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Desde, porém, como já entrávamos no
perto do Sucruiú, conforme as léguas que os cascos de nossos
cavalos contando, era de ver que voz Zé Bebelo dava, se queria em
reto ou atalho. Ah, em reto, foi. Mas nenhum de nós teve sobrôsso.
O que era, era. Aquele desgraçado lugar devia de estar lá acolá,
no plão alto do campo, em seu sempre. Obra de um tiro de carabina. E
como deviam de estar cozinhando, com tanto fogão, porque subia para
o pedaço de céu um povoo de fumaças, feito andassem por lá
renovando pastos desfora de tempo. Fazia fole de calor. Mas, entre as
vertentes, no corguinho rabo serelepe que passamos, de beiras de
terra preta, só os animais foram que beberam a toda sede! que, nós,
mesmo da água corrente a gente se receava. Donde é que decorre a
peste? Até o ver o ar. A poeira e miséria. Azul desbotado poído,
sem os realces. O sol carregando de envelhecer antesmente as
folhagens ― o começo do mês de junho já dava parecença de alto
fim de agosto. Aquele ano declarava de não se ter nem frio, pelo
legal. De que valeram as tantas chuvas? Aí este mundo de sertão
tinha se perdido ― eu mesmo me disse. Como que íamos atravessar o
Sucruiú, lá se chegava. O qual eram as cafuas em suas construções,
no entremeio da fumaça. Essas choupanas. Gente? Não se divulgava. E
certo que não se tinha medo maior. Antes todos queriam avistar de
perto, de passagem, o que aquilo de verdade fosse. Só que se tinha
confiança nos bentinhos e verónicas. E de repente correu aviso que
Jõe Bexiguento e o Pacamã-de-Presas sabiam reza para São Sebastião
e São Camilo de Lélis, que livram de todo mal vago. Como se ter?
Como se aprender, também? Tempo não dava. Mas ― o que vieram
dizendo, de um em um, se virando para trás nos cavalos: que não se
carecia. Assim aqueles dois iam praticar resumida a oração, e cada
um, da gente, consigo reproduzisse, constantemente, as fortes
ave-marias e padre-nossos, que isso bastava. Assim foi que fizemos.
Avante eu rezei.
Algum dia, depois de hoje, hei de
esquecer aquilo. Arruado que era até bem largo, mas mal se
enxergavam aquelas casas. Ao demais rezando, ao real vendo ― eu
vim. Casas ― coisa humana. Em frente delas todas, o que estavam era
queimando pilhas de bosta seca de vaca. O que subia, enchia, a fumaça
acinzentada e esverdeada, no vagaroso. E a poeira que demos fez corpo
com aquele fumegar levantante, tanto tapava, nos soturnos. Aí tossi,
cuspi, no entrêcho de minhas rezas. Voz nem choro não se ouviu, nem
outro rumor nenhum, feito fosse decreto de todas as pessoas mortas, e
até os cachorros, cada morador. Mas pessoas mor que houvesse: por
trás da poeira, para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os
vultos, e as tristes caras deles, que branqueavam, tantas máscaras.
Aos homens e mulheres, apartados tão estranhos, caladamente, seriam
os que estavam jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas
fogueiras ― isso que deviam de ter por todo remédio. Nem davam fé
de nossa vinda, de seus lugares não saíam, não saudavam. Do perigo
mesmo que estava maldito na grande doença, eles sabiam ter quanta
cláusula. Sofriam a esperança de não morrer. Soubesse eu onde era
que estavam gemendo os enfermos. Onde os mortos? Os mortos ficavam
sendo os maus, que condenavam. A reza reganhei, com um fervor. Aquela
travessia durou só um instantezinho enorme. Mesmo que os cavalos
nossos indo íam devagar, que é como se vai, quando todos rezando
sozinhos em cima deles, devagar duma procissão. Não se perturbou
palavra. E foi que dali acabamos de surgir ― da arrepoeira e fumaça
de estrume, e o corusco de labareda alguma, e a mormaceira. Deus que
tornasse a tomar conta deles, do Sucruiú, daquele transformado povo.
