quinta-feira, 2 de outubro de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio


22

Quando voltei ela já havia tirado o travesseiro de cima da cabeça – sabia que ela ia tirar – mas ainda não queria olhar para mim, embora estivesse deitada de costas e tudo. Quando dei a volta na cama e me sentei outra vez, ela virou o rosto para o outro lado. Estava me dando um gelo danado. Igualzinho ao time de esgrima do Pencey, quando esqueci os floretes no metrô.
Como vai a Hazel Weatherfield? – perguntei. – Escreveu mais alguma estória sobre ela? A que você me mandou está na minha mala, lá na estação. É muito boa.
Papai vai te matar.
Puxa, quando ela enfia uma coisa na cabeça é duro de tirar.
Não, não vai me matar nada. Na pior das hipóteses, vai me dar outra bronca daquelas e aí me manda para a porcaria daquela academia militar. É só o que ele vai fazer comigo. E, em primeiro lugar, não vou nem estar por aqui. Vou estar muito longe... Provavelmente vou estar naquele rancho, lá no Colorado.
Deixa de piada. Você nem sabe montar a cavalo.
Quem é que não sabe? É claro que sei. Naturalmente que sei. É o tipo do troço que se aprende em dois minutos. Para de mexer nisso.
Ela estava escarafunchando de novo o curativo do braço.
Quem é que cortou o teu cabelo desse jeito? – perguntei. Só então tinha reparado no corte do cabelo imbecil que ela estava usando. Era curto demais.
Não é da tua conta.
Ela também sabe se fazer de besta. Sabe ser malcriada quando quer.
Aposto que você foi novamente reprovado em todas as matérias – ela disse, ainda com aquela voz malcriada.
De certo modo, era até meio gozado. De vez em quando ela fala igualzinho a uma droga de uma professora, e não passa de uma criancinha.
Não, não fui. Passei em inglês – respondi. Aí só de farra, dei um beliscão na bundinha dela. Estava deitada de lado, com o bumbum meio levantado. Ela quase não tem bunda. Não belisquei com força, mas ela tentou acertar minha mão e errou.
Aí, de repente, ela disse:
Por quê que você fez isso?
Ela queria dizer, por quê que eu tinha novamente levado bomba. O jeito que ela falou me deixou meio triste.
Ora, Phoebe, pelo amor de Deus, não me pergunta isso! Estou cansado de todo mundo me perguntar a mesma coisa. Tem um milhão de razões. É um dos piores colégios em que eu já estive. Está cheio de cretinos e de sujeitos perversos. Nunca vi tanta gente ruim na minha vida. Por exemplo, se tinha um grupo batendo papo no quarto dum colega e alguém queria entrar, ninguém deixava, se fosse um cara chato e cheio de espinha. Todo o mundo estava sempre fechando a porta quando alguém queria entrar. Tinha uma porcaria duma sociedade secreta que me convidou para ser membro, e eu não tive coragem de recusar. E tinha esse camarada morrinha e cheio de espinha, o Robert Ackley, que queria fazer parte da tal sociedade. Vivia pedindo para entrar e sendo barrado. Só porque era um bolha e tinha a cara cheia de espinhas. Não gosto nem de falar no assunto. Era um colégio nojento. Pode acreditar no que eu digo.
Ela não disse nada, mas estava me escutando. Pelo jeito da cabeça dela, dava para ver que estava prestando atenção. Ela sempre presta atenção quando a gente lhe diz alguma coisa. E o gozado é que ela quase sempre entende o troço que a gente está falando. Entende mesmo.
Continuei a falar sobre o Pencey. Me deu vontade.
Até os dois professores simpáticos da escola também eram uns cretinos. Tinha esse sujeito velho, o Professor Spencer. A mulher dele vivia dando chocolate quente e outros troços à gente, e eles eram mesmo muito simpáticos. Mas você devia ver ele quando o diretor, o tal do Thurmer, entrava na aula de história e se sentava numa carteira lá no fundo. Ele vivia entrando e sentando no fundo da sala, e ficava lá uma meia hora. Devia achar que estava inspecionando incógnito ou coisa que o valha. Depois de estar sentado algum tempo lá atrás, ele começava a interromper a aula do velho Spencer com as piadas mais bestas. Aí o velho Spencer quase se estourava de tanto rir e tudo, como se o Thurmer fosse uma bosta dum príncipe ou coisa parecida.
Não diz nome feio.
