexiguento e o Pacamã-de-Presas sabiam reza para São Sebastião e São Camilo de Lélis, que livram de todo mal vago. Como se ter? Como se aprender, também? Tempo não dava. Mas ― o que vieram dizendo, de um em um, se virando para trás nos cavalos: que não se carecia. Assim aqueles dois iam praticar resumida a oração, e cada um, da gente, consigo reproduzisse, constantemente, as fortes ave-marias e padre-nossos, que isso bastava. Assim foi que fizemos. Avante eu rezei.
Algum dia, depois de hoje, hei de esquecer aquilo. Arruado que era até bem largo, mas mal se enxergavam aquelas casas. Ao demais rezando, ao real vendo ― eu vim. Casas ― coisa humana. Em frente delas todas, o que estavam era queimando pilhas de bosta seca de vaca. O que subia, enchia, a fumaça acinzentada e esverdeada, no vagaroso. E a poeira que demos fez corpo com aquele fumegar levantante, tanto tapava, nos soturnos. Aí tossi, cuspi, no entrêcho de minhas rezas. Voz nem choro não se ouviu, nem outro rumor nenhum, feito fosse decreto de todas as pessoas mortas, e até os cachorros, cada morador. Mas pessoas mor que houvesse: por trás da poeira, para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os vultos, e as tristes caras deles, que branqueavam, tantas máscaras. Aos homens e mulheres, apartados tão estranhos, caladamente, seriam os que estavam jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas fogueiras ― isso que deviam de ter por todo remédio. Nem davam fé de nossa vinda, de seus lugares não saíam, não saudavam. Do perigo mesmo que estava maldito na grande doença, eles sabiam ter quanta cláusula. Sofriam a esperança de não morrer. Soubesse eu onde era que estavam gemendo os enfermos. Onde os mortos? Os mortos ficavam sendo os maus, que condenavam. A reza reganhei, com um fervor. Aquela travessia durou só um instantezinho enorme. Mesmo que os cavalos nossos indo íam devagar, que é como se vai, quando todos rezando sozinhos em cima deles, devagar duma procissão. Não se perturbou palavra. E foi que dali acabamos de surgir ― da arrepoeira e fumaça de estrume, e o corusco de labareda alguma, e a mormaceira. Deus que tornasse a tomar conta deles, do Sucruiú, daquele transformado povo.
Olhei o ilustre do céu. Dado dava de um estar soto-livre, conseguido se soltar das possibilidades horrorosas. Revi todos e Diadorim, que era uma cortesia de bondade. Não espiei para trás, não ver de enxergar o fim daquelas casas, no vaporoso par-do-azulado, no exalante. E o que rogava eram coisas de salvação urgente, tão grande! eu queria poder sair depressa dali, para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos. Eu levava Diadorim... Mas, de começo, não vi, não fui sentindo que queria poder levar também Otacília, e aquela moça Nhorinhá, filha de Ana Duzuza, e mesmo a velha Ana Duzuza, e Zé Bebelo, Alaripe, os companheiros todos. Depois, todas as demais pessoas, de meu conhecimento, e as que mal tinha visto, além de que a agradecida formosura da boa moça Rosa uarda, a mocinha Miosótis, meu mestre Lucas, dona Dindinha, o comerciante Assis Wababa, o Vup es ― Vúsps... Todos, e meu padrinho Selorico Mendes. Todos, que em minha lembrança eu carecia de muitas horas para repassar. Igual, levava, ah, o povo do Sucruiú, e, agora, o do Pubo ― os catrumanos escuros. E que para o outro lugar levava restantes os cavalos, os bois, os cachorros, os pássaros, os lugares: acabei que levasse até mesmo esses lugares de campos tão tristes, onde era que então se estava...Todos? Não. Só um era que eu não levava, não podia: e esse um era o Hermógenes!
Aí dele me lembrei, na hora: e esse Hermógenes eu odiasse! Só o denunciar dum rancor ― mas como lei minha entranhada, costume quieto definitivo, dos cavos do continuado que tem na gente. Era feito um nôjo, por ser. Nem, no meu juízo, para essa aversão não carecia de compor explicação e causa, mas era assim, eu era assim. Que ódio é aquele que não carece de nenhuma razão? Do que acho, para responder ao senhor: a ofensa passada se perdoa; mas, como é que a gente pode remitir inimizade ou agravo que ainda é já por vir e nem se sabe? Isso eu pressentia. Juro de ser. Ah, eu.
Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam ― o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu ― o que quero e sobrequero ―: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!
São os momentos, se sei. Senti um cansaço. Adiantamos ligeiro, depois que passado o vau da mata-virgem, e tenteávamos pelo encontrável. O sol ia entrando, vi o céu nos roxos, nos vermelhos. Misturamos numa baixada, no capim cacheado. Umas lavourinhas. Daí, lá se estava, no retiro do Abrão, onde o campo larguêia. Era uma boa casa. Mas, de dentro, saíram, de repente, por suas portas, uns homens, que fugiam corridos, feito ratos se escapulindo do toucinho de um jacá.