Olhei o ilustre do céu. Dado dava de
um estar soto-livre, conseguido se soltar das possibilidades
horrorosas. Revi todos e Diadorim, que era uma cortesia de bondade.
Não espiei para trás, não ver de enxergar o fim daquelas casas, no
vaporoso par-do-azulado, no exalante. E o que rogava eram coisas de
salvação urgente, tão grande! eu queria poder sair depressa dali,
para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em
incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos. Eu
levava Diadorim... Mas, de começo, não vi, não fui sentindo que
queria poder levar também Otacília, e aquela moça Nhorinhá, filha
de Ana Duzuza, e mesmo a velha Ana Duzuza, e Zé Bebelo, Alaripe, os
companheiros todos. Depois, todas as demais pessoas, de meu
conhecimento, e as que mal tinha visto, além de que a agradecida
formosura da boa moça Rosa uarda, a mocinha Miosótis, meu mestre
Lucas, dona Dindinha, o comerciante Assis Wababa, o Vup es ―
Vúsps... Todos, e meu padrinho Selorico Mendes. Todos, que em minha
lembrança eu carecia de muitas horas para repassar. Igual, levava,
ah, o povo do Sucruiú, e, agora, o do Pubo ― os catrumanos
escuros. E que para o outro lugar levava restantes os cavalos, os
bois, os cachorros, os pássaros, os lugares: acabei que levasse até
mesmo esses lugares de campos tão tristes, onde era que então se
estava...Todos? Não. Só um era que eu não levava, não podia: e
esse um era o Hermógenes!
Aí dele me lembrei, na hora: e esse
Hermógenes eu odiasse! Só o denunciar dum rancor ― mas como lei
minha entranhada, costume quieto definitivo, dos cavos do continuado
que tem na gente. Era feito um nôjo, por ser. Nem, no meu juízo,
para essa aversão não carecia de compor explicação e causa, mas
era assim, eu era assim. Que ódio é aquele que não carece de
nenhuma razão? Do que acho, para responder ao senhor: a ofensa
passada se perdoa; mas, como é que a gente pode remitir inimizade ou
agravo que ainda é já por vir e nem se sabe? Isso eu pressentia.
Juro de ser. Ah, eu.
Tivesse medo? O medo da confusão das
coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto
houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam ―
o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros,
ninguém tenha. O maior direito que é meu ― o que quero e
sobrequero ―: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!
São os momentos, se sei. Senti um
cansaço. Adiantamos ligeiro, depois que passado o vau da
mata-virgem, e tenteávamos pelo encontrável. O sol ia entrando, vi
o céu nos roxos, nos vermelhos. Misturamos numa baixada, no capim
cacheado. Umas lavourinhas. Daí, lá se estava, no retiro do Abrão,
onde o campo larguêia. Era uma boa casa. Mas, de dentro, saíram, de
repente, por suas portas, uns homens, que fugiam corridos, feito
ratos se escapulindo do toucinho de um jacá.
Sendo que Zé Bebelo assim na
dianteira sempre cavalhava, vente, superintendeu que não
perseguíssemos aqueles tais, nem neles se atirasse por
comprazimento. O que estavam era em mão de roubando, se soube; como
que tinham até sacos, para carregar dentro as coisas. Num átimo, eu
reluzi quem que eles podiam ser. Só acertei. Pois não foi que um
deles, errando no abrir da fuga, demorou, e perdeu as facilidades;
então, veio do nosso lado, embrafustado, quase debaixo dos cavalos.
Era um pretinho.
Um rapazola retinto, mal aperfeiçoado;
por dizer, um menino. Nú da cintura para os queixos. As calças,
rotas em todas as partes, andavam caicaindo; ele apertou perna em
perna. Arfava chiado, como quem, por todo engano de pressa, tivesse
chupado na boca um gole quente de café demais. Bezerro doente, de
mal-de-ano, às vezes faz assim. Cuido que por não perder de todo as
calças como vestimenta, ele se ajoelhou ― chato no chão, mais
deitado do que ajoelhado. ― A benção! ― pois disse. E a ideia
dele rodou ligeira, pois, quando se notou, tinha tirado do bojo do
saco o que estava lá: que era um pé de alpercata de homem, um
candieirozinho pequeno, desses que vinham da Bahia, uma escumadeira
de cozinha e um arranjado envernizado de couro preto, que nem boldrié
― que tudo jogou fora, para uma banda, o longe que pôde. Seguinte
o que, mostrou à gente o saco vazio, e com isto dizendo, arquejado:
― Tirei não, nada não... Tenho
nada... Tenho nada...