Era de fazer a gente vomitar, juro que era. Aí veio o Dia dos Veteranos. Eles lá comemoram esse troço. É o dia em que todos os trouxas que foram alunos do Pencey, aí por volta de 1776, aparecem e se metem por tudo quanto é canto, com as mulheres, os filhos e todo mundo. Você devia ter visto o camarada que me apareceu, um sujeito já com uns cinquenta anos de idade. Sabe o que ele fez? Bateu no nosso quarto e perguntou se a gente dava licença dele ir ao banheiro. O banheiro era lá no fundo do corredor, não sei por que diabo veio perguntar logo a nós. Sabe o quê que ele disse? Que queria ver se achava as iniciais que tinha gravado na porta de uma das privadas. Pois é, tinha gravado a droga das iniciais dele na porta de uma das privadas, há uns noventa anos, e queria ver se continuavam no mesmo lugar. Aí, meu companheiro de quarto e eu levamos o sujeito até o banheiro e tudo, e tivemos de ficar ali parados enquanto ele catava as iniciais nas portas de todas as latrinas. E não parou de falar o tempo todo, contando que a melhor época da vida dele foi a que passou no Pencey, e nos deu um bocado de conselhos para o futuro e tudo. Puxa, você não faz ideia como ele me deprimiu! Não quer dizer que ele fosse um mau sujeito – não, não era. Mas não é preciso ser um mau sujeito para deprimir a gente. Um cara pode ser bom e mesmo assim deprimir os outros. Para deprimir alguém, basta um sujeito ficar dando uns conselhos cretinos ao mesmo tempo em que procura as iniciais dele na porta de uma privada – basta isso. Não sei. Talvez não tivesse sido tão chato assim se pelo menos ele não estivesse completamente sem fôlego só de subir a escada. O tempo todo que ele ficou procurando as iniciais estava respirando com a maior dificuldade, as narinas dum jeito engraçado, enquanto dizia a mim e ao Stradlater para aproveitarmos o Pencey ao máximo. Puxa, Phoebe! Nem sei explicar. Eu simplesmente não gostava de nada que estava acontecendo no Pencey. Não sei explicar direito.
Phoebe falou alguma coisa que eu não consegui entender. Estava com o lado da boca grudado no travesseiro e, por isso, eu não podia entender direito o que ela dizia.
O quê? – perguntei. – Tira a boca daí. Não posso entender nada do que você fala, com a boca desse jeito.
Você não gosta de nada que está acontecendo.
Quando ela disse isso, fiquei ainda mais deprimido.
Gosto sim. Gosto. É claro que gosto. Não diga isso. Droga, por que você tem que dizer um troço desses?
Porque você não gosta. Você não gosta de nenhum colégio. Você não gosta de um milhão de coisas. Não gosta mesmo.
Gosto! Aí é que você se engana... aí é que você está completamente enganada. Pomba, por quê que você diz isso?
Puxa, como ela estava me deprimindo.
Porque não gosta. Então me diz uma coisa de que você goste.
Uma coisa? Uma coisa que eu gosto? Está bem.
O problema é que não estava conseguindo me concentrar. Às vezes é duro da gente se concentrar.
Quer dizer, uma coisa que eu goste muito? – perguntei.
Mas ela não me respondeu. Estava numa posição esquisita, lá longe, do outro lado da cama, a uns mil quilômetros de distância.
Vambora, responde – falei. – Uma coisa que eu goste muito, ou só uma coisa que eu goste?
Que goste muito.
Está bem.
Mas o problema é que eu não conseguia me concentrar. O mais que consegui lembrar foi das duas freiras que andavam coletando dinheiro naquelas cestinhas velhas. Principalmente daquela dos óculos com aro de ferro. E dum garoto que eu conheci no Elkton Hills. Lá no Elkton Hills tinha esse garoto, chamado James Castle, que cismou de não retirar o que ele tinha dito sobre outro garoto muito mascarado, o Phil Stabile. O James Castle tinha dito que ele era muito mascarado e um dos amigos nojentos do Stabile cagüetou tudo. Aí o Stabile e mais uma meia dúzia de sacanas amigos dele foram até o quarto do James Castle, entraram e trancaram a droga da porta, e tentaram obrigá-lo a retirar o que ele tinha dito, mas ele não retirou. Aí eles se serviram. Nem conto o que fizeram com ele - é nojento demais - mas nem assim ele retirou as palavras, o James Castle velho de guerra. E só vendo o James Castle. Era um magricela, todo raquítico, com uns pulsos da grossura de um lápis. Finalmente, em vez de retirar o que tinha dito, o que ele fez foi pular pela janela. Eu estava no meio do banho e tudo, e mesmo assim escutei o baque do corpo lá em baixo. Mas pensei só que alguma coisa tinha caído pela janela, um rádio, ou uma mesa, ou coisa que o valha, e não um garoto. Aí ouvi todo mundo correndo pelo corredor e se despencando escada abaixo. Botei o roupão e também desci correndo, e lá estava o James Castle, caído bem nos degraus de pedra e tudo. Estava morto, os dentes e o sangue espalhados por todo lado, e ninguém nem ao menos chegava perto dele. Estava com um suéter de gola alta que eu havia emprestado a ele. E não aconteceu nada com os caras que estavam no quarto dele, só foram expulsos do colégio. Nem ao menos foram presos.