Sendo que Zé Bebelo assim na dianteira sempre cavalhava, vente, superintendeu que não perseguíssemos aqueles tais, nem neles se atirasse por comprazimento. O que estavam era em mão de roubando, se soube; como que tinham até sacos, para carregar dentro as coisas. Num átimo, eu reluzi quem que eles podiam ser. Só acertei. Pois não foi que um deles, errando no abrir da fuga, demorou, e perdeu as facilidades; então, veio do nosso lado, embrafustado, quase debaixo dos cavalos. Era um pretinho.
Um rapazola retinto, mal aperfeiçoado; por dizer, um menino. Nú da cintura para os queixos. As calças, rotas em todas as partes, andavam caicaindo; ele apertou perna em perna. Arfava chiado, como quem, por todo engano de pressa, tivesse chupado na boca um gole quente de café demais. Bezerro doente, de mal-de-ano, às vezes faz assim. Cuido que por não perder de todo as calças como vestimenta, ele se ajoelhou ― chato no chão, mais deitado do que ajoelhado. ― A benção! ― pois disse. E a ideia dele rodou ligeira, pois, quando se notou, tinha tirado do bojo do saco o que estava lá: que era um pé de alpercata de homem, um candieirozinho pequeno, desses que vinham da Bahia, uma escumadeira de cozinha e um arranjado envernizado de couro preto, que nem boldrié ― que tudo jogou fora, para uma banda, o longe que pôde. Seguinte o que, mostrou à gente o saco vazio, e com isto dizendo, arquejado:
Tirei não, nada não... Tenho nada... Tenho nada...
Isso tudo se deu curto, que nem o mijar dum sapo; e dum modo tal inocente, de quem visse risse. E em coisa tão tola declarada assim a gente até crê razão, por ser tão afã de absurdo.
Donde é que vocês vieram, dondé? ― Zé Bebelo indarguíu.
A gente quer voltar para casa... Semos, sim, é do Sucruiú, nhor sim...
Arte que a aproveitar, ele tornou a atar melhor o resumo de embira, que cinturava aqueles molambos de calças. E se encolhia, temia; e se ria. Que nome era capaz de ter?
Guirigó... Minha graça é essa... Sou filho de Zé Câncio, seu criado, sim senhor...
Tão magro, trestriste, tão descriado, aquele menino já devia de ter prática de todos os sofrimentos. Olhos dele eram externados, o preto no meio dum enorme branco de mandioca descascada. O couro escuro dele era que tremia, constante, e tremia pelo miúdo, como que receando em si o que não podia ser bom. E quando espiava para a gente, era de beiços, mostrando a língua à grossa, colada no assoalho da boca, mas como se fosse uma língua demasiada demais, que ali dentro não pudesse caber; em bezerro pesteado, às vezes, se vê assim. Menino muito especial. Jagunço distraído, vendo um desses, do jeito, à primeira, era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo, pensando que padecia agonia, e que carecesse dessa ajuda, por livração.
Guirigó, qué que vieram caçar aqui? Fala!
O quê qu a gente veio caçar, sim senhor? Eles vieram, eu também vim... Buscar de comer...
Ih, ques, menino! Quem te vê comer essa tralha que você amoitou aí no saco...
O pretinho espichado no chão sacudia a cabeça, que não que não, que parecia ter gosto de poder negar assim. ― Mas o de comer todo se acabou... Havia de negar tudo, renegava! até que tivesse tido mãe, nascido dela, até que a doença brava estivesse matando o povo do Sucruiú, os parentes todos dele. A gente queria que aquele traste de menino sentisse em si, e se entristecesse, por tantas suas desditas chorasse uma lágrima, a lagrimazinha só, por um momento que fosse. Ah, ele fizesse logo isso, a gente ficava desconsolado e legítimo no triste, a gente ficava tranquilizados. Qual, o menino preto negava. O que ele afirmava, no descaramento firme de seu gesto, era que nem era ninguém, nem aceitava regra nenhuma devida do mundo, nem estava ali, defronte dos cascos dos cavalos da gente. Ah, queria salvar seu corpo, queria escape. Se abraçava com qualquer poeira. De mais, não queria saber. ― Que podia, que fosse logo embora! ― Zé Bebelo consentiu ordem. E ainda jogou um pedaço de rapadura, que ele aparou, fácil, como numa abocada. ― Pra tu adoçar essa tua tripinha preta! ― foi o que Zé Bebelo gritou. E aquele menino, sem fungar, sem olhar para trás, pulou em rumo, maneiro e leviano, se sumiu por onde carecia de ir. Não pensei que fosse tão pequeno, conforme mesmo era.
Coitadinho, os dentes dele estavam alumiando de brancos... ― Diadorim disse.
Hem? Hem? ― Zé Bebelo falou ― O que imponho é se educar e socorrer as infâncias deste sertão!
Eu ia fazer o sinal-da-cruz, mas com a mão não cheguei a bulir, porque isso me pareceu falta de caridade, pensando no menino pretinho.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande sertão: Veredas

Nenhum comentário:

Postar um comentário