Isso tudo se deu curto, que nem o
mijar dum sapo; e dum modo tal inocente, de quem visse risse. E em
coisa tão tola declarada assim a gente até crê razão, por ser tão
afã de absurdo.
― Donde é que vocês vieram, dondé?
― Zé Bebelo indarguíu.
― A gente quer voltar para casa...
Semos, sim, é do Sucruiú, nhor sim...
Arte que a aproveitar, ele tornou a
atar melhor o resumo de embira, que cinturava aqueles molambos de
calças. E se encolhia, temia; e se ria. Que nome era capaz de ter?
― Guirigó... Minha graça é
essa... Sou filho de Zé Câncio, seu criado, sim senhor...
Tão magro, trestriste, tão
descriado, aquele menino já devia de ter prática de todos os
sofrimentos. Olhos dele eram externados, o preto no meio dum enorme
branco de mandioca descascada. O couro escuro dele era que tremia,
constante, e tremia pelo miúdo, como que receando em si o que não
podia ser bom. E quando espiava para a gente, era de beiços,
mostrando a língua à grossa, colada no assoalho da boca, mas como
se fosse uma língua demasiada demais, que ali dentro não pudesse
caber; em bezerro pesteado, às vezes, se vê assim. Menino muito
especial. Jagunço distraído, vendo um desses, do jeito, à
primeira, era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo,
pensando que padecia agonia, e que carecesse dessa ajuda, por
livração.
― Guirigó, qué que vieram caçar
aqui? Fala!
― O quê qu a gente veio caçar, sim
senhor? Eles vieram, eu também vim... Buscar de comer...
― Ih, ques, menino! Quem te vê
comer essa tralha que você amoitou aí no saco...
O pretinho espichado no chão sacudia
a cabeça, que não que não, que parecia ter gosto de poder negar
assim. ― Mas o de comer todo se acabou... Havia de negar tudo,
renegava! até que tivesse tido mãe, nascido dela, até que a doença
brava estivesse matando o povo do Sucruiú, os parentes todos dele. A
gente queria que aquele traste de menino sentisse em si, e se
entristecesse, por tantas suas desditas chorasse uma lágrima, a
lagrimazinha só, por um momento que fosse. Ah, ele fizesse logo
isso, a gente ficava desconsolado e legítimo no triste, a gente
ficava tranquilizados. Qual, o menino preto negava. O que ele
afirmava, no descaramento firme de seu gesto, era que nem era
ninguém, nem aceitava regra nenhuma devida do mundo, nem estava ali,
defronte dos cascos dos cavalos da gente. Ah, queria salvar seu
corpo, queria escape. Se abraçava com qualquer poeira. De mais, não
queria saber. ― Que podia, que fosse logo embora! ― Zé Bebelo
consentiu ordem. E ainda jogou um pedaço de rapadura, que ele
aparou, fácil, como numa abocada. ― Pra tu adoçar essa tua
tripinha preta! ― foi o que Zé Bebelo gritou. E aquele menino, sem
fungar, sem olhar para trás, pulou em rumo, maneiro e leviano, se
sumiu por onde carecia de ir. Não pensei que fosse tão pequeno,
conforme mesmo era.
― Coitadinho, os dentes dele estavam
alumiando de brancos... ― Diadorim disse.
― Hem? Hem? ― Zé Bebelo falou ―
O que imponho é se educar e socorrer as infâncias deste sertão!
Eu ia fazer o sinal-da-cruz, mas com a
mão não cheguei a bulir, porque isso me pareceu falta de caridade,
pensando no menino pretinho.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande sertão: Veredas

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