Isso foi tudo que me veio à cabeça. As duas freirinhas que encontrei no restaurante e esse garoto, o James Castle, que conheci no Elkton Hills. O gozado é que eu mal conhecia o James Castle, pra dizer a verdade. Era um desses camaradas quietos pra chuchu. Era meu colega na classe de matemática, mas se sentava do outro lado da sala e raramente se levantava para responder a uma pergunta ou para ir ao quadro-negro. Tem uns sujeitos na escola que quase nunca respondem a uma pergunta ou vão ao quadro-negro. Acho que a única vez que conversamos foi quando ele veio pedir emprestado meu suéter de gola alta. Por um triz não caí duro de surpresa quando ele me pediu. Me lembro que estava escovando os dentes, no banheiro, quando ele veio pedir o troço. Contou que um primo dele vinha apanhá-lo para dar um passeio de carro e tudo. Eu nem ao menos sabia que ele sabia que eu tinha um suéter de gola alta. Só sabia que o nome dele vinha bem na frente do meu na lista de chamada. Cabel, R.; Cabel, W.; Castle; Caulfield – ainda me lembro disso. Pra dizer a verdade, quase que não emprestei o suéter. Só porque não conhecia ele direito.
O quê? – perguntei à Phoebe. Ela tinha me dito alguma coisa que eu não ouvi.
Você não consegue nem pensar numa coisa.
Consigo, sim. Consigo.
Bom, então diz.
 Gosto do Allie – respondi. – E gosto de fazer o que estou fazendo agora. De sentar aqui com você, conversando e pensando numa porção de troços, e...
O Allie já morreu... Você sempre diz isso! Se alguém já morreu e tudo, e está no céu, então não é mais...
Sei que o Allie já morreu! Você acha que eu não sei? Mas mesmo assim posso continuar gostando dele, não posso? Pomba, só porque uma pessoa morreu não quer dizer que a gente tem que deixar de gostar dela... Principalmente se era mil vezes melhor do que as pessoas que a gente conhece, e que estão vivas e tudo.
A Phoebe ficou calada. Quando não consegue pensar numa coisa pra dizer, ela trata de ficar caladinha.
De qualquer maneira, gosto disso aqui, agora. Assim como estou agora. Sentado aqui contigo, batendo papo e só...
Mas isso não é uma coisa!
É muita coisa! Claro que é! Por quê que não ia ser? As pessoas nunca acham que um troço assim é alguma coisa. Já estou ficando cheio disso.
Para de dizer coisa feia. Tá bem, então diz outro troço. Uma coisa que você quer ser. Assim como cientista... Ou advogado, ou coisa parecida.
Eu não podia ser cientista. Não sou bom em ciências.
Então advogado, igual ao papai e tudo.
Não tenho nada contra os advogados, mas o negócio não me atrai. Até que é bacana quando um advogado está sempre salvando a vida dos sujeitos inocentes e coisas assim, mas um cara que é advogado não faz nada disso. Só faz ganhar um dinheirão, e jogar golfe, e jogar bridge, e comprar carros, e beber martinis, e fazer pinta de bacana. Mesmo se a gente salvasse as vidas dos sujeitos e tudo, como é que ia saber se estava fazendo o troço porque queria mesmo salvar a vida deles, ou porque queria era ser um advogado bom pra burro, pra todo mundo bater nas costas da gente e dar parabéns no tribunal quando acaba a porcaria do julgamento, os repórteres e tudo, como aparece na droga dos filmes? Como é que eu ia saber se não era na verdade um cretino? O problema é que não ia saber.
Não sei muito bem se a danada da Phoebe entendeu o que eu estava dizendo. Ela é muito criança e tudo. Mas, pelo menos, estava escutando. Se uma pessoa pelo menos presta atenção, aí não é tão ruim.
Papai vai te matar. Vai te matar.
Mas eu nem estava ouvindo. Estava pensando noutro troço, uma coisa amalucada.
Você sabe o quê que eu quero ser? - perguntei a ela. – Sabe o que é que eu queria ser? Se pudesse fazer a merda da escolha?
O quê? Para de dizer nome feio.
Você conhece aquela cantiga: "Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio"? Eu queria...
A cantiga é "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio"! – ela disse. – É dum poema do Robert Burns.
Eu sei que é dum poema do Robert Burns.
Mas ela tinha razão. É mesmo "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio". Mas eu não sabia direito.
Pensei que era "Se alguém agarra alguém" – falei. – Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.
A danada da Phoebe ficou calada um tempão. Aí, quando resolveu falar, foi para dizer: – Papai vai te matar.
Tou pouco ligando se ele me matar – respondi.
Aí me levantei da cama, porque queria telefonar para um sujeito que tinha sido meu professor de inglês no Elkton Hills, um tal de Antolini. Tinha saído do Elkton Hills e agora vivia em Nova York.
– Tenho de dar um telefonema – disse a ela. – Volto num instante. Não dorme não.
Não queria que ela pegasse no sono enquanto eu estava na sala de visitas. Sabia que ela não ia dormir, mas falei assim mesmo, só para ter certeza.
Enquanto ia andando para a porta, ela me chamou e eu me virei. Estava sentada na cama, toda empertigada. Estava tão bonita.
Tem uma colega minha, a Phyllis Margulies, que está me ensinando a arrotar – ela disse. – Escuta.
Prestei atenção e ouvi alguma coisa, mas não era lá nada de excepcional.
Muito bem – falei.
Aí fui para a sala e telefonei para o tal do Professor Antolini.